Esse é um daqueles filmes que chamam atenção logo no começo pelo tema. A história não é exatamente nova, um jovem rico que decide viver uma realidade mais simples para tentar entender melhor a si mesmo. A diferença é que aqui tudo é tratado de forma mais humana e mais próxima da vida real, sem aquela sensação de fantasia ou de solução fácil típica de alguns filmes.

Enzo é rico, mas é um rico possível. Não é um herdeiro bilionário nem alguém completamente fora da realidade. Ele simplesmente quer ser pedreiro porque quer, e essa escolha inicial parece muito verdadeira. O filme começa passando uma sensação de honestidade, sem tentar ensinar uma lição de moral forçada ou criar um grande arco heroico.

As atuações seguem esse mesmo tom. São corretas, funcionam dentro da proposta, mas nenhuma se destaca de forma marcante. Nem mesmo o protagonista, vivido pelo estreante Eloy Pohu, consegue criar momentos realmente memoráveis. Quem chama um pouco mais atenção é Pierfrancesco Favino, ator experiente que transmite segurança em cena, mesmo com pouco tempo de destaque.

Outro ponto interessante é a presença de Vlad, um trabalhador ucraniano que está na França tentando fugir da guerra, mas sem negar sua origem ou seu patriotismo. Esse detalhe aproxima o filme de questões atuais e mostra como conflitos do mundo real afetam a vida de pessoas comuns.

Existe também um clima que lembra um tipo de conto de fadas, mas sem grandes reviravoltas ou finais mágicos. A história mostra como os filhos podem fazer escolhas que decepcionam os pais. No caso de Enzo, a família resiste bastante no começo, mas aos poucos começa a aceitar o caminho que ele escolheu. Esse conflito entre expectativas e individualidade é um dos temas mais fortes do filme.

ENZO (Enzo), do cineasta e roteirista Robin Campillo, mais um sucesso do cinema frânces
Foto: Mares Filmes

Parentalidade que busca preencher suas próprias dúvidas

Muitos pais podem se identificar com essa situação, com o desejo de imaginar um futuro ideal para os filhos sem perceber que eles têm vontades próprias.

Com o passar da história, no entanto, algumas fragilidades aparecem. Aquela decisão de trabalhar na construção civil, que no início parecia uma vocação verdadeira, começa a ficar confusa no terceiro ato. Surge a sensação de que pode ser apenas uma crise da adolescência ou uma forma de rebeldia. Isso enfraquece um pouco a força da narrativa.

A relação com Vlad também influencia nisso. Depois de um conflito entre os dois, Enzo acaba abandonando esse caminho, o que faz parecer que sua escolha talvez não fosse tão firme quanto parecia no começo.

Outro ponto que fica no meio do caminho é a questão da sexualidade do personagem. O filme sugere esse tema, mas não aprofunda. Isso pode frustrar um pouco, ainda mais pensando na tradição do cinema francês de tratar assuntos mais delicados com naturalidade. Por outro lado, essa indefinição também pode ser vista como algo positivo. Enzo tem apenas 16 anos e está em fase de descobertas. O filme acerta ao não tentar rotular sentimentos que ainda estão em construção.

A diferença de classes sociais também aparece, mas de forma sutil. O contraste entre o mundo rico e o mundo dos trabalhadores está presente nas situações e nos ambientes, sem virar o centro da história. Isso ajuda o filme a manter um tom mais observador e menos explicativo.

ENZO (Enzo), do cineasta e roteirista Robin Campillo, mais um sucesso do cinema frânces
Foto: Mares Filmes

Vale a pena assitir?

Tecnicamente, o cinema francês mais uma vez mostra sua qualidade. A fotografia é muito bonita, inclusive nas cenas mais duras do canteiro de obras. A estética reforça bem a separação entre os dois mundos sociais.

No fim das contas, é um filme interessante. Não chega a ser uma obra-prima, mas consegue tratar com sensibilidade temas como escolhas, juventude e as contradições do amadurecimento. Mesmo com alguns problemas de desenvolvimento, a história encontra força na simplicidade e na honestidade.

Foto de capa: Mares Filmes

França | 2025 | 102 min.
Gênero: Drama
Título Original: Enzo
Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, Gilles Marchand
Elenco: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Élodie Bouchez
Classificação: 16 anos
Distribuição: Mares Filmes