Thriller político de Paul Thomas Anderson, “Uma Batalha Após a Outra”, mistura ação, sátira e drama familiar para retratar uma América em colapso ideológico
Poucos cineastas contemporâneos conseguem transformar indignação política em cinema sem abrir mão de um certo risco. Em “Uma Batalha Após a Outra”, Paul Thomas Anderson (“Licorice Pizza”) retorna à parceria criativa com o escritor Thomas Pynchon (“Vício Inerente”) para construir um filme que é, ao mesmo tempo, thriller político, drama familiar e alegoria sobre a falência das utopias. O resultado é uma obra inquieta, excessiva e deliberadamente desconfortável, que aposta menos em respostas e mais em fricção.
Dirigido e roteirizado por Anderson, o longa se ancora no gênero do thriller distópico para refletir sobre um país à beira do autoritarismo. Ambientado em uma América transformada em estado policial, o filme acompanha guerrilheiros revolucionários que tentam enfrentar um sistema de repressão institucionalizada, centros de detenção de imigrantes e uma elite nacionalista que opera nos bastidores do poder. No centro dessa engrenagem, porém, está uma história íntima, atravessada por paternidade, desejo e culpa.

Política como farsa e tragédia cotidiana
Inspirado livremente em Vineland, romance de Pynchon publicado em 1990, “Uma Batalha Após a Outra” atualiza o embate. Anderson dilui as fronteiras temporais entre passado e presente, criando um espaço onde esses tempos se confundem. Não há slogans explícitos nem referências diretas, mas a atmosfera de paranoia, vigilância e normalização da violência estatal fala diretamente ao agora.
A narrativa acompanha Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), um revolucionário desleixado, parte de uma célula armada que ataca centros de detenção na fronteira com o México. Bob não é um líder nem um estrategista. Sua função é quase ridícula: soltar fogos de artifício como distração. Essa escolha já sinaliza o tom do filme, que trata o gesto revolucionário como algo ao mesmo tempo urgente e pateticamente ineficaz.
Ao redor dele orbitam figuras mais determinadas, como Perfidia (Teyana Taylor), líder carismática e radical do grupo. Anderson não romantiza a guerrilha. As ações parecem pequenas diante da máquina de poder que enfrentam. A sensação constante é a de uma luta perdida antes mesmo de começar, o que desloca o foco do filme da revolução em si para os efeitos psicológicos dessa resistência interminável.

Leonardo DiCaprio e o peso da derrota
Leonardo DiCaprio entrega aqui uma de suas atuações mais interessantes justamente por abandonar qualquer traço de heroísmo tradicional. Seu Bob é confuso, emocionalmente instável e claramente deslocado no mundo que ajudou a criar. Com o tempo, ele se afasta da revolução e se agarra à paternidade como último sentido possível. Essa transição é o coração emocional do filme.
DiCaprio explora com precisão a dimensão cômica do personagem sem transformá-lo em caricatura. O humor nasce do desgaste, da memória falha, da incapacidade de lembrar códigos revolucionários ou até de carregar um celular. Anderson entende que a comédia é a chave para humanizar DiCaprio, e o ator responde com uma performance que equilibra decadência e empatia. Bob não é um símbolo; é um homem quebrado tentando fazer a coisa certa tarde demais.

Sean Penn e o rosto do autoritarismo
Se Leonardo DiCaprio simboliza o fracasso da utopia, por outro lado Sean Penn (“Sobre Meninos e Lobos”) personifica o cinismo do poder em “Uma Batalha Após a Outra“. Nesse sentido, o Coronel Steven Lockjaw poderia facilmente resvalar para a caricatura. No entanto, Penn evita esse caminho com precisão. Assim, constrói um personagem rígido, reprimido e, sobretudo, inquietantemente humano.
Lockjaw não funciona apenas como um vilão ideológico. Ao contrário, ele é movido por desejo, frustração e contradições internas. Como resultado, sua presença em cena se torna perturbadora e imprevisível. Além disso, o ator aposta em contenção física e vocal, o que reforça o peso simbólico do personagem sem torná-lo excessivo.
Nesse contexto, a relação ambígua entre Lockjaw e Perfidia se impõe como um dos eixos mais incômodos do filme. Marcada por dominação, erotismo e violência simbólica, essa dinâmica expõe a interdependência entre forças que, em tese, se odeiam. Ao mesmo tempo, Paul Thomas Anderson sugere que os conflitos raciais, políticos e ideológicos dos Estados Unidos estão profundamente entrelaçados.
Dessa forma, o embate deixa de ser apenas externo e passa a operar no plano íntimo. Por fim, Sean Penn sustenta essa complexidade com uma atuação contida e precisa, dando densidade a um personagem que poderia ser apenas alegórico, mas que se revela essencial para o impacto político e emocional do filme.

Forma, excesso e inquietação
Visualmente, “Uma Batalha Após a Outra” é hipnótico. Filmado em VistaVision, com fotografia de Michael Bauman (“Licorice Pizza”), o longa aposta em closes intensos e movimentos de câmera fluidos. A trilha sonora de Jonny Greenwood (“Trama Fantasma”) funciona como força motriz da narrativa, ditando o ritmo emocional e amplificando a sensação de urgência constante.
Anderson mistura gêneros: drama, sátira, ação, suspense e alegoria convivem no mesmo espaço. Essa fusão pode afastar parte do público, mas é justamente ela que dá identidade ao filme. As perseguições de carro, especialmente no clímax, dialogam com o cinema de ação clássico, mas são atravessadas por um olhar quase onírico, mais interessado em sensação do que em lógica.
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Vale a pena assistir “Uma Batalha Após a Outra”
“Uma Batalha Após a Outra” não é um filme confortável nem conciliador. Ele não oferece soluções claras nem heróis fáceis. Em vez disso, propõe que a verdadeira revolução talvez não esteja nas grandes ações coletivas, mas nos vínculos humanos que insistem em sobreviver em meio ao colapso. Ao deslocar o foco da política macro para a intimidade da família, Anderson constrói um comentário mais ambíguo, e talvez mais honesto, sobre o esgotamento das narrativas ideológicas.
Portanto, sim, vale a pena assistir. Especialmente para quem busca um cinema político que foge do óbvio. Com atuações fortes de Leonardo DiCaprio e Sean Penn, uma direção inquieta e uma proposta que desafia classificações fáceis, o filme entrega uma experiência densa, caótica e provocadora. Não é uma obra de consenso, mas é marcante justamente por se recusar a ser simples.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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