Em comum, as três franquias carregam o peso da nostalgia e uma pergunta: por que Hollywood está olhando novamente para os sucessos dos anos 2010?
Existe uma sensação curiosa no calendário da cultura pop de 2026: algumas das histórias que acompanharam uma geração durante a infância e a adolescência estão, novamente, ocupando espaço nas telas.
Em 20 de novembro, “Jogos Vorazes” retorna aos cinemas com “Amanhecer na Colheita”, enquanto “Percy Jackson e os Olimpianos” estreia sua terceira temporada no Disney+. Pouco mais de um mês depois, em 25 de dezembro, uma nova geração de atores entra em Hogwarts para a estreia da série de “Harry Potter” produzida pela HBO Max.
Os três casos são diferentes. Um é um prelúdio cinematográfico, outro é a continuação de uma série e o terceiro é uma nova adaptação de uma história já levada aos cinemas. Ainda assim, existe um ponto em comum: todos retomam universos que ajudaram a definir o imaginário de quem cresceu nos anos 2000 e 2010.
Quando crescer significava esperar pelo próximo filme
Para uma geração, acompanhar uma saga era quase um ritual. Havia o livro que chegava às livrarias, o trailer que era repetido no computador, a estreia marcada no calendário e as discussões sobre quem seria o personagem favorito. Antes de o streaming transformar temporadas inteiras em lançamentos quase instantâneos, acompanhar uma franquia também significava esperar.
“Harry Potter” foi um dos maiores exemplos desse fenômeno. Entre 2001 e 2011, os oito filmes acompanharam uma década da vida de uma geração de espectadores. “Jogos Vorazes”, por sua vez, chegou aos cinemas entre 2012 e 2023, enquanto os livros de “Percy Jackson” conquistaram leitores ao longo dos anos 2000 e ganharam sua primeira adaptação cinematográfica em 2010.
Essas franquias não se limitavam às salas de cinema. Elas estavam nos livros, nas camisetas, nos fóruns, nas fanfics, nos testes de personalidade, nas discussões entre amigos e, posteriormente, nas redes sociais. Para muita gente, portanto, lembrar dessas histórias não significa apenas lembrar de uma obra de ficção, é também lembrar de quem era quando descobriu aquela história.
É por isso que a nostalgia funciona de maneira tão particular no entretenimento. Quando um estúdio anuncia o retorno de uma franquia conhecida, ele não está oferecendo somente uma nova produção. Está acionando uma memória afetiva que já existe.
“Jogos Vorazes” volta para Panem, mas não para a mesma história

Entre os lançamentos de 2026, “Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita” talvez seja o exemplo mais interessante de como uma franquia pode explorar a nostalgia sem simplesmente repetir sua história original.
O filme chega aos cinemas em 20 de novembro de 2026 e adapta o quinto livro da série de Suzanne Collins, publicado em 2025. A trama se passa 24 anos antes dos acontecimentos do primeiro Jogos Vorazes e começa no dia da colheita do 50º Jogos Vorazes, conhecido como Segundo Massacre Quaternário.
O protagonista será Haymitch Abernathy, personagem que os espectadores conheceram nos filmes originais, interpretado por Woody Harrelson. Na nova produção, ele será vivido por Joseph Zada. Além dele, o elenco reúne nomes como Whitney Peak, Mckenna Grace, Jesse Plemons, Elle Fanning, Maya Hawke, Kieran Culkin, Ralph Fiennes, Glenn Close e Billy Porter. Francis Lawrence, responsável por quatro dos filmes anteriores da franquia, retorna à direção.
A escolha de Haymitch é significativa. Na saga original, o personagem funcionava como mentor de Katniss e Peeta, carregando consigo as marcas de uma experiência que o público conhecia apenas parcialmente. Agora, a franquia volta para o passado e cria uma oportunidade para contar uma história que não depende de Katniss Everdeen. A nostalgia está no universo reconhecível; a novidade está naquilo que ainda não foi contado.
Percy Jackson cresce junto com seu público

