Sem canonização oficial, túmulos de santos populares, também conhecidos como milagreiros de cemitério, atraem fiéis, relatos de graças e histórias ligadas ao sobrenatural

A relação entre morte, fé e devoção popular ajuda a explicar por que determinados túmulos se transformam em pontos constantes de visitação. Em São Paulo, ao menos nove cemitérios reúnem sepulturas conhecidas como as de milagreiros de cemitério, pessoas que, após a morte, passaram a receber pedidos, promessas e relatos de intercessões atribuídas ao além. O mapeamento foi realizado pela concessionária Consolare, responsável pela administração de cemitérios públicos da capital.

Embora a Igreja Católica não os reconheça como santos, esses personagens ocupam um espaço próprio na religiosidade popular. Seus túmulos recebem velas, bilhetes, flores e objetos deixados por visitantes que relatam curas, aprovações em exames e proteção espiritual. O projeto da Consolare identificou essas sepulturas com placas informativas, organizando histórias que, até então, circulavam principalmente pela tradição oral.

Ainda assim, esses milagreiros surgem conforme os milagres acontecem. Ou seja, pode haver muito outros que sequer são conhecidos pela maioria das pessoas.

Túmulo da milagreira Maria Judith
Túmulo da milagreira Maria Judith | Crédito: Consolare/Divulgação

Como surgem os milagreiros de cemitério

O processo de transformação de uma pessoa comum em milagreiro não segue regras formais. Em geral, começa com um relato isolado atribuindo um acontecimento positivo à intercessão de alguém já falecido. Com o tempo, novas narrativas se acumulam, reforçando a ideia de que aquele morto “ouve” pedidos. A repetição desses relatos cria uma rede informal de devoção.

Na maioria dos casos, a fama surge sem qualquer iniciativa institucional. Antes mesmo do reconhecimento oficial do projeto, os túmulos já eram visitados e ornamentados. A falta de canonização não impede que fiéis vejam esses personagens como intermediários entre vivos e mortos, sobretudo em pedidos ligados à saúde, aos estudos ou à proteção familiar.

Histórias conhecidas e menos conhecidas nos cemitérios paulistanos

Entre os casos mais citados está o de Felisbina Muller, sepultada no Cemitério da Quarta Parada. Pouco se sabe sobre sua biografia, mas relatos apontam que seu corpo teria permanecido incorrupto após a morte. A partir daí, passaram a ser atribuídas a ela graças relacionadas à saúde, à proteção de animais e à aprovação em vestibulares.

No Cemitério da Consolação, o túmulo de Maria Judith também se tornou ponto de visitação frequente. Segundo a tradição popular, ela teria sido vítima de violência doméstica. Após sua morte, fiéis passaram a associar seu nome a conquistas acadêmicas, especialmente aprovações em exames. O local reúne bilhetes e mensagens deixadas por visitantes.

Ainda no mesmo cemitério está Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos. Personagem histórica do Brasil Imperial, sua atuação em obras sociais durante a vida contribuiu para que, após a morte, surgissem relatos de intercessões. Com o tempo, seu túmulo passou a integrar rotas informais de peregrinação.

Milagreiros de Cemitério - Filisbina Muller
Placa da milagreira Filisbina Muller | Crédito: Consolare/Divulgação

Infância, morte e devoção: Antoninho Marmo e a Bebê Noeminha

Outro nome recorrente é o de Antoninho da Rocha Marmo, menino nascido em 1918, no bairro do Bom Retiro, durante a gripe espanhola. Segundo registros reunidos por pesquisadores, Antoninho demonstrava forte vínculo com a fé católica e teria previsto a própria morte, ocorrida aos 12 anos.

Após seu falecimento, fiéis passaram a associar relatos de curas ao seu nome. Seu túmulo, também no Cemitério da Consolação, segue recebendo visitas. Diferentemente de outros milagreiros, a Igreja Católica reconhece Antoninho como Servo de Deus e conduz seu processo de canonização.

No Cemitério de Santo Amaro, a história da Bebê Noeminha, nome dado a Noêmia Jessnitzer, chama atenção. A criança viveu apenas seis meses, em 1899. Seu túmulo ficou conhecido por supostamente verter água utilizada por fiéis para tratar doenças, sobretudo em crianças. Mesmo após a transferência da sepultura por questões sanitárias, a devoção permaneceu ativa.

Entre o medo, a fé e a permanência da memória

Os milagreiros de cemitério ocupam uma zona limítrofe entre religião institucional, crença popular e imaginário ligado à morte. A presença constante de visitantes mantém essas histórias em circulação, reforçando a ideia de que determinados túmulos funcionam como pontos de contato com o invisível.

Contudo, ao registrar essas narrativas, o projeto não legitima milagres, ele organiza um fenômeno que segue vivo nos corredores silenciosos dos cemitérios brasileiros.

Imagem de capa: Reprodução/TV Globo