“Não volte sem ele” , da editora Mondru, marca a estreia do escritor Rafael Caneca e retoma um episódio trágico e silenciado da história do Brasil. Os campos de concentração criados pelo governo do Ceará durante a grande seca de 1932 foram uma grande tragédia humanitária e guardam uma história brutal.
A narrativa se passa no período em que o governo cearense criou os chamados “currais do governo”, descrito como “campos de concentração” que impediam que os sertanejos afetados pela seca migrassem para a capital, Fortaleza. Dessa forma, a obra é uma ficção que retoma um passado que, para Rafael Caneca, “merece ser lembrado para que jamais se repita”.
“Foram estruturas criadas para conter e segregar os mais pobres, sob uma violência estatal explícita, para evitar que os sertanejos pobres se deslocassem para Fortaleza e ‘sujassem’ a capital. Ainda assim, muitos sertanejos mantinham a esperança, amparados na sua fé e religiosidade”.
Rafael Caneca
Enredo: o jovem Tomás e a travessia pelo sertão
“Não volte sem ele” acompanha Tomás, um jovem enviado pelo pai à capital em busca do irmão Antônio. Em meio à seca que toma conta do estado, o jovem parte levando a santa de madeira que sempre o protege e na cabeça a fala do pai: não volte sem ele. No entanto, a busca o leva aos temidos “campos de concentração”, onde o governo confinou milhares de retirantes durante a seca. Desse modo, em meio à fome e a doenças devastadoras, Tomás descobre o destino do irmão, assim como passa a tentar salvar a si mesmo.
A História Real
A saga de Tomás é a mesma de milhares de nordestinos da época. Os “currais do governo” ou “currais humanos” do Ceará são uma história trágica e desconhecida por grande parte dos brasileiros. Esses foram os nomes populares pelos quais ficaram conhecidos sete campos de concentração criados no Ceará durante a seca de 1932.
Esses locais foram criados sob o pretexto de oferecer assistência e “socorro público” aos retirantes. No entanto, o verdadeiro objetivo dessas estruturas era o isolamento social, ou seja, impedir que os sertanejos chegassem a Fortaleza, protegendo as elites urbanas da capital.
Ao longo das estradas de ferro que cortavam o estado, o governo montou pontos estratégicos para barrar os migrantes. Nos campos, as famílias viviam sem higiene e água potável. Também eram vigiadas por guardas armados e não podiam sair por vontade própria. Além disso, centenas de pessoas morriam diariamente não apenas devido à fome, mas também a epidemias de doenças como sarampo e varíola.
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Sobre o autor
Rafael Caneca, 40 anos, é servidor público e assessor jurídico do Ministério Público do Estado do Ceará. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), sendo especialista em Direito Internacional. Escreve desde a infância e mantém o perfil literário Pacote de Textos, dedicado ao incentivo à leitura.
Também é integrante do Coletivo de Escritores Delirantes. Conquistou o 1º lugar no Prêmio de Literatura BNB Clube 2017 com o conto “Tapera”. Também recebeu menções honrosas do Ideal Clube (2012 e 2014) e uma homenagem na Semana do Ministério Público de 2023, ao lado de autores como José de Alencar, Rachel de Queiroz e Moreira Campos. Atualmente, trabalha em dois novos projetos. O primeiro é um romance baseado na queda do Edifício Andrea (2019), em Fortaleza. Também está escrevendo e um livro de contos que narram tragédias ambientadas em cenários paradisíacos.
Créditos: Divulgação
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