LEIA MAIS: “Ahsoka”, “Percy Jackson” e mais! Veja os lançamentos a caminho do Disney+
No Disney+, a estratégia é diferente. A terceira temporada de “Percy Jackson e os Olimpianos” estreia em 20 de novembro, mesma data de “Amanhecer na Colheita”. A temporada adapta “A Maldição do Titã”, terceiro livro da série de Rick Riordan. A história coloca Percy diante de uma nova missão: depois do desaparecimento de Annabeth, o semideus parte em uma jornada que envolve a captura da amiga, uma deusa aprisionada e uma profecia capaz de colocar o futuro do Olimpo em risco.
Para quem conheceu Percy Jackson ainda na adolescência, acompanhar a série significa observar personagens que também estão envelhecendo. Walker Scobell, Leah Sava Jeffries e Aryan Simhadri começaram a produção como jovens atores e avançam na história conforme seus personagens crescem. Assim, a série estabelece uma relação diferente com a nostalgia. Em vez de reconstruir o passado, continua em frente.
Depois de uma primeira tentativa de adaptar os livros para o cinema, a produção do Disney+ também representa uma nova oportunidade para a franquia encontrar seu público audiovisual. Agora, Percy não está simplesmente sendo reintroduzido: ele está construindo uma trajetória ainda mais longa na televisão.
Esse movimento permite que diferentes gerações acompanhem a mesma história por motivos diferentes. Para alguns, é o reencontro com os livros da adolescência. Para outros, é a primeira vez que o Acampamento Meio-Sangue aparece diante dos seus olhos.
Hogwarts abre as portas novamente

Se Jogos Vorazes retorna ao passado e Percy Jackson continua avançando, Harry Potter faz algo completamente diferente: começa tudo outra vez. A nova série da HBO Max estreia em 25 de dezembro de 2026 e volta ao primeiro livro da saga, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”.
O novo trio será formado por Dominic McLaughlin como Harry, Arabella Stanton como Hermione e Alastair Stout como Rony. O elenco também inclui John Lithgow como Dumbledore, Janet McTeer como Minerva McGonagall, Nick Frost como Hagrid e Paapa Essiedu como Snape.
A diferença em relação aos filmes anteriores é fundamental: desta vez, a história será contada em formato de série e terá como base os sete livros de J.K. Rowling. Nesse contexto, a produção poderá dedicar mais tempo a personagens, acontecimentos e detalhes que precisaram ser condensados ou excluídos dos filmes.
O questionamento que fica é: como fazer uma história tão marcada por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint parecer nova outra vez? Para a HBO Max, a resposta é não tentar apagar ou sequer superar o que veio antes. Os novos atores não precisam substituir as versões anteriores, mas construir suas próprias interpretações.
Para quem cresceu esperando pelo próximo filme, ver outra criança chegar a Hogwarts pode causar estranhamento; para uma nova geração, porém, esse será simplesmente o seu Harry Potter. É assim que uma franquia atravessa o tempo: não substituindo memórias, mas criando novas.
O passado virou propriedade intelectual
Existe, entretanto, uma questão maior por trás desse movimento. O retorno de “Harry Potter”, “Jogos Vorazes” e “Percy Jackson” acontece em um momento em que grandes estúdios procuram propriedades já conhecidas pelo público. Em vez de apresentar apenas personagens inéditos, a indústria também aposta em universos que carregam reconhecimento imediato.
A lógica é simples. Uma história completamente nova precisa convencer o público a se interessar por ela. Uma franquia conhecida já começa com uma vantagem: existe uma comunidade esperando por aquele universo.
No caso de “Jogos Vorazes”, por exemplo, os cinco filmes anteriores arrecadaram mais de US$ 3,3 bilhões mundialmente, segundo a própria Lionsgate. “Harry Potter” então, carrega uma força cultural ainda maior. São oito filmes, sete livros e uma comunidade que continua ativa décadas depois da publicação da primeira história.
Ainda assim, reduzir esses retornos apenas a uma aposta comercial seria ignorar o aspecto cultural desse movimento: essas histórias não estão apenas sendo vendidas novamente, mas reintroduzidas a uma geração que as conheceu e apresentadas a outra que ainda está descobrindo esses universos.
LEIA TAMBÉM: Marvel, Disney, DC e mais: confira todas as novidades de TV anunciadas na SDCC
Não é exatamente uma volta aos anos 2010
As franquias chegam a um cenário bem diferente daquele em que se tornaram fenômenos. O streaming mudou a forma de acompanhar séries e filmes, enquanto as redes sociais transformaram a divulgação, o debate e até a maneira como o público reage a uma produção antes mesmo de sua estreia.
As obras conhecidas voltam, mas apresentadas em formatos e momentos diferentes, que fazem sentido com a geração que os consome agora. Por isso, talvez seja mais preciso falar em releitura do que em retorno. A indústria recupera personagens e universos que já provaram seu valor, mas precisa encontrar uma maneira de fazê-los funcionar novamente para quem já conhece a história e, ao mesmo tempo, despertar a curiosidade de quem nunca a acompanhou.
No fim, a nostalgia pode ser o ponto de partida, mas não é suficiente para garantir que uma franquia continue relevante. O passado pode até ser o que chamar atenção. Mas é o que essas novas versões fizerem com ele que vai determinar se o público vai querer ficar.
Imagem de capa: Reprodução/IMDb
Estagiária sob supervisão de Giovanna Affonso.
📲 Entre no canal do WhatsApp e receba novidades direto no seu celular e Siga o Geekpop News no Instagram