Existem filmes que não precisam de uma nova versão, esse é o caso de A Mão que Balança o Berço (2025). O remake tenta reviver o clássico thriller doméstico dos anos 90, mas acaba oscilando entre boas ideias e a mesmice típica de produções feitas sob medida para plataformas de streaming.

A nova versão, com direção de Michelle Garza Cervera, busca atualizar os traumas e tensões do original de 1992, que marcou época ao explorar medos maternos, cuidados infantis e a invasão silenciosa do lar, mas não alcança o mesmo impacto. O roteiro é de Micah Bloomberg. Estrelam a produção Mary Elizabeth Winstead, Maika Monroe, Raúl Castillo e Martin Starr.

Espelhos, Luto e Obsessão

Competindo com a força do clássico dirigido por Curtis Hanson, o remake se apoia em mudanças temáticas e estéticas que funcionam no papel, mas raramente no resultado. Aqui, acompanhamos Caitlin Morales (Mary Elizabeth Winstead), uma advogada rica e sobrecarregada, e Polly Murphy (Maika Monroe), a babá que surge como salvação e logo se revela uma ameaça. A nova dinâmica de “duas mulheres feridas pelo luto” cria um jogo de espelhos interessante, com Winstead e Monroe interpretando versões distorcidas uma da outra. É a parte mais afiada do filme, pelo menos conceitualmente.

O problema é que a execução não acompanha as ambições. Cervera dirige com competência, mas sem surpresa. O filme adota o mesmo formato engessado dos thrillers modernos, repetindo sustos previsíveis e uma estética limpa demais para gerar tensão real. Tudo o que poderia ser insinuado é jogado com força, como se o público não fosse capaz de perceber nas entrelinhas, na linguagem não verbal. A manipulação psicológica, que é a essência do original, é substituída por estratégias visuais e narrativas óbvias.

Atualizações mais forçadas que relevantes

Mary Elizabeth Winstead e Maika Monroe em cena do trailer de "A Mão que Balança o Berço"
Crédito: 20th Century Studios / Divulgação

O roteiro de Micah Bloomberg tenta integrar temas contemporâneos, como discussões sobre classe, trauma, gênero e até elementos queer. Porém, a maioria dessas inserções soa artificial, quase decorativa, mais preocupada em parecer progressista do que em servir à história. O resultado é um conjunto de ideias empilhadas, mas não desenvolvidas.

Winstead e Monroe seguram o filme com atuações poderosas. Winstead entrega uma protagonista vulnerável, marcada por ansiedade e insegurança, enquanto Monroe domina a tela com seu olhar vazio e comportamento manipulador. As duas elevam o material sempre que possível, mas não conseguem resgatar a narrativa de seus lugares-comuns.

Visualmente, o filme também tropeça. A casa modernista dos Morales é bonita, mas insossa, comprometendo a atmosfera. A direção aposta em fluidez e elegância, mas sacrifica a tensão em nome de uma estética “clean”. O terceiro ato finalmente acelera, mas chega tarde demais para criar um suspense memorável.

O remake ainda tenta trazer atualizações “ousadas” como o casamento inter-racial, protagonista bissexual reprimida, antagonista queer, mas tudo isso é tratado com pressa e sem profundidade, o que enfraquece ainda mais a trama. O subtexto, que deveria sustentar o filme, vira só um enfeite decorativo, algo colocado ali para parecer profundo, mas que não influencia de verdade a narrativa. E a história, que prometia um estudo de dor e obsessão, termina com uma revelação genérica sobre trauma infantil, muito distante da crueldade desconfortante que fez o original funcionar.

Vale a pena assistir “A Mão que Balança o Berço” (2025)?

No fim das contas, A Mão que Balança o Berço (2025) é um thriller que cumpre tabela. Ele é competente, mas previsível. É moderno, mas superficial. Tenta ser atualizado, mas é incapaz de justificar sua existência além de uma nostalgia reciclada. O original era um tapa no imaginário coletivo. O remake é, no máximo, um empurrãozinho tímido. É aquele filme que tampa o buraco de uma noite sem ter algo o que fazer, ou quando você quer ver um filme de suspense que não exige muito da sua mente.

A Mão que Balança o Berço está disponível no Disney+.

Imagem da capa: 20th Century Studios / Divulgação