Um Hino de Natal, da editora GLOBAL, é, à primeira vista, uma história simples: um homem avarento, um Natal frio e algumas visitas inesperadas. Mas Dickens transforma essa simplicidade em um convite direto ao coração do leitor. Ebenezer Scrooge não é apenas um velho ranzinza que detesta festas; ele é o retrato de tudo aquilo que vai endurecendo quando o tempo passa, sem afeto suficiente, sem troca, sem pausa para o outro.

Ao acompanhar sua trajetória, percebemos que o livro fala menos sobre castigo e muito mais sobre possibilidade. Dickens nos lembra, com delicadeza, que mudar não exige juventude, nem grandes feitos heroicos, exige apenas disposição. Não há julgamentos severos nem sermões longos. O autor prefere estender a mão ao leitor, ainda que, aqui e ali, dê um leve puxão de orelha, daqueles que incomodam só o suficiente para fazer pensar.

A narrativa avança com leveza, mas não superficialidade. Cada encontro, cada lembrança e cada cena carrega um peso emocional silencioso, que se acumula sem pressa. Quando a história chega ao fim, ela não se encerra de verdade: permanece. É uma história curta, mas que deixa eco. Daquelas que terminam e fazem a gente ficar alguns segundos em silêncio, como quem acabou de ouvir algo importante — e sabe que aquilo ainda vai reverberar por um tempo.

Quem é Charles Dickens?

Charles Dickens é um daqueles autores que parecem conhecer as pessoas por dentro. Nascido na Inglaterra do século XIX, ele transformou experiências duras, pobreza, trabalho infantil, desigualdade social,  em literatura capaz de emocionar, indignar e, curiosamente, confortar ao mesmo tempo.

Sua obra é extensa e bastante conhecida. Entre seus livros mais famosos estão Oliver Twist, David Copperfield, Grandes Esperanças e Um Conto de Duas Cidades. Neles todos, Dickens demonstra uma habilidade especial para criar personagens marcantes, quase maiores do que a própria história. São figuras imperfeitas, cheias de manias, falhas e contradições, justamente por isso, tão fáceis de reconhecer. 

Em Um Hino de Natal é como se Dickens condensasse, em poucas páginas, tudo aquilo que atravessa a sua obra: a crítica social, o humor delicado, a empatia profunda e a confiança, nada ingênua, na possibilidade de transformação humana.

A tradução de Cecília Meireles

Ler Dickens traduzido por Cecília Meireles é como ouvir uma história contada por alguém que sabe exatamente onde baixar a voz, onde fazer uma pausa e onde sorrir com o leitor.

Sua tradução não tenta “atualizar” Dickens nem o tornar excessivamente solene. Pelo contrário: ela preserva a delicadeza, o ritmo e a emoção do texto, com um português que soa natural e, ao mesmo tempo, cuidadosamente lapidado.

Cecília traduz com sensibilidade de poeta. As palavras fluem sem esforço, e a leitura ganha um tom quase intimista, como se a história estivesse sendo compartilhada como um presente. O resultado é um texto acolhedor, que respeita o clássico sem o engessar. 

A nova edição de 2025 

A edição de 2025 acrescenta uma camada visual que conversa muito bem com a obra. As ilustrações de Lelis não competem com o texto; elas acompanham, sugerem, ampliam o sentido da história. Há nelas um equilíbrio bonito entre sombra e afeto, exatamente como a história pede.

A capa dura não é apenas um detalhe estético: ela transforma o livro em objeto de permanência. Não parece um livro “para ler e guardar”, mas um livro “para reler e presentear”. Como aqueles que passam de mão em mão, de geração em geração, sem perder o encanto.

É uma edição que respeita o leitor e o texto, algo cada vez mais raro e muito bonito. 

Um Hino de Natal continua sendo um clássico não porque fala do Natal, mas porque fala de mudança, e mudar nunca sai de moda. Nesta combinação específica, Dickens, Cecília Meireles e uma edição cuidadosa, o livro ganha ainda mais calor humano.

É uma leitura que conforta sem ser ingênua, emociona sem ser piegas e faz pensar sem pesar. Um lembrete gentil (e um pouco bem-humorado) de que nunca é tarde para ser mais generoso, com os outros e consigo mesmo. Se você procura um clássico que abrace, provoque e fique por perto depois da última página, este é um ótimo lugar para pousar.