Zafari, filme de Mariana Rondon usa o horror distópico para retratar escassez, colapso social e a lenta animalização do cotidiano
Zafari se apresenta como uma fábula distópica ambientada em um país latino-americano nunca nomeado, mas facilmente reconhecível. Dirigido por Mariana Rondon, o longa parte de uma situação simples e perturbadora: quando a comida acaba, o que resta às pessoas para continuar vivas? A partir dessa pergunta, o filme constrói uma narrativa sufocante, em que a fome não é apenas um dado social, mas uma força que reorganiza relações, valores e limites morais.
Desde os primeiros minutos, Zafari estabelece um mundo em colapso silencioso. A história acompanha Ana (Daniela Ramírez), seu marido Edgar (Francisco Denis) e o filho adolescente, moradores de um prédio cercado pela selva. O símbolo máximo de privilégio é a piscina do condomínio, em contraste direto com a miséria crescente ao redor.
Esse espaço, inicialmente organizado por regras e hierarquias, se transforma gradualmente em campo de disputa. A fome, aqui, não surge de forma espetacular. Ela se infiltra. Primeiro na despensa vazia. Depois nos corpos. Por fim, nas decisões.

Encenação contida e o peso da sobrevivência em Zafari
Mariana Rondon opta por uma encenação contida. O desconforto nasce da repetição. Falta luz, água e comida. Apartamentos são abandonados e a narrativa se ancora no cotidiano, o que torna a experiência mais angustiante. Não há grandes discursos sobre política ou economia. Ainda assim, o contexto se impõe, embora o país não seja citado, os dados conhecidos sobre a Venezuela ecoam no subtexto.
O elemento mais simbólico da trama é o hipopótamo recém-chegado ao zoológico vizinho. Enquanto os humanos passam fome, o animal recebe frutas, legumes, água limpa e cuidados. A ironia é evidente, mas nunca verbalizada. O zoológico funciona como espelho do prédio residencial. Ambos são espaços cercados e controlados. A diferença está em quem é protegido. Conforme a crise se agrava, até mesmo o animal deixa de ser alimentado.
Nesse cenário, a atuação de Daniela Ramírez se torna central. Sua Ana é construída a partir do desgaste físico e emocional. O corpo emagrecido, o olhar fixo, os gestos mecânicos. A fome se torna obsessão. Ramírez evita excessos. Sua interpretação aposta na contenção, o que reforça o desconforto. Quando a personagem começa a vasculhar armários alheios ou negociar restos de comida, não há dramatização, há necessidade.
Francisco, vivido por Francisco Denis, representa outra resposta ao colapso. Nervoso, inseguro, ele tenta manter uma aparência de controle. Observa os vizinhos mais pobres com desconfiança. No entanto, sua autoridade se esvazia à medida que a realidade se impõe. O filho adolescente, por sua vez, encarna o distanciamento típico da idade, mas também uma adaptação silenciosa a um mundo sem garantias.

Horror social sem monstros: quando a fome rompe a lógica
Zafari dialoga diretamente com o gênero do horror social, não há monstros sobrenaturais. O medo nasce do reconhecimento. As cenas estranhas, por vezes grotescas, parecem seguir uma lógica própria, guiada pela fome. A narrativa se fragmenta. A coerência clássica dá lugar a uma sucessão de situações desconfortáveis. Essa escolha pode afastar parte do público. Ainda assim, ela reforça a ideia central: em situações extremas, a lógica também entra em colapso.
O filme sugere que a animalização não é consequência direta da política, mas parte da natureza humana sob pressão. Essa leitura amplia o alcance da obra. Ao evitar referências explícitas, Rondon propõe um espaço universal. Poderia ser a Venezuela. Poderia ser qualquer outro país em crise. Essa generalização, no entanto, também gera limites. A sátira raramente direciona sua crítica aos responsáveis pelo colapso. O foco permanece nos indivíduos, o que provoca uma sensação constante de opressão.
Visualmente, Zafari trabalha com contrastes claros. O prédio moderno em meio à selva. A piscina azul em um mundo sem água. O hipopótamo solitário em sua própria piscina. Ao final, quando a sobrevivência exige atos extremos, o filme abandona qualquer ilusão de normalidade. Comer deixa de ser um gesto cotidiano.
Zafari não oferece conforto, tampouco apresenta soluções. Sua força está em acompanhar a descida gradual à degradação. O espectador não é convidado a julgar, mas a observar. Essa escolha torna a experiência pesada. Em alguns momentos, repetitiva. Ainda assim, a angústia gerada é coerente com o que o filme se propõe a discutir.
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Vale a pena assistir “Zafari”
Zafari é um filme difícil, desconfortável e deliberadamente angustiante. A direção de Mariana Rondon constrói uma fábula distópica que usa a fome como motor narrativo e simbólico. A atuação precisa de Daniela Ramírez sustenta o peso emocional da história. Além disso, o longa entrega imagens e situações que permanecem após os créditos. Vale assistir se a proposta for encarar uma experiência dura, que coloca a sobrevivência acima de qualquer ilusão de civilidade.
Imagem de capa: Vitrine Filmes/Divulgação
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