A quinta e última temporada de Stranger Things chegou enfim, e a sensação é curiosa, quase agridoce. A série tenta fechar um ciclo que já dura uma década, e esses quatro primeiros episódios funcionam como uma porta que se abre devagar, revelando algo que a gente já conhece, mas que insiste em surpreender. O retorno de Eleven, Will, Lucas, Dustin, Max, Mike, Steve, Hopper, Nancy, Jonathan, Joyce, Murray, Erica e Vecna soa familiar, quase como um reencontro de infância após um tempo grande demais.

Quando Hawkins respira de novo, o salto no tempo muda tudo

A história salta quase dois anos depois do caos da quarta temporada, um ajuste necessário para que o elenco não pareça preso ao tempo. Mesmo assim, o estranhamento está ali, silencioso, porque por mais que o roteiro tente acompanhar a idade dos atores, alguns rostos já não combinam mais com a adolescência. Millie Bobby Brown entrega uma Eleven adulta interpretando uma adolescente, Finn Wolfhard cresceu de um jeito que não tem como disfarçar, Will até transita melhor nessa fronteira, mas o efeito existe. E ainda assim, no meio dessa estranheza, a série encontra o tom, porque Stranger Things sempre foi maior do que aparência, sempre foi sobre o que pulsa por dentro.

Agora, Eleven treina sob um regime brutal enquanto ela e todo o povo de Hawkins vivem presos sob supervisão militar, dentro daquela contenção que tenta segurar a ferida aberta por Vecna no coração da cidade. Hawkins respira com dificuldade, como se estivesse vivendo num pós-guerra de monstros, e isso gera uma tensão quase física no espectador.

STRANGER THINGS 5 CHEGA À NETFLIX EM 2025
Foto: Cortesia da netflix

Velhos hábitos, bons momentos

E é aqui que a narrativa volta ao velho hábito de dividir seus personagens em núcleos. Só que, dessa vez, essa separação parece menos mecânica e mais natural dentro do caos instaurado. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, muito fio narrativo pedindo atenção, e acompanhar tudo exige fôlego. Não porque esteja bagunçado, mas porque Stranger Things nunca soube operar em pequena escala. Cada núcleo investiga uma parte do novo quebra cabeça do Mundo Invertido, e cada grupo carrega uma pista que só faz sentido quando encontra a do outro. Às vezes cansa, às vezes sufoca, mas quando essas linhas começam a encostar, a temporada ganha forma de verdade, quase como uma engrenagem destravando.

Hopper aciona de novo a energia de vigilante cansado, aquele homem que já perdeu demais para aceitar ficar parado. Os adolescentes, agora quase adultos, mantêm a inquietação que sempre foi marca da série. Eles investigam, improvisam, criam soluções absurdas para lidar com algo que não deveria pertencer ao mundo deles. E nesses quatro episódios, é visível que os diretores estão menos preocupados em amarrar respostas e mais interessados em construir terreno para o confronto final. É preparação, é aquecimento, é o palco sendo montado antes do espetáculo.

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Foto: Cortesia da netflix

A química do grupo está amadurecida, mais precisa. Cada um parece saber o que tem a oferecer para a narrativa. O único que permanece meio apagado é Dustin, que surge menos contundente do que o esperado, como se o roteiro estivesse guardando alguma virada para ele nos volumes seguintes. Nancy e Robin brilham com força, cada uma do seu jeito, enquanto Will ocupa finalmente o centro emocional da história. Dizer que Stranger Things sempre foi sobre Eleven é fácil, mas para mim, e agora mais do que nunca, a série sempre esteve orbitando os traumas, silêncios e dores de Will Byers. Essa temporada confirma isso.

Max, ainda em coma, aparece pouco. Mike, Jonathan e outros personagens ficam reduzidos ao essencial, e isso não chega a ser um problema agora porque tudo indica que os próximos volumes vão puxar esses fios com mais coragem. Linda Hamilton surge como Dra Kay, mas sem espaço suficiente para mostrar para que veio, algo que também pode mudar lá na frente.

Entre violência, nostalgia e caos, a série prepara o terreno para o fim

A temporada está um pouco mais violenta, com mais sangue, mais tensão física, mas ainda não chega perto do que Welcome to Derry está fazendo nesse mesmo período. A comparação acontece quase automaticamente, porque ambas trabalham com grupos de jovens enfrentando um mal sobrenatural. Mas, no fundo, Stranger Things continua sendo aquela aventura com cheiro de sessão da tarde que envelheceu com o público. Ainda lembra Garotos Perdidos, Conta Comigo, Clube dos Cinco, e ainda mantém o sangue pulsante do RPG, de Dungeons and Dragons. Essa mistura não falha porque nunca foi só sobre monstros, sempre foi sobre amizade, medo, descoberta, crescimento.

Os episódios entregam um visual melhor do que nunca. A série aprendeu finalmente a lidar com a escuridão. A fotografia está mais clara, mais subjetiva, mais consciente dos espaços. Holly Wheeler, irmã de Nancy, aparece como novo elemento, discreta, mas interessante dentro desse tabuleiro emocional.

O quarto episódio é simplesmente maravilhoso, daqueles de deixar você olhando para a tela sem piscar. É intenso, é emocionante, é o ponto onde tudo o que foi prometido começa a se materializar. Entre tensão, ação e momentos que apertam o peito, ele dá o tom de onde essa história quer chegar. E dá vontade de ver mais. Na verdade, dá vontade de maratonar até perder a noção da hora.

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Foto: Cortesia da netflix

Stranger Things quebrou a Netflix

Eu assisti tudo em pouco mais de cinco horas, sem cansaço, e isso diz muito sobre o poder que Stranger Things ainda tem. Mesmo com seus defeitos, mesmo com escolhas discutíveis, a série ainda prende, ainda emociona, ainda faz você torcer por personagens que cresceram diante dos seus olhos. A estreia às 22 horas derrubou a Netflix para muita gente, com relatos de tela branca, travamento, demora de carregamento. Foi praticamente o “quem matou Odete Roitman” da plataforma, uma daquelas estreias que viram eventos. E isso não é acidente, é consequência de anos de construção emocional.

Criada pelos Irmãos Duffer, Stranger Things começou em 2016 misturando terror sobrenatural, ficção científica, romance, aventura e suspense. A série mergulhou em amizade, perda, luto, orientação sexual, traumas e reconstrução. E agora, em 1987, ela parece pronta para encerrar tudo isso de maneira grandiosa, carregando uma promessa de lágrimas, de vitórias, de derrotas inevitáveis.

Os próximos volumes chegam em dezembro, quase como um rito de passagem entre o fim e o começo. Hawkins parece pronta para fechar as cortinas, mas não sem antes entregar tudo o que ainda guarda escondido nos cantos escuros do Mundo Invertido. O fim está próximo, e a temporada faz questão de nos lembrar disso a cada cena, como se a série estivesse respirando fundo antes do último mergulho.

Foto de capa: Cortesia da Netflix