Na reta que conduz à metade da trama, Dona Beja intensifica conflitos, amplia vilanias e aposta no humor para reorganizar o jogo dramático

A nova leva de capítulos de “Dona Beja“, do 16 ao 20, marca a chegada à metade da narrativa com mudanças sensíveis de tom e foco. Criada por Daniel Berlinsky e António Barreira, com direção de Hugo de Sousa, a novela reafirma seu lugar no drama histórico ao tensionar maternidade, desejo, culpa e poder. O eixo central, desta vez, está na gravidez, tanto como promessa quanto como ameaça.

Este texto analisa como esses cinco episódios reorganizam os conflitos, destacam atuações específicas e apontam para um segundo ato ainda mais turbulento. Entre humor, vingança e frustrações amorosas, a novela amplia o alcance emocional de seus personagens.

Gravidez, perda e ressentimento

Se os capítulos anteriores consolidaram identidades, agora a trama as coloca à prova. Angélica (Bianca Bin) vive um luto. A atriz entrega uma composição que alterna fragilidade e fúria. A dor se converte em desejo de vingança contra Beja (Grazi Massafera). O sofrimento, porém, não paralisa, ao contrário, alimenta decisões impulsivas.

Review de Dona Beja
Bianca Bin e Indira Nascimento | Crédito: HBO Max/Divulgação

Enquanto isso, Beja descobre que também está grávida. A revelação, portanto, desloca o centro da narrativa. Até então símbolo de liberdade, a protagonista passa a enfrentar um dilema íntimo. Agora, precisa decidir: ter ou não o filho de Antônio (David Junior)?

Assim, a dúvida expõe vulnerabilidades raramente vistas em “Dona Beja“. Além disso, o conflito amplia a dimensão emocional da trama. Quando decide contar ao pai da criança, no entanto, a reação dele frustra expectativas. Em vez de acolhimento, há distanciamento. Como resultado, a relação do casal principal se fragiliza ainda mais, reforçando o clima de tensão nos episódios 16 a 20.

Em paralelo, Maria (Indira Nascimento) intensifica sua espiral emocional. Cada vez mais perturbada, ela continua, gradualmente, a envenenar Angélica contra Antônio. Além disso, o amor reprimido por Beja continua a se transformar em ressentimento e a frustração alimenta atitudes impulsivas. Indira constrói uma Maria complexa e contraditória. A personagem não consegue lidar com o que sente. Por isso, reprime. Em seguida, converte o afeto em ódio. Consequentemente, a vilania ganha novos contornos e fortalece o conflito central de “Dona Beja“.

Humor como respiro e risco

Um dos movimentos mais perceptíveis nesses episódios é o retorno do humor. O drama recente de Carminha (Catharina Caiado) ressurge sob nova chave. Após Augusta (Kelzy Ecard) descobrir a gravidez da filha, a reação exagerada da mãe gera situações cômicas. Ela e o marido Alfredo (Otávio Müller) forçam Honorato (Gabriel Godoy) a casar com ela.

Catharina Caiado e Gabriel Godoy
Catharina Caiado e Gabriel Godoy | Crédito: HBO Max/Divulgação

O auge ocorre quando decidem transformar visualmente Honorato. Cortam cabelo, fazem a barba e acreditam que a cidade aceitará que se trata de outra pessoa. É uma solução divertida, contudo, pouco crível. Ainda assim, funciona como alívio em meio ao peso dramático que envolve a novela.

Esse equilíbrio entre drama e comicidade aproxima a novela do folhetim clássico. Há exagero e caricatura. Porém, também há crítica social embutida na obsessão pela reputação e pelas aparências.

Novas camadas e conflitos paralelos

O episódio 16 oferece mais espaço para Candinha (Erika Januza). A atriz explora nuances pouco vistas até então. Sua presença influencia diretamente a decisão de Beja sobre a gravidez. No entanto, o destaque diminui nos capítulos seguintes. Fica a sensação de arco interrompido.

Review "Dona Beja"
Grazi Massafera e Pedro Fasanaro | Crédito: HBO Max\Divulgação

Severina (Pedro Fasanaro) também ganha desenvolvimento. Ao descobrir quem é seu admirador secreto, a reação não corresponde ao ideal romântico que imaginava. A frustração revela fragilidades e a personagem se humaniza. O que poderia ser apenas subtrama ganha densidade emocional.

Já Josefa (Thalma de Freitas) e Avelino (Lucas Wickhaus) avançam na relação. Contudo, a culpa interfere e uma descoberta muda o rumo entre eles. O romance, antes promissor, passa a carregar peso moral. Enquanto isso, Olívia (Isabelle Nassar) amplia sua presença na chácara de Beja. Ainda assim, a personagem parece aguardar maior exploração. Seu potencial dramático permanece em aberto.

Vilania fragmentada

Cici (Deborah Evelyn) reduz o protagonismo nesta leva. Não abandona a maldade, apenas se contém. O espaço da vilania passa a ser ocupado com mais força por Maria. A dinâmica entre mãe e filha se revela espelhada. Ambas compartilham hipocrisia. Contudo, Maria carece do controle estratégico de Cici, age por impulso.

Review Dona Beja
Indira Nascimento é Maria | Crédito: HBO Max/Divulgação

A intimidade de Beja é exposta. A cidade descobre a gravidez. O julgamento público retorna como elemento estruturante da narrativa. A protagonista, mais uma vez, torna-se alvo de moralismo coletivo. No campo amoroso, a frustração domina. Antônio parece, em diversos momentos, agir de modo a contrariar Beja. Essa repetição cansa. O casal não encontra resolução. Ao contrário. O distanciamento cresce.

Entre todas as levas até aqui, o encerramento do episódio 20 é o menos impactante. Não por falha técnica, mas pelo rumo escolhido. O conflito se mantém, porém sem clímax contundente. A sensação é de estagnação emocional. Ainda assim, os elementos técnicos seguem consistentes. Figurinos e trilha sonora permanecem como destaque positivo. A ambientação sustenta credibilidade. A direção mantém ritmo adequado, mesmo quando a narrativa parece circular.

A novela convence ao explorar contradições humanas. Contudo, o excesso de frustração no arco de Beja e Antônio pode afastar parte do público. Chegamos à metade da trama com a sensação de que a resolução do casal ainda está distante.

Vale a pena assistir “Dona Beja”

Sim. A nova leva mantém força dramática, amplia camadas emocionais e oferece performances consistentes. O humor areja a narrativa. Porém, o desfecho menos impactante e a repetição de frustrações no romance central reduzem o impacto esperado. Ainda assim, ao combinar drama histórico, conflito moral e tensão afetiva, “Dona Beja” sustenta interesse e prepara terreno para uma segunda metade potencialmente mais decisiva.

Imagem de capa: HBO Max/Divulgação