O clássico filme de dupla improvável em que dois agentes com personalidades, passados e visões de mundo opostas são forçados a trabalhar juntos já foi explorado à exaustão pelo cinema. De Loucademia de Polícia (1984) a Tropa de Elite (2007), o gênero construiu um imaginário profundamente masculinizado, rígido e, muitas vezes, hostil à diferença. Agentes Muito Especiais, dirigido por Pedro Antonio, parte dessa estrutura conhecida para subvertê-la por dentro.
Aqui, o diferencial não está apenas na comédia ou na ação bem coreografada, mas na escolha, política e narrativa, de colocar dois policiais abertamente gays no centro da história, sem que isso seja tratado como problema, desvio ou conflito interno a ser “corrigido”. A ideia original, concebida por Paulo Gustavo e Marcus Majella, ganha forma no roteiro de Fil Braz (Minha Mãe É Uma Peça), que equilibra ação, perseguições e humor enquanto flerta com temas de identidade, parceria e representatividade dentro de um ambiente historicamente rígido como o da polícia.
A produção também flerta com filmes clássicos trazendo referências de As Panteras, Kill Bill e 007. e aposta alto no exagero e na caricatura como motor cômico. Estrelam o filme Marcus Majella e Pedroca Monteiro. O elenco ainda possui nomes como Dira Paes, Chico Diaz, Malu Valle, Bárbara Reis, Dudu Azevedo e outros rostos conhecidos.
Sobre a trama

Jeff (Marcus Majella) e Johnny (Pedroca Monteiro) se conhecem durante o processo seletivo para o Centro de Operações de Inteligência da Polícia (COIP). Jeff é confiante, corajoso, performático e plenamente assumido. Johnny, por outro lado, é medroso, estabanado, exímio atirador e ainda vive sob a superproteção da mãe, sem ter feito as pazes com sua própria identidade. O choque entre os dois funciona no nível mais básico da comédia: contraste, tempo cômico e química evidente.
A primeira grande missão da dupla é se infiltrar em um presídio para desmontar o Bando da Onça, quadrilha liderada por uma traficante internacional interpretada por Dira Paes. Mais uma vez, Jeff e Johnny precisam ocupar espaços tradicionalmente masculinizados, agora, o universo do crime, e conquistar respeito sem abrir mão de quem são. O roteiro nunca flerta com a ideia de “performar heterossexualidade” como solução narrativa, um vício comum em comédias mais covardes.
Entre trocas de farpas, situações constrangedoras e perigos calculados para gerar riso, Agentes Muito Especiais constrói sua narrativa sobre a ideia de que diferenças podem virar força, ainda que, muitas vezes, o filme prefira o caminho mais fácil do exagero à sutileza. É nesse equilíbrio instável entre pauta, comédia e ação que o longa revela tanto suas intenções quanto suas limitações.
O humor nasce da vivência, não da negação da identidade

Esse talvez seja um dos maiores méritos do filme: o humor nasce da vivência, não da negação da identidade. As piadas jamais deslegitimam os protagonistas, nem os transformam em caricaturas vazias. Nem sempre tudo funciona, e o roteiro sofre com certa previsibilidade e baixa densidade dramática, mas o equilíbrio entre ação e humor sustenta uma experiência honesta e divertida. Tem momentos tão absurdos no roteiro, que nunca poderia acontecer na vida real, mas como é um filme de comédia, a gente releva.
Dentro desse cenário, Dira Paes é um espetáculo à parte. Sempre que Onça entra em cena, o filme ganha energia, presença e ritmo. É dela os melhores diálogos, os momentos mais vivos e a sensação de que existe ali um filme ainda mais ousado tentando emergir. Sem exagero: é a personagem mais memorável da obra. Os outros atores, também entregam boas cenas, com destaque de Dudu Azevedo, que entrega um bandido casca grossa, mas também um colírio para os olhos e que possui uma subtrama reveladora.
Agentes Muito Especiais não será um fenômeno de bilheteria no nível de Minha Mãe é uma Peça. Ainda assim, entrega uma sessão divertida, carismática e, acima de tudo, necessária.
Representatividade, machismo e a falta de Paulo Gustavo

Existe um peso simbólico impossível de ignorar em Agentes Muito Especiais: a importância de mostrar que homens gays podem ocupar qualquer espaço, inclusive aqueles historicamente dominados pelo machismo, pela virilidade tóxica e pela homofobia institucional, como o ambiente policial e militar.
O filme entende que o maior terror não são os criminosos ou as armas, mas o preconceito estrutural que tenta expulsar corpos dissidentes desses lugares. Ao fazer disso matéria-prima para o humor, e não para a humilhação, o longa se posiciona como um raro exemplo de comédia popular que não ri “de” seus personagens, mas “com” eles.
Marcus Majella está sensacional como sempre, com carões e trejeitos, carrega o filme. Pedroca Monteiro está muito bem. Sua composição é sensível, precisa e cheia de humanidade. Ainda assim, é impossível assistir ao filme sem imaginar Paulo Gustavo como a dupla de Majella. O projeto carrega sua assinatura em cada engrenagem: no humor afetuoso, no escracho político, na recusa ao estereótipo fácil. O filme foi claramente pensado para ele, e se Paulo Gustavo ainda estivesse vivo, a dinâmica entre os protagonistas teria atingido outro patamar de impacto cultural e emocional.
Isso não diminui o trabalho de Pedroca, mas evidencia o tamanho do vazio deixado por Paulo Gustavo no cinema brasileiro. Agentes Muito Especiais acaba funcionando também como um eco tardio de sua visão: uma comédia que entende o riso como ferramenta de sobrevivência, enfrentamento e aliança em um país estruturalmente homofóbico.
Vale a pena assistir “Agentes Muito Especiais”?
Agentes Muito Especiais não revoluciona o gênero, mas ocupa espaços que sempre tentaram fechar portas. Diverte, provoca e afirma, com clareza, que identidade não é obstáculo, é força narrativa. Em tempos de retrocesso e intolerância, isso já é muito mais do que apenas entretenimento.
Agentes Muito Especiais está em cartaz nos cinemas.
Imagem da capa: Daniel Chiacos
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