Segundo capítulo da nova temporada de “Como Água Para Chocolate” transforma o luto em conflito moral e empurra Tita e Pedro para escolhas irreversíveis

Após uma estreia marcada pela suspensão emocional e pela dor da separação, o segundo episódio da segunda temporada de “Como Água Para Chocolate” deixa claro que a série não pretende oferecer alívio imediato ao espectador. Ao contrário, o capítulo aprofunda o estado de sofrimento instaurado anteriormente e transforma o luto em motor narrativo. A sensação predominante é a de desgaste emocional: personagens seguem em movimento, mas carregando feridas que ainda estão longe de cicatrizar.

Dirigido por Julián de Tavira, dentro do território do drama romântico histórico, o episódio avança para um terreno ainda mais incômodo ao deslocar o foco do desejo reprimido para a culpa e a obrigação. Aqui, amar não é um gesto de liberdade, mas uma fonte constante de conflito.

As decisões dos personagens não nascem da vontade, e sim da pressão familiar, da tradição e da violência estrutural que atravessa a narrativa. A ideia central se consolida com clareza: quando o amor é submetido a essas forças, ele deixa de ser refúgio e passa a cobrar um preço alto, emocional, físico e moral, que ninguém consegue pagar sem perdas.

Review de "Como Água Para Chocolate"
Elena e suas filhas na série | Crédito: HBO Max/Divulgação

Entre despedidas e escolhas impostas, o amor cede ao dever

O episódio se estrutura a partir de retornos. Pedro (Andrés Baida) consegue chegar a tempo de se despedir do pai, Don Pedro (Mauricio Garcia), morto por tifo. A cena é breve, mas fundamental. Ao permanecer ao lado do pai até o fim, Pedro se reconecta com uma figura que sempre mediou seus conflitos familiares. É também nesse momento que nasce uma das decisões mais frustrantes da narrativa: a pedido do pai, Pedro aceita voltar para Rosaura (Ana Valeria Becerril). Não por amor, mas por dever. A série deixa evidente o peso dessa escolha, que passa a corroer o personagem ao longo do episódio.

O contraste com Tita (Azul Guaita) é evidente. Vivendo na casa de Dr. Brown (Francisco Angelini), ao lado dele e de seu filho, Tita experimenta uma felicidade rara na série. Há cuidado, respeito e uma rotina que sugere possibilidade de futuro. Enquanto isso, Pedro vive o oposto. Ao lado de Rosaura, sua existência se torna cada vez mais sufocante, marcada por silêncio, frustração e ressentimento. O roteiro acerta ao não romantizar esse retorno conjugal, tratando-o como o que ele é: uma prisão emocional.

Azul Guaita em "Como Água para Chocolate"
Azul Guaita como Tita | Crédito: HBO Max/Divulgação

A fazenda como território de trauma, cuidado e resistência

Paralelamente, a fazenda se transforma em espaço de horror. Após o ataque, Elena (Irene Azuela) está paralítica, acometida por uma infecção grave. Fina (Lesslie Apodaca), por sua vez, carrega o trauma mais explícito da temporada até aqui, após ser abusada pelos invasores. A série aborda esse arco com seriedade e respeito, sem transformar a violência em espetáculo. Quando Tita retorna à fazenda para ver a mãe, mesmo após tudo o que sofreu, Elena mantém o tratamento cruel. A dinâmica entre as duas segue marcada por ressentimento e negação.

Ainda assim, é Tita quem assume o cuidado. Contra a vontade da mãe, ela passa a assisti-la e, ao mesmo tempo, se dedica a ajudar Fina a lidar com os traumas. Esse gesto reforça o amadurecimento da personagem, agora menos movida apenas pelo desejo e mais pela responsabilidade afetiva. A trama dos rebeldes também avança: escondidos e passando fome, eles enfrentam novas perdas. Gertrudis (Andrea Chaparro) descobre estar grávida e considera abortar, um conflito que adiciona camadas políticas e morais à narrativa.

Azul Guaita é Tita
Azul Guaita é Tita | Crédito: HBO Max/Divulgação

A queda definitiva de Elena

O ponto mais simbólico do episódio surge quando Elena pede que Tita volte à cozinha. Ao provar um prato feito com amor, a matriarca experimenta algo próximo da alegria. Chega, inclusive, a reencontrar uma memória amorosa do passado. No entanto, fiel à sua paranoia, Elena passa a acreditar que Tita colocou algo em sua comida para envenená-la. Em delírio, ela ingere um remédio e acaba se envenenando. A morte de Elena encerra um ciclo de opressão, mas não oferece alívio imediato.

O retorno de Pedro e Rosaura à fazenda intensifica o drama final. Tita os recebe e descobre a gravidez de Rosaura. Pedro, por sua vez, descobre que Tita está noiva. As revelações se acumulam sem tempo para digestão emocional. A morte de Elena, sela um capítulo marcado por perdas e decisões irreversíveis.

Vale a pena assistir a 2ª temporada de “Como Água Para Chocolate”?

Sim. O segundo episódio aprofunda conflitos, amplia as consequências emocionais e confirma a maturidade dramática da série. Azul Guaita e Irene Azuela seguem em atuações intensas, enquanto o roteiro aposta menos no romance idealizado e mais na complexidade moral. É um capítulo duro, denso e essencial para entender os caminhos trágicos que a história escolhe percorrer.

imagem de capa: HBO Max/Divulgação