O livro de poesias “Intermitências Apenas” de Valéria Grassi convida as pessoas a parar um pouco, fazer uma pausa, assim como se permitir dar um tempo. A obra é escrita em um formato inovador: entre vírgulas e com dez linhas. 

Além disso, a capa do livro é outra característica interessante: uma flor com um caule, que lembra o sinal gráfico. O livro está à venda no site da Editora Cambucá. Valéria Grassi falou com o GeekPop News sobre o livro e sua trajetória como escritora. Confira a entrevista.

Você poderia se apresentar para os nossos leitores? No seu Instagram você se define como escritora, filha, mãe, etc. Tantas coisas que é até impossível descrever. Quem é você, Valéria Grassi?

Oi Anna Flávia, espero que minha resposta chegue numa boa hora. Que bom que você começou me perguntando sobre quem eu sou porque posso então falar sobre a escolha de fazer uma biografia daquela forma extensa. 

Eu quis mesmo sair da biografia usual que normalmente lista um currículo acadêmico. É bom que as pessoas saibam qual é a nossa formação e para mim as coisas simples da vida também me definem. 

Algumas pessoas me falaram que pensaram sobre quais as coisas que listariam depois que viram essa minha biografia. Eu fico alegre quando algo deste livro serve como uma provocação para ampliar o jeito que a gente se vê. Considero isso bem importante: ampliar o jeito que a gente se vê.

“Se eu pudesse, daria uma vírgula para as pessoas”. Esse verso resume bem seu livro “Intermitências Apenas”. De onde veio essa ideia, de que às vezes as pessoas precisam colocar uma vírgula no seu caminho? Fazer uma pausa?

Há um desejo por trás desse livro. Literalmente. Porque ele acabou ficando na quarta capa, quase como se ele tivesse pulado para fora. E isso foi na última hora. Impressionante como as coisas foram se encaixando. O desejo de dar uma vírgula para as pessoas surgiu da minha observação deste mundo em que vivemos e talvez do meu incômodo de ver tanta gente sempre com pressa. 

Eu mesma conheço bem uma rotina estressante. Já fui redatora publicitária. Aprendi muito com este tempo em que eu vivo. Respeito a correria alheia, mas também dei ouvidos aquele incômodo que um dia senti.

Vamos falar mais uma vez sobre sua vida pessoal. Na sua biografia você cita que criava suas poesias, do mesmo modo que construía manuscritos com flores que recortava e colocava junto às palavras. Como acontecia esse processo?

Quanto ao processo criativo deste livro, posso dizer que foi tudo tão demorado, tudo tão na contramão da atualidade, tudo tão manuscrito. É como se eu tivesse inventado um jeito de ser lenta. E sabe de uma coisa? Eu encontrei uma alegria nisso, nisso de descobrir um jeito meu de fazer e refazer até chegar no formato ideal. 

Então foi dedicação e depois mais dedicação, escrever e reescrever, como uma coisa que eu precisava fazer. Hoje eu vejo que eu não podia falar de pausa e ser bem rápida. Seria contraditório. Eu ainda não sei quase nada sobre quem vai ler. Só sei que ele está aí para quem quiser abri-lo. 

E estou orgulhosa dele ter ficado exatamente assim, com essa capa sem nada escrito nela, só um símbolo, uma metáfora para um desejo, minha vírgula simbolizada por uma coisa encontrada na natureza, uma foto que fiz numa das minhas caminhadas.

O livro é escrito entre vírgulas e com dez linhas? Como surgiu a ideia desse formato?

Esse formato foi sendo construído a partir da ideia de escrever apenas entre vírgulas. Fui testando e encontrando o ritmo que eu queria. Só muito tempo depois que defini as dez linhas. Aí tive que reescrever muitas páginas.

Qual é exatamente a mensagem que você quer passar com o livro? Quem você espera que leia?

Este livro foi deixando muitas mensagens para mim. Ele me ensinou muito sobre foco, escuta, resiliência, persistência, mas principalmente sobre autodeterminação. Eu ia gostar se ele meio que transpirasse algumas dessas coisas, mas eu sei que em cada um tudo fica diferente.

Você é ou já foi uma pessoa com vida corrida? Em algum momento você já pensou ou fez uma pausa?

Eu sempre questionei muito o frenesi absurdo que alguns trabalhos impõem e que acaba gerando uma falta de tempo para questões importantes da vida pessoal. Eu fui uma redatora publicitária que não abria mão de buscar os filhos na escola, eu sabia que isso era pouco, mas esse pouco parecia um exagero para aquele grupo. 

É uma velha questão essa, de equilibrar o tempo dedicado. O que é muito para uns, é quase nada para outros. Considero importante que eu saiba o quanto valem para mim as horas do meu dia.

Você diz que gostaria que essa pausa possibilitasse uma nova descoberta. Quais descobertas seriam essas? Alguma em mente?

O que a pausa pode trazer de descoberta é tão indefinido. É tudo tão circunstancial. Mas estou tentada a dizer que a melhor descoberta é a de si mesmo. Talvez uma pista disso seja o lugar onde escrevi meu nome neste livro. Ele não está na capa. Ele não está na folha de rosto. Você vai lendo e uma hora me encontra.

Quais são seus planos? Pretende escrever outro livro de poesias? Ou se aventurar em outro gênero literário?

Eu já estou escrevendo sim um outro livro. Ele ainda está numa fase de não saber exatamente o que ele é, mas está mais para um romance. Eu quero que ele seja cheio de digressões, mas parece que depois de tanto tempo sendo concisa entre as vírgulas, tem algo ainda que eu preciso recuperar. Talvez um fôlego maior. Mas eu já estou me exercitando.

Para finalizar, você poderia mandar uma mensagem para os nossos leitores?

Neste livro eu fui repetindo versos que eu acabei chamando de ecos.  Esses ecos pequenos, sozinhos numa página em branco, podem servir para provocar o interesse pela leitura do texto de onde ele saiu. 

Eu podia deixar vários desses ecos aqui, mas vou escolher um que me parece algo bom porque é algo simples, mas que eu considero importante que a gente internalize como uma responsabilidade pessoal e intransferível:

“,  é meu o esforço de procurar as coisas em mim ,”

Muito obrigada pela entrevista!

Um abraço para você, Anna Flávia, para sua equipe e para seus leitores. Quem faz perguntas tem sempre o meu “muito obrigada”.