O crescimento do BookTok amplia o interesse de Hollywood por best-sellers, mas adaptar um livro de sucesso ainda é um desafio

Uma história pode conquistar milhares de leitores antes mesmo de chegar às telas. Com recomendações nas redes sociais, comunidades de fãs e listas de best-sellers, livros populares ganham visibilidade e despertam o interesse da indústria audiovisual. Nesse cenário, o BookTok, comunidade literária do TikTok, se tornou uma vitrine para obras que conquistam leitores e podem alcançar novos públicos por meio do cinema e do streaming.

A presença da literatura no audiovisual também aparece nos números da indústria. Um relatório da Publishers Association, divulgado em março de 2026, revelou que 48% das séries dramáticas originais lançadas no Reino Unido e nos Estados Unidos pela Netflix, Disney+ e Amazon Prime Video entre janeiro de 2024 e junho de 2025 eram adaptações de livros.

Além disso, entre os 50 filmes de maior bilheteria mundial lançados de 2020 a 2024, as adaptações literárias registraram uma receita de bilheteria 57% superior à dos filmes não adaptados analisados. Os dados reforçam a presença de obras literárias no cinema e no streaming. No entanto, não significam que o sucesso editorial garanta bons resultados nas telas. Afinal, conquistar leitores é apenas uma etapa do processo, que também depende das escolhas criativas e comerciais de cada produção.

Quando os leitores ajudam a construir o público

As comunidades digitais transformaram a maneira como muitas pessoas descobrem livros. No TikTok, vídeos com recomendações, resenhas e discussões sobre personagens ajudam obras a alcançar novos leitores. Em 2025, por exemplo, livros recomendados pela comunidade BookTok movimentaram milhões de vendas em mercados europeus, segundo dados divulgados pela próprio TikTok. Esse alcance ajuda a explicar por que as redes sociais se tornaram relevantes para o mercado editorial.

O fenômeno também ganhou força com os romances de Colleen Hoover. A escritora norte-americana conquistou uma audiência expressiva entre os usuários do BookTok, e algumas de suas obras chegaram aos cinemas. Em 2024, “É Assim que Acaba”, adaptação de seu romance homônimo, arrecadou aproximadamente US$ 351 milhões mundialmente, segundo o Box Office Mojo.

O resultado demonstrou o potencial comercial da produção, que chegou às telas com uma base de leitores já familiarizada com a história. Ainda assim, a popularidade do livro não explica sozinha o desempenho do filme, que também depende de fatores como elenco, divulgação, distribuição e recepção do público.

Em outubro de 2026, outra obra da autora chegou aos cinemas brasileiros. “Verity”, suspense estrelado por Anne Hathaway e Dakota Johnson, adapta o livro publicado por Hoover em 2018. Na trama, a escritora Lowen Ashleigh é contratada para concluir uma série de romances de Verity Crawford, uma autora que ficou incapacitada após um acidente. Durante o trabalho, Lowen encontra um manuscrito que levanta dúvidas sobre o passado da escritora e os acontecimentos envolvendo sua família.

O filme arrecadou US$ 32,6 milhões em seu fim de semana de estreia na América do Norte, segundo a Associated Press. O resultado marcou um início expressivo para a adaptação, mas a bilheteria inicial, isoladamente, não permite determinar seu desempenho comercial a longo prazo.

“Verity”, suspense de Colleen Hoover, ganhou uma adaptação cinematográfica estrelada por Anne Hathaway e Dakota Johnson. | Créditos: Amazon MGM Studios

O desafio de adaptar uma história conhecida

A popularidade de um livro também traz um desafio para os estúdios: os leitores chegam às salas de cinema com expectativas próprias. Personagens, diálogos e acontecimentos já fazem parte da experiência de quem conhece a obra, o que torna qualquer mudança um possível motivo de discussão.

Ao adaptar uma história, roteiristas e diretores precisam decidir quais elementos preservar e quais modificar para que a narrativa funcione em outra linguagem. Um romance pode desenvolver personagens e conflitos ao longo de centenas de páginas, enquanto um filme precisa organizar esses acontecimentos em um período muito mais curto.

As redes sociais ampliam as discussões sobre essas escolhas. Fãs comparam cenas com o material original, comentam decisões de elenco e compartilham suas impressões após a estreia. Assim, a mesma comunidade que ajuda a divulgar uma produção também pode questionar o resultado quando ele não corresponde às expectativas.

Isso não significa, porém, que toda mudança provoque rejeição ou que a fidelidade ao livro garanta uma boa adaptação. Uma produção pode preservar os principais acontecimentos e ainda enfrentar problemas de ritmo ou desenvolvimento. Da mesma forma, uma versão que modifica partes da história pode conquistar novos espectadores e apresentar uma interpretação interessante da obra.

Segundo filme da saga "Jogos Vorazes"
Euan Garrett, Elizabeth Banks e Jennifer Lawrence como Peeta Mellark, Effie Trinket e Katniss Everdeen no segundo filme da saga. Crédito: Divulgação/Lionsgate

O sucesso do livro é apenas o começo

A presença de adaptações literárias no cinema e no streaming não é uma novidade. Franquias como “Harry Potter”, “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes” demonstraram como livros podem dar origem a universos audiovisuais capazes de reunir grandes comunidades de fãs. Mais recentemente, as redes sociais ampliaram as possibilidades de descoberta e mantiveram determinadas obras em evidência entre diferentes públicos.

Para Hollywood, encontrar uma história que já desperta interesse pode representar uma vantagem na disputa pela atenção do público. No entanto, popularidade editorial, engajamento nas redes sociais e desempenho nas telas são indicadores diferentes. Um best-seller pode não repetir seu sucesso no cinema, enquanto uma adaptação pode atrair espectadores que nunca tiveram contato com o livro original.

Por isso, o desafio não está apenas em escolher uma obra popular, mas em compreender o que tornou aquela história relevante e como traduzir esse interesse para outra linguagem. O sucesso literário pode abrir portas para Hollywood, mas conquistar o público nas telas exige mais do que uma comunidade de fãs.

Créditos da capa: Reprodução/IMDb