Os episódios finais de “Stranger Things” ampliam a escala, apostam em nostalgia e emoção, mas tropeçam no excesso de explicações e uma mitologia que já não cabe em si mesma

Poucas séries contemporâneas chegaram tão longe quanto Stranger Things. Criada pelos irmãos Duffer, a produção da Netflix atravessou quase uma década transformando uma aventura juvenil de ficção científica em um fenômeno cultural global.

Os volumes 2 e 3 da quinta temporada, que conduzem a narrativa ao seu desfecho, carregam, portanto, uma responsabilidade gigantesca: encerrar não apenas uma história, mas um imaginário inteiro construído à base de nostalgia, amizade, horror e espetáculo.

Este review analisa como esses episódios finais lidam com esse legado, equilibrando momentos de impacto genuíno com decisões narrativas discutíveis, excesso de personagens e uma mitologia que parece ter crescido além do controle.

Review Stranger Things
Jamie Campbell Bower como Vecna | Crédito: Netflix/Divulgação

Quando a mitologia pesa mais que a história

É preciso deixar claro desde o início: Stranger Things já não é uma série acessível a novatos. Ao longo de quase uma década, a narrativa acumulou regras próprias, dimensões sobrepostas, criaturas, traumas e sucessivas reviravoltas. Nos volumes 2 e 3 da quinta temporada, essa mitologia chega ao seu ponto mais alto, e, ao mesmo tempo, ao seu limite.

A ação segue como o principal motor da série. As sequências são grandiosas, bem coreografadas e visualmente impactantes, justificando o orçamento elevado e entregando o espetáculo que o público espera. O problema aparece justamente nos intervalos entre esses momentos. Com frequência, o ritmo é interrompido por diálogos excessivos, longas explicações e catarse emocional pouco orgânica, que diluem a tensão construída pelas cenas de ação.

A exposição, aliás, se torna um dos maiores entraves. Boa parte do tempo de tela é ocupada por personagens explicando uns aos outros, e, de forma pouco sutil, ao espectador, o que está acontecendo. Em determinado ponto, essa necessidade constante de verbalizar tudo deixa de esclarecer e passa a cansar.

A revelação de que o Mundo Invertido não funciona exatamente como uma dimensão paralela, mas integra uma estrutura ainda mais complexa, associada a buracos de minhoca e colapsos dimensionais, exemplifica bem esse excesso. A série sente a necessidade de detalhar, repetir e esmiuçar cada conceito, como se já não confiasse na capacidade do público de acompanhar a narrativa por meio da atmosfera, da sugestão ou da intuição. O resultado é uma mitologia que, embora ambiciosa, pesa sobre a própria história que tenta sustentar.

Stranger Things
Winona Ryder, Finn Wolfhard e Noah Schnapp na série | Crédito: Netflix/Divulgação

O espetáculo ainda funciona, e muito

Apesar de todas essas fragilidades, é quase surpreendente que Stranger Things ainda funcione tão bem em diversos momentos. Quando acerta, a série mantém sua capacidade de arrebatamento: a nostalgia continua operando com eficiência, a trilha sonora intensifica emoções no limite e o tom geral raramente permite indiferença por parte do espectador.

O problema é que a estratégia de lançamento em volumes cria um intervalo que favorece a reflexão, e Stranger Things perde força quando observada com mais distanciamento. Com tempo para assimilar os episódios, tornam-se evidentes decisões convenientes de roteiro, personagens que variam de inteligência e sensibilidade conforme a exigência da cena e um elenco excessivamente inflado, no qual muitos já não cumprem uma função dramática clara.

Algumas escolhas de uso de elenco chamam atenção de forma negativa. Winona Ryder é subaproveitada de maneira difícil de justificar. Eleven (Millie Bobby Brown), outrora o eixo absoluto da narrativa, passa longos trechos deslocada para um papel secundário. Mike (Finn Wolfhard) surge quase exclusivamente como catalisador de discursos motivacionais. Robin (Maya Hawke) fica presa a um alívio cômico irregular, sem desenvolvimento consistente. Ao mesmo tempo, personagens introduzidos tardiamente, como Holly (Nell Fisher), acabam ocupando um espaço narrativo desproporcional, contribuindo para a sensação de desequilíbrio estrutural.

O resultado é uma série que ainda sabe provocar impacto imediato, mas que revela fissuras cada vez mais visíveis à medida que se afasta do impulso emocional e passa a ser analisada com mais rigor.

