Entre representações da cidade como paisagem ou como sintoma, o livro “Homens e Insetos” escolhe o caminho mais incômodo e transforma a cidade em organismo. Por meio de palavras objetivas e frases cruas, Silvio Costta cria um espelho entre esse ser que contamina e se deforma o tempo inteiro e as pessoas que habitam aquele local.

Com ambientação em uma periferia que se dá no encontro da violência e do poder de se resistir,  o livro constrói um mosaico de personagens que orbitam esse mesmo centro instável. Assim, sem nomes claros, figuras como a Repórter, o Homem da Bicicleta e o Investigador contam uma narrativa que, em pequenos capítulos e poucas páginas, conduz o leitor a se sentir imerso naquele espaço urbano tão denso.

Ainda mais, a forma de narrar a história se mostra intrínseca ao seu desenvolvimento. Costta constrói uma escrita descritiva, encorpando a leitura com forte visualização. Por isso, o livro continua fluído apesar de suas sentenças mais rígidas, já que cada uma delas traz uma multitude de detalhes.

Como as peças do quebra-cabeça se encaixam?

É por meio de uma exploração do realismo fantástico, com uma pitada de horror urbano contemporâneo, que “Homens e Insetos” tece uma crítica sobre a relação entre Estado e mídia, e como ela reformula a sociedade. O que mais se destaca no livro não é apenas o retrato da violência, mas sim a forma como ela se mistura ao estranho. Em um dos primeiros capítulos, o narrador questiona:

“Como algo que se espalha, uma ideia, uma cultura, uma forma de viver e continuar teimando em sobreviver, à imposição do terror que usa sempre alguém como exemplo. O verdadeiro terror que vem através da opressão. E quando a opressão vem de uma impressão de algo que não é desse mundo? E quando tudo está além de suas incertezas comuns?” – página 29.

Logo nas primeiras páginas, um bebê de “pele líquida”, sem rosto reconhecível, desloca a narrativa do realismo para um território quase onírico. A partir dali, o mundo deixa de obedecer às regras conhecidas, já que esses personagens compreendem a estranheza e não a refutam de cara. Assim, o leitor precisa seguir o mesmo caminho e aceitar que aquela cidade também se organiza pelo absurdo.

As diferenças entre realidades

Essa convivência entre o cotidiano e o inexplicável dá ao livro uma atmosfera de instabilidade constante. Em um momento, acompanhamos disputas de poder que parecem saídas do noticiário – quando a Repórter solidifica seu público e vira governadora. No outro, a narrativa introduz meninos que levitam e corpos que se transformam quando em contato com o bebê citado.

A introdução do Homem da Bicicleta é a mais emblemática, e a obra brinca com metáforas e parágrafos avassaladores para contar sua história. Trabalhando para o chefe do tráfico, que assume – ou quase isso – o físico de um inseto, sua vida existe na interseção entre abandono social e abuso de poder. Quando seu sonho de ter uma bicicleta se traduz em surras de policiais e um completo desdenho de seu corpo, ele acha abrigo numa comunidade e escancara a violência, tornando-a inescapável.

Vale a pena ler “Homens e Insetos”?

Sim, pois o livro foge da obviedade no retrato da perfieria. Não há aqui a tentativa de “explicar” a violência ou de organizá-la em uma narrativa confortável. Pelo contrário, “Homens e Insetos” insiste em embaralhar os sentidos, contaminando cada palavra e trazendo o leitor ao ápice do desconforto.

“Mas a odisseia da vida do homem da bike é assim, passar o destino sem valer nada. Sair do nada para tentar a vida. Esculpir em cada dia um lampejo de existência. Quis o destino ou escolha, lhe fazer tutor de uma espécie que prolifera na miséria” – página 124.

Imagem de capa: Montagem por Eduarda Goulart

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