Capítulo 40 de “Dona Beja” aposta em emoção, resolve mistérios importantes e confirma a força de Grazi Massafera
O último episódio de “Dona Beja” chega com uma missão clara: encerrar muitas histórias ao mesmo tempo. O capítulo 40 tenta responder tudo. Resolve mistérios, fecha romances e define destinos. O problema é que nem todos os arcos recebem o tempo necessário para funcionar plenamente.
Escrita por Daniel Berlinsky e dirigida com foco no drama histórico e no suspense policial, a novela encerra sua trajetória apostando em impacto emocional. A ideia central do episódio final é simples: continuar com Beja (Grazi Massafera) no eixo absoluto da narrativa até o último minuto. A crítica que surge, no entanto, é inevitável. O capítulo emociona, mas também revela uma narrativa que acelerou na reta final.
Muitos finais em pouco tempo
O episódio começa exatamente onde a novela precisava começar: resolvendo o que ainda permanecia em aberto. Personagens como Genoveva (Isabela Garcia), Angélica (Bianca Bin) e Botelinho (Ricardo Burgos) já haviam recebido seus desfechos na leva anterior de episódios, positivos ou não.

Ainda assim, diversos outros arcos seguem sem conclusão e exigem espaço neste capítulo final. Alguns encerramentos funcionam de forma consistente; outros soam apressados, com a impressão de que foram incluídos apenas para indicar que os personagens não foram esquecidos pela narrativa.
Ainda assim, a maioria dos encerramentos funciona. Mesmo quando são rápidos, eles encerram ciclos de forma coerente. O espectador pode não gostar de todos os finais. Porém, é difícil dizer que a novela ignorou suas próprias histórias.
Esse excesso de resoluções reforça um problema que já vinha desde os capítulos anteriores: a sensação de pressa. A novela quer emocionar, concluir e surpreender. Só que tudo acontece ao mesmo tempo. Em alguns momentos, o impacto se perde justamente por causa dessa velocidade.
Grazi Massafera domina o último capítulo
Se existe um elemento que sustenta o episódio 40, esse elemento é Grazi Massafera. Desde o primeiro capítulo, a atriz carregou a narrativa. No final, isso fica ainda mais evidente.
Grazi constrói uma Dona Beja intensa, ferida e determinada. É uma atuação que cresce ao longo da novela e termina com força. Para quem conhece as duas versões, comparações com Maitê Proença são inevitáveis, mas não funcionam como disputa. As duas criaram versões diferentes da personagem. Ambas marcantes, fortes e importantes para a história da televisão brasileira.
Outro destaque evidente do episódio é Indira Nascimento. Maria chega ao último capítulo completamente descontrolada emocionalmente. A atriz transforma essa instabilidade em intensidade dramática. Maria se torna um verdadeiro vulcão emocional. É uma atuação que cresce no momento mais difícil da trama.

Revelações importantes, mas com menos impacto dramático
Um dos momentos mais aguardados do episódio era a revelação do assassino das mulheres. A narrativa conduz o público, de forma consistente, a acreditar que Maria é a responsável por tudo. A tensão cresce, o suspense funciona e o mistério se mantém até os minutos finais.
A revelação, no entanto, existe, mas não ganha o peso dramático esperado. Isso acontece porque a identidade do verdadeiro assassino não se torna pública dentro da própria história. Apenas uma personagem descobre a verdade, o que reduz o impacto do desfecho.
Mesmo assim, a escolha narrativa reforça um dos temas centrais da série: a impunidade masculina. Ao manter a verdade restrita a uma única pessoa, o episódio retoma a crítica que a produção construiu ao longo da trama por meio das personagens femininas.
O mesmo acontece com o segredo descoberto por João (André Luiz Miranda) ao ler a carta deixada por Mendonça (Luciano Quirino). Trata-se de uma revelação relevante para a história, mas o roteiro não oferece tempo suficiente para que o público absorva o peso dessa informação. O resultado é uma sequência que deveria marcar o episódio, mas que acaba passando rápido demais e sem o efeito emocional esperado.

Belgard e Fortunato: o arco mais emocional
O arco de Belgard (Dudu Pelizzari) e Fortunato (João Villa), por outro lado, é um dos que realmente conseguem tocar emocionalmente no último episódio. Dudu e João constroem uma relação marcada pelo medo, pela repressão e por uma dificuldade constante de dizer o que sentem.
Belgard, acreditando que Maria era a assassina e que havia fugido após atacar Beja, decide libertar Fortunato e declara mais uma vez o seu amor. A cena funciona justamente pela fragilidade dos dois. E, dessa vez, Fortunato finalmente corresponde, algo que sempre foi difícil para ele. É um momento simples, mas profundamente sincero.
O que vem depois, porém, transforma essa história em algo muito mais doloroso. Padre Otávio (Miguel Rômulo) finalmente move a trama com violência direta, encontra os dois juntos e tenta matá-los. A fuga, com a ajuda de Beja, cria uma esperança breve. Logo em seguida, o padre incita a cidade contra eles, e o desfecho chega de forma amarga.
É um final duro, mas tristemente coerente com a época retratada pela novela. Vai contra o que boa parte do público queria ver, mas faz sentido dentro da lógica da história. Ainda assim, o impacto emocional permanece, sobretudo quando Fortunato finalmente diz que ama Belgard. É tarde demais, mas é verdadeiro.
O breve discurso do novo padre da paróquia, padre Jaime (Jaime Leibovitch), reforça essa sensação agridoce. Ao falar sobre amor e sobre não distorcer as palavras da Bíblia, ele cria um contraste direto com a violência que acabou de acontecer. O texto tenta oferecer uma espécie de reparação simbólica, como se a novela reconhecesse que aquela história poderia ter sido diferente. É justamente esse contraste que torna o arco dos dois um dos mais marcantes, não apenas pela dor do final, mas pela humanidade que os personagens carregam até o último momento.

