Orides Fontela (1940-1998) é conhecida como autora central da poesia brasileira produzida no século XX. Pioneira nas vertentes contemporâneas, a escritora construiu um caminho original frente às correntes dominantes da época. Até hoje, suas obras existem interseção entre a concisão da linguagem e a densidade filosófica.

Nascida na pequena cidade de São João da Boa Vista (SP), Fontela cresceu longe dos centros culturais, apesar de ter contato constante com a literatura. Ainda jovem, foi buscar uma vida nas artes na capital paulista, onde cursou filosofia na Universidade de São Paulo (USP).

Em meados da década de 60, o crítico literário conterrâneo Davi Arrigucci Jr. descobriu a poetisa, levando um poema dela para seu então orientador Antonio Candido. Entre conexões externas e movimentações do destino, as palavras de Fontela integram a mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst e Adélia Prado.

Mais sobre o estilo da Orides Fontela

Em suas obras, Fontela nunca prezou por uma escrita confessional, mas sim pelo relato mais observacional, marcado por menções à natureza e suas ramificações. Assim, em sua poesia, figuras como pássaros, flores e rios dialogam com seu próprio cotidiano urbano. De acordo com o crítico literário Candido, a escrita de Fontela continha singularidades marcantes:

“[…] dizer densamente muita coisa por meio de poucas, quase nenhumas palavras, organizadas numa sintaxe que parece fechar a comunicação, mas na verdade multiplica as suas possibilidades”.

Tendo vivido em meio à precariedade material, com os pés na marginalidade, a poeta permitia que sua experiência informasse sua arte. Ao mesmo tempo, críticos argumentam que essa instabilidade na vida pessoal contrastava com a alta exigência intelectual da poesia. Concisa e livre de enfeites, sua escrita retratava, em poucas palavras, aquilo que é abstrato.

Por isso, sofreu comparações com diversos autores, alguns dos quais marcaram sua relação com a poesia. Como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, Fontela falava do abstrato comum ao cotidiano das pessoas. De acordo com texto publicado em 1991 pela própria autora, sua adolescência da autora foi marcada por nomes como Gonçalves Dias, Manuel Bandeira e Guimarães Rosa.

O legado de suas obras

Foi a partir de um poema publicado no jornal “O município” que Fontela adentrou o universo editorial, chamando atenção de Arrigucci Jr., que a incentivou a publicar seu primeiro livro “Transposição” (1969). Nessa obra, sua linguagem começou a ganhar o formato e estilo que caracterizam a carreira da poeta.

Alguns dos títulos de Orides Fontela | Crédito: Montagem por Eduarda Goulart/Reprodução

Nos anos seguintes, lançou suas outras coletâneas – “Helianto” (1973), “Alba” (1983), “Rosácea” (1986) e “Teia” (1996). Além disso, “Alba” foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria de Poesia.  E também, Orides foi premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1996, por “Teia”.

Durante essa época, Fontela produzia poemas ainda mais enxutos, radicalizando a própria forma, Os poemas frequentemente surgiam a partir de palavras-núcleos, que funcionam como conceito e imagem.

Sua importância para a cultura brasileira

Apesar do reconhecimento crítico e da publicação de suas obras pela Editora Hedra, a autora não se integrou totalmente aos circuitos literários mais consagrados. Por viver uma vida repleta de obstáculos, estava constantemente preocupada sobre o futuro de seu trabalho, chegando a dar os direitos autorais para Antonio Candido.

“Ela tinha pavor que a obra dela desaparecesse. À beira da morte, procurou o Arrigucci com essa preocupação, e ele a tranquilizou, dizendo que a obra iria permanecer, a poesia, ficar”, conta Rita Palmeira, curadora da 24ª Flip.

Assim, cabe às iniciativas culturais contemporâneas manter sua memória e sua arte vivas. Por isso, a 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenegeará Orides Fontela. O evento propõe ampliar o número de leitores de Orides, além de expandir o conhecimento sobre suas obras.

Entre março e abril de 2026, a Hedra pretende publicar novas edições dos cinco livros da escritora, além do livro “O enigma Orides: uma biografia”, de Gustavo de Castro, entre abril e julho. Ainda mais, a editora vai lançar um box com a obra completa no próximo ano, que conta com textos inéditos. A partir de iniciativas como essas, o legado de Fontela se mantém vivo no imaginário cultural brasileiro.

Imagem de capa: Reprodução/Estadão