Noah e Winona na série
Will e Joyce | Crédito: Netflix/Divulgação

Will Byers: potencial desperdiçado

Um dos aspectos mais frustrantes dos volumes finais está no arco de Will Byers (Noah Schnapp). Após temporadas inteiras marcado pela condição de vítima, o Volume 1 da quinta temporada indicava, enfim, uma virada promissora: a manifestação de seus poderes e um momento de real tensão dramática sugeriam que o personagem ocuparia, finalmente, um lugar central na narrativa.

Entretanto, os volumes seguintes recuam dessa escolha. Will tem apenas um confronto minimamente relevante com Vecna, é rapidamente neutralizado e retorna ao papel de refém, emocional e físico, da trama. Em vez de desenvolver sua autonomia recém conquistada, a série insiste em longas sequências de sofrimento, culpa e autopiedade, sobretudo nos diálogos com Joyce, que pouco acrescentam à progressão dramática.

O resultado é a clara sensação de oportunidade desperdiçada. Em uma temporada de encerramento, quando ousadia e risco narrativo seriam não apenas desejáveis, mas necessários, Stranger Things opta pelo conforto emocional e pela repetição de dinâmicas conhecidas, uma decisão que cobra seu preço em impacto, potência e memorabilidade.

Emoção explicada demais, urgência de menos

Review Stranger Things
Max e Holly em Stranger Things | Foto: Netflix/Divulgação

Outro problema recorrente está na insistência da série em verbalizar absolutamente tudo. Conflitos emocionais emergem em momentos que pediriam urgência, instinto e ação imediata. Ainda assim, os personagens interrompem o fluxo narrativo para conversar, se justificar, se despedir ou refletir, mesmo quando o mundo, literalmente, está à beira do colapso.

A cena envolvendo Max (Sadie Sink) e Holly diante de um portal ilustra bem essa fragilidade. O contexto exige decisão rápida e movimento, mas a tensão se dissolve em um discurso prolongado e pouco crível. O impacto não se limita à quebra de ritmo: a própria coerência dos personagens sai prejudicada, já que suas atitudes parecem responder mais às necessidades do roteiro do que à lógica da situação.

Esse padrão se repete ao longo dos episódios. Breves explosões de ação dão lugar a longas conversas explicativas, seguidas por momentos de brainstorming coletivo, até que a narrativa finalmente retome o movimento. O resultado é uma estrutura previsível, em que nada flui de forma verdadeiramente orgânica e a sensação de urgência se perde a cada pausa desnecessária.

Millie e David
David Harbour e Millie Bobby Brown na série | Crédito: Netflix/Divulgação

O episódio final: falho, mas emocionalmente eficaz

The Rightside Up”, o episódio final, concentra de forma quase emblemática as virtudes e os vícios de Stranger Things. O excesso de epílogos dilui parte do impacto emocional, e poucas escolhas narrativas conseguem, de fato, surpreender. Além disso, revelações centrais já haviam sido antecipadas fora da própria série, o que enfraquece seu peso dramático no momento em que deveriam soar decisivas.

Ainda assim, o episódio funciona. O confronto final é visualmente potente e entrega o espetáculo esperado. Vecna, vivido com intensidade por Jamie Campbell Bower, atinge aqui sua melhor construção: mais ameaçador, mais complexo e, paradoxalmente, mais humano. O vilão nunca foi tão interessante, justamente porque a série finalmente explora suas contradições com mais profundidade.

A união do grupo reforça o eixo temático que sustentou a narrativa desde o início: a amizade como força de resistência. As cenas entre Hopper (David Harbour) e Eleven se destacam pela carga emocional genuína, enquanto Mike, enfim, recupera relevância afetiva dentro da história. Mesmo previsível em muitos aspectos, o desfecho oferece fechamento. Talvez não perfeito, talvez não grandioso, mas honesto, e coerente com tudo o que a série sempre se propôs a ser.

Vale a pena assistir os volumes 2 e 3 de “Stranger Things”?

Os volumes 2 e 3 da quinta temporada de “Stranger Things” mostram uma série dividida entre o desejo de agradar a todos e a dificuldade de encerrar algo que cresceu demais. O resultado é irregular: emocionante, espetacular, frustrante e, ainda assim, eficaz.

Portanto, sim, vale a pena assistir. Não porque seja perfeita, mas porque entrega algo raro: um encerramento que respeita seus personagens, honra sua essência e oferece emoção genuína. “Stranger Things” pode ter se perdido em excessos, mas nunca esqueceu que, no fundo, sempre foi sobre amizade. E isso, no fim das contas, ainda funciona.