Desfechos que funcionam e outros que parecem apressados
Alguns arcos conseguem terminar de forma consistente. O novo padre, por exemplo, representa uma mudança na narrativa. A aceitação de Beja e das mulheres do bordel funciona como um símbolo importante. É um encerramento simples, mas eficiente.
Por outro lado, a relação entre João e Candinha (Erika Januza) continua sendo um dos pontos frágeis da novela. O romance pareceu surgir de forma repentina. No último episódio isso não muda, a declaração acontece e o público entende o que o roteiro quer fazer, mas a construção nunca foi suficiente para sustentar o impacto emocional.
Mesmo com os problemas de ritmo, o episódio consegue entregar momentos que funcionam emocionalmente. A transformação do palacete é um exemplo. Não se trata apenas de um gesto simbólico, mas de uma tentativa de reparar o que foi destruído ao longo da história. Beja decide reformar o espaço e usar o dinheiro para ajudar os amigos, especialmente depois que Costa Pinto (Otávio Muller) perde tudo no jogo e Josefa (Thalma de Freitas) e Avelino (Lucas Winkhaus) têm a casa destruída pelo ataque organizados por Ceci (Deborah Evelyn).
O resultado é um momento sensível do capítulo. O antigo espaço marcado por julgamentos e humilhações passa a funcionar como um centro de arte e acolhimento. É ali que Vicente (Paulo Mendes) pode cantar, Carminha (Catharina Caiado) pode se apresentar sem medo, Honorato (Gabriel Godoy) encontra espaço para sua poesia, Avelino passa a ensinar violino e Josefa pode se dedicar à pintura. A novela acerta ao transformar esse cenário em um símbolo de reconstrução.
Ainda assim, o episódio não ignora que nem todos mudam. Augusta (Kelzy Ecard) continua presa à imagem de “senhora de bem”, mas agora precisa conviver com a realidade de depender justamente do dinheiro que nasce dentro do palacete de Beja. É um detalhe pequeno, porém significativo, porque reforça a ideia de que o final não é perfeito. É apenas possível. E talvez seja exatamente por isso que esse momento funcione de forma tão sincera.

Revelações finais e um desfecho simbólico para a trajetória de Beja
O episódio ainda reserva algumas reviravoltas importantes antes do encerramento definitivo. Um casal inesperado retorna a Araxá trazendo revelações que mudam a leitura de acontecimentos recentes, enquanto o mistério envolvendo os crimes finalmente é esclarecido de forma mais precisa.
A novela opta por um caminho menos óbvio: Maria não é a responsável pelas mortes, e a identidade do verdadeiro assassino é revelada apenas para Beja. É uma escolha narrativa que não busca o impacto fácil, mas sim um encerramento mais íntimo e silencioso.
Ao mesmo tempo, o roteiro começa a fechar os arcos de forma mais emocional do que dramática. O destino de Ceci é coerente com tudo o que a personagem construiu ao longo da história, enquanto Beja passa por um processo mais interno do que externo. Em vez de um final grandioso, a novela aposta na ideia de reconciliação, com o passado, com as próprias dores e com a imagem que a personagem construiu de si mesma ao longo da trama.
O desfecho segue esse mesmo tom. A novela termina de forma simbólica, com pequenas referências a pessoas e momentos que marcaram a trajetória de Beja desde o início. Não é um final perfeito, mas é um encerramento que faz sentido dentro do que foi construído. O saldo final é positivo: mesmo com decisões apressadas e alguns arcos que poderiam ter sido melhor desenvolvidos, a novela consegue se despedir deixando a sensação de que valeu a pena acompanhar essa história até o último capítulo.
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Vale a pena assistir “Dona Beja”?
Sim. A novela consegue entregar uma protagonista marcante e uma história que prende do começo ao fim. A atuação de Grazi Massafera é o grande motivo para acompanhar a produção. Além disso, o episódio final consegue encerrar a história de forma emocionalmente satisfatória. O capítulo 40 não é perfeito, tem pressa e algumas decisões discutíveis. Mas também tem impacto, e, principalmente, tem uma personagem que consegue sobreviver à própria história. Por isso vale a pena assistir “Dona Beja“.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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