“POV: Presença Oculta” tenta misturar brutalidade policial, luto e possessão em um filme claustrofóbico, mas perde força quando abandona o que tinha de mais perturbador
A proposta de “POV: Presença Oculta“, dirigido por Brandon Christensen (“Amizade Maldita”), é clara desde os primeiros minutos. Trata-se de um terror em estilo found footage (subgênero de cinema onde a história é contada através de gravações amadoras, câmeras de segurança ou vídeos pessoais), construído a partir de câmeras corporais de policiais e ambientado em uma ocorrência de violência doméstica que termina em tragédia.
A ideia central funciona: usar o ponto de vista da polícia para discutir violência, culpa e vingança sobrenatural. O problema é que o filme começa com uma proposta incômoda e termina como um terror que não sustenta a própria ambição.
Um prólogo que promete mais do que o filme entrega
A abertura é o ponto mais forte da produção. Dois policiais atendem uma ocorrência aparentemente rotineira e a situação se transforma em um tiroteio tenso e desconfortável. Não é uma sequência pensada apenas para assustar. Ela constrói um clima realista e sugere um filme mais interessado em responsabilidade do que em sustos fáceis.

Nesse início, o longa parece disposto a tratar da brutalidade policial de forma direta. O conflito entre os agentes Bryce (Sean Rogerson) e Jackson (Jaime M. Callica) funciona porque não depende de discursos longos. As diferenças aparecem nas reações. Um reage com frieza e autoproteção. O outro parece carregar o peso do que aconteceu. Essa dinâmica cria um filme que poderia ser mais psicológico do que sobrenatural.
Esse prólogo funciona quase como um curta independente. Ele é direto, tenso e desconfortável. Também deixa claro que o filme tem algo a dizer. A partir daí, a expectativa é de um terror mais adulto, que use o elemento paranormal como consequência da culpa, e não como solução fácil para a narrativa.
A ideia é forte, mas o desenvolvimento é irregular
O uso da câmera corporal é um acerto inicial. Diferente de outros filmes do gênero found footage, aqui a filmagem faz sentido o tempo todo. As câmeras não são ligadas por escolha dos personagens. Elas já fazem parte do trabalho. Isso elimina uma das maiores fragilidades do gênero: a justificativa artificial para continuar filmando em situações extremas.

Nos melhores momentos, “POV: Presença Oculta” consegue criar uma sensação real de claustrofobia. O espectador fica preso ao ponto de vista dos dois policiais. Não há pausa nem alívio. Tudo acontece de madrugada, em tempo contínuo, como se a narrativa estivesse aprisionada no mesmo pânico dos personagens.
Mas é justamente essa escolha que também enfraquece o filme. A ausência de respiro torna difícil criar conexão emocional. Bryce e Jackson são interessantes no início, mas o roteiro não desenvolve os dois como deveria. O longa tenta falar sobre luto, culpa, paternidade e redenção ao mesmo tempo. Nenhum desses temas se aprofunda o suficiente para sustentar o peso dramático que o filme tenta construir.
Quando o terror vira repetição
A primeira metade constrói tensão de forma eficiente. O problema começa quando o filme precisa avançar. Em vez de desenvolver a ideia central, a narrativa passa a repetir a mesma estrutura: escuridão, ruídos, câmera tremendo e sustos repentinos. O que parecia um terror psicológico vira um filme dependente de fórmulas.

Há momentos em que o filme realmente cria uma atmosfera perturbadora. Alguns cenários abandonados funcionam bem. O uso de locações reais ajuda a manter o clima sombrio. Mas essa atmosfera perde força quando o roteiro começa a apostar em soluções fáceis.
A parte central se arrasta. O filme poderia ser mais curto. Bastariam 10 ou 20 minutos a menos para manter o impacto do começo. Em vez disso, a narrativa entra em um ciclo repetitivo. O terror deixa de ser psicológico e passa a depender apenas de efeitos visuais simples.
Um final que enfraquece tudo o que veio antes
O maior problema de “POV: Presença Oculta” está na reta final. O filme constrói a expectativa de um desfecho mais perturbador, mais cruel ou até mais simbólico. Nada disso acontece. O que aparece é uma solução previsível, que transforma o terror em algo genérico.

A presença sobrenatural, que poderia funcionar como metáfora de culpa ou violência, acaba reduzida a uma figura típica do gênero. Nesse momento, o filme perde aquilo que o diferenciava. Em vez de aprofundar o conflito moral, o roteiro opta por uma ameaça física mais simples. A sensação é de que o filme abandona a própria proposta para buscar um susto fácil.
Mesmo assim, há mérito no risco. É raro ver um terror de baixo orçamento tentar discutir brutalidade policial sem transformar o tema em algo superficial. O filme tem uma ideia forte. O problema é que não consegue sustentar essa ideia até o fim.
A sensação é clara: havia um filme mais forte escondido dentro dessa história. Um terror mais psicológico, mais crítico e mais incômodo. O que chega ao final é uma versão mais convencional, que não consegue manter a força do início.
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Vale a pena assistir “POV: Presença Oculta”?
“POV: Presença Oculta” tem uma ideia interessante, um início forte e alguns momentos realmente tensos. O uso da câmera corporal funciona. A atmosfera também funciona em partes.
Mas o filme não consegue manter a qualidade que promete nos primeiros minutos. Ele perde ritmo, repete soluções e termina de forma previsível. Para quem gosta de terror found footage, ainda pode valer a experiência. Para quem espera um filme mais profundo ou mais marcante, o resultado provavelmente vai decepcionar.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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