A Voz de Hind Rajab” confronta o espectador com o som real do medo infantil e expõe os limites morais do suspense diante da barbárie contemporânea

Poucos filmes recentes exigem tanto do espectador quanto “A Voz de Hind Rajab”. Não por imagens explícitas, nem por reconstituições gráficas da violência, mas por algo mais perturbador: a escuta. Ao colocar no centro da narrativa a gravação real da voz de Hind Rajab, menina palestina de cinco anos morta em Gaza em 29 de janeiro de 2024, a diretora Kaouther Ben Hania constrói uma obra que se recusa ao conforto da distância. O resultado é um filme difícil, angustiante e profundamente incômodo, justamente por isso, impossível de ignorar.

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro seu método. Não há reconstrução do ataque. Não há imagens da criança. Há a voz. Uma voz frágil, ofegante, assustada. Uma voz que implora por socorro. Saber que se trata da gravação original muda tudo. O cinema deixa de ser mediação segura e passa a ser confronto direto. O espectador não acompanha uma história. Ele vive uma espera cujo desfecho já sabe ser inevitável.

Crítica - "A Voz de Hind Rajab"
Foto real de Hind Rajab | Crédito: Reprodução/IMDB

Entre a voz da criança e a burocracia da guerra

Kaouther Ben Hania opta por um híbrido entre documentário e ficção. A gravação real de cerca de 70 minutos sustenta a espinha dorsal do filme. Ao redor dela, a diretora encena o funcionamento do centro de atendimento da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (PRCS), onde socorristas lidam com protocolos, mapas, autorizações e limites impostos por um cenário de guerra. É nesse contraste que o filme encontra sua força: a pureza desesperada da voz infantil contra a linguagem burocrática da sobrevivência institucional.

A cada nova ligação, a esperança é renovada. E, logo depois, frustrada. O filme cria uma tensão constante ao acompanhar o avanço lento das ambulâncias em mapas digitais, sempre bloqueadas por exigências de coordenação e segurança. A sensação é de corrida contra o tempo. Ainda assim, o filme insiste em oferecer esperança até os minutos finais. Talvez porque desistir antes seria insuportável.

Personagens que sustentam o filme

Nesse contexto, as atuações ganham peso decisivo. Saja Kilana, como Rana, entrega o coração emocional do filme. Sua personagem precisa manter a calma para que o trabalho continue. Ela acolhe, organiza, respira fundo quando tudo desmorona. Kilana constrói uma atuação contida, mas profundamente empática. Sua dor não explode, ela se acumula. Cada pausa carrega humanidade. Cada palavra tenta proteger a criança do outro lado da linha, mesmo sabendo que isso pode não ser suficiente.

Crítica - "A Voz de Hind Rajab"
O filme mostra a dor de quem se sente impotente | Crédito: Reprodução/IMDB

Motaz Malhees, como Omar, encarna a revolta. É ele quem verbaliza a indignação diante da demora, da burocracia e da aparente normalização da tragédia. Sua atuação é intensa, às vezes impulsiva, mas sempre compreensível. Omar não aceita a lógica fria do protocolo quando uma criança está pedindo ajuda. Sua luta para salvá-la é também a luta contra a sensação de cumplicidade imposta pelo sistema. Malhees dá ao filme um motor emocional de urgência e indignação.

O conflito ético se materializa em Mahdi, interpretado por Amer Hlehel. Chefe do centro, ele precisa equilibrar segurança e desespero. Seguir os processos significa proteger seus socorristas. Ignorá-los pode gerar mais mortes. Hlehel constrói um personagem devastado por dentro, mas obrigado a se manter funcional. Sua impotência diante dos apelos da criança e de seus colegas é um dos elementos mais dolorosos do filme. Já Clara Khoury, como Nasreen, atua como força de contenção. É ela quem tenta manter o foco, a racionalidade e a coesão em meio ao caos.

Escuta, silêncio e impacto

A decisão mais controversa de Ben Hania é, sem dúvida, o uso da gravação real em um contexto de suspense ficcional. Há quem veja exploração. Há quem questione se o impacto emocional não seria maior em um documentário tradicional. O filme não resolve esse debate. Ele o provoca. O que se pode afirmar é que há uma honestidade brutal na proposta. Em um mundo saturado de ficções confortáveis, “A Voz de Hind Rajab” se recusa a suavizar.

O impacto é ampliado pelo desfecho. Ao final, o filme apresenta não apenas a gravação original completa, mas também imagens reais de Amer e Nasreen conversando com Hind e com sua família. O último contato da menina, às 19h30 do dia 29 de janeiro de 2024, ecoa como um silêncio impossível de preencher. A sensação que fica é de impotência absoluta. Tristeza. Medo. E uma dor que não se dissipa com os créditos.

Amer Hlehel em "A Voz de Hind Rajab"
O filme é construído em cima de muita tensão | Crédito: Reprodução/IMDB

Final implacável e impacto brutal em “A Voz de Hind Rajab”

Depois desse momento de tristeza, são mostradas fotos dos tios e primos de Hind, além de imagens dos dois socorristas que chegaram à rua da menina, mas foram mortos antes de alcançá-la. Em seguida, o filme exibe cenas dos carros, tanto da ambulância quanto da família, reforçando a dimensão do caos vivido.

Logo depois, há um relato breve da mãe e um vídeo em que ela se aproxima de um corpo coberto, acariciando o lençol, provavelmente o de Hind Rajab, sua filha. O fechamento traz uma imagem caseira da menina brincando na praia, enquanto a mãe compartilha o quanto ela desejava que a guerra acabasse para voltar ao lugar que tanto amava.

Ben Hania entrega um filme marcante. Não elegante nem confortável, mas necessário. Ele convence justamente por não tentar convencer. Ele expõe, escancara, obriga a ouvir, e, ao fazer isso, transforma a escuta em ato político e moral.

Vale a pena assistir “A Voz de Hind Rajab”?

Sim, se o espectador estiver disposto a enfrentar um cinema que dói. Vale, se houver disposição para ouvir o que normalmente é silenciado. O filme é angustiante, emocionalmente exaustivo e eticamente provocador. Mas também é um registro poderoso de empatia, humanidade e falha sistêmica.

Além disso, “A Voz de Hind Rajab” não oferece catarse ou alívio. O que oferece é memória. E, diante de uma história real que não pode ser esquecida, isso talvez seja o máximo que o cinema pode, e deve, fazer.

Imagem de capa: Reprodução/IMDB