Com 21 anos de história e a 18ª temporada chegando ao fim em 12 de outubro, a sitcom mostra como protagonistas egoístas e moralmente questionáveis podem sustentar uma comédia por décadas

Nem todo protagonista precisa ser admirável para conquistar o público. Enquanto muitas histórias acompanham personagens que enfrentam desafios, reconhecem seus erros e amadurecem, algumas sitcoms encontram humor justamente na ausência dessa transformação. Seus protagonistas continuam egoístas, imaturos e cheios de contradições, mas é dessa combinação que surgem conflitos capazes de render temporadas inteiras.

Um dos principais exemplos é “It’s Always Sunny in Philadelphia”. Lançada em 2005, a produção acompanha um grupo de amigos que administra o Paddy’s Pub, um bar na Filadélfia. Ao longo de mais de duas décadas, a série construiu sua identidade a partir das decisões desastrosas de seus protagonistas, que frequentemente colocam os próprios interesses acima de qualquer consideração pelos outros.

A série, disponível no Disney+, completa 21 anos em 2026 e se mantém como a sitcom live-action mais longeva ainda em atividade na televisão americana. Com a 18ª temporada, a produção amplia esse recorde e reforça uma característica central de sua fórmula: em vez de depender da evolução pessoal dos protagonistas, a série renova suas histórias ao colocá-los em situações inéditas que expõem, mais uma vez, os mesmos defeitos de caráter.

Uma gangue de protagonistas moralmente questionáveis

No centro da história está um grupo que dificilmente seria considerado um exemplo de amizade saudável. Dennis Reynolds (Glenn Howerton) é controlador e narcisista, enquanto sua irmã, Dee (Kaitlin Olson), vive em busca de reconhecimento. Mac (Rob Mac) tenta sustentar uma imagem grandiosa de si mesmo, Charlie (Charlie Day) age frequentemente por impulso e Frank Reynolds (Danny DeVito) transforma a falta de escrúpulos em um estilo de vida.

Apesar das diferenças, os cinco compartilham uma característica: quase sempre acreditam que seus próprios interesses devem vir primeiro. Quando surge uma oportunidade de ganhar dinheiro, conquistar prestígio ou provar que estão certos, eles raramente consideram as consequências para os demais. O resultado são planos absurdos, rivalidades mesquinhas e conflitos que poderiam ser evitados se alguém estivesse disposto a agir com um pouco de bom senso.

Os personagens não precisam tomar decisões inteligentes para movimentar a história. Pelo contrário, suas tentativas de controlar situações, manipular uns aos outros e escapar das consequências acabam agravando os problemas. Quanto mais insistem em defender os próprios interesses, maior costuma ser o desastre.

Charlie Day, Rob McElhenney, Glenn Howerton, Kaitlin Olson em "Its Always Sunny in Philadelphia"
A gangue do Paddy’s Pub transforma egoísmo, rivalidade e péssimas decisões em situações absurdas em “It’s Always Sunny in Philadelphia”. | Créditos: Reprodução

A popularidade de protagonistas moralmente questionáveis levanta uma questão interessante: por que continuamos acompanhando personagens com os quais dificilmente gostaríamos de conviver?

Em “It’s Always Sunny in Philadelphia“, a resposta passa pela diferença entre identificação e aprovação. O público pode reconhecer a necessidade de vencer uma discussão, o desejo de receber atenção ou a dificuldade de admitir um erro sem concordar com as atitudes extremas dos personagens.

Assim, a série parte de comportamentos reconhecíveis e os leva a situações absurdas, transformando pequenas falhas humanas em conflitos de grandes proporções. Além disso, a comédia frequentemente expõe a distância entre a imagem que os protagonistas têm de si mesmos e a maneira como realmente agem. Entretanto, o desenrolar das situações costuma revelar suas contradições e se utilizar disso para provocar risadas.

Quando a falta de evolução vira parte da fórmula

Em dramas e histórias de amadurecimento, a evolução dos protagonistas costuma conduzir a narrativa. Os personagens enfrentam as consequências de suas escolhas, reconhecem os próprios erros e aprendem com eles. Nas sitcoms, porém, a repetição pode cumprir outra função: preservar a dinâmica que faz o público voltar a cada episódio.

Essa fórmula não significa que a série precise repetir as mesmas histórias. A criatividade está justamente em encontrar situações diferentes para explorar personalidades já conhecidas. O público não acompanha a transformação definitiva dos protagonistas, mas as novas maneiras pelas quais eles demonstram os próprios defeitos.

Outra produção que trabalha com essa lógica é “Veep”. Na sátira política, Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) e sua equipe são movidas por ambição, disputas internas e interesses pessoais. Ambas encontram humor em personagens que frequentemente sabotam a si mesmos enquanto tentam conquistar poder ou reconhecimento.

A repetição, nesse caso, não representa necessariamente uma limitação narrativa. Ela funciona como parte do contrato entre a série e o público: os personagens continuam reconhecíveis, mas cada nova situação oferece outra oportunidade para explorar suas contradições.

Julia Louis-Dreyfus como Selina Meyer em “Veep”, sitcom que transforma a ambição política e os interesses pessoais em sátira.
Julia Louis-Dreyfus como Selina Meyer em “Veep”, sitcom que transforma a ambição política e os interesses pessoais em sátira. | Créditos: Reprodução

Por que sitcoms não precisam mudar seus protagonistas?

A chegada da finale da 18ª temporada oferece uma oportunidade para observar o que mantém “It’s Always Sunny in Philadelphia” relevante depois de 21 anos. O humor também nasce de figuras imperfeitas, conflitos recorrentes e situações nas quais os interesses individuais se sobrepõem à convivência harmoniosa. Cada série trabalha esses elementos de maneira própria, mas todas mostram que protagonistas não precisam ser modelos de comportamento para sustentar uma narrativa cômica.

No fim, o público não precisa admirar esses personagens para continuar interessado em suas histórias. A familiaridade permite reconhecer seus padrões, enquanto a imprevisibilidade das situações mantém o humor vivo. Em vez de perguntar se eles finalmente vão aprender com os próprios erros, o espectador quer descobrir qual será a próxima confusão.

Depois de mais de duas décadas, a série continua explorando essa contradição. A gangue do Paddy’s Pub não precisa se tornar melhor para continuar rendendo boas histórias. Afinal, em determinadas sitcoms, o que mantém a comédia funcionando não é a capacidade dos protagonistas de mudar, mas a criatividade com que conseguem permanecer exatamente os mesmos.

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