Filme nacional provoca debate sobre superexposição infantil, adultização e os limites éticos entre cuidado parental e exploração midiática

Com a estreia de Salve Rosa na Netflix, o suspense psicológico dirigido por Susanna Lira ultrapassa a ficção e se posiciona como retrato de um fenômeno social bem recente que é a infância convertida em conteúdo.

Sem recorrer a julgamentos simplistas, o filme constrói um retrato inquietante sobre a dinâmica entre pais, filhos e a engrenagem digital que recompensa exposição constante.

A infância como ativo financeiro e a superexposição

Um dos pontos centrais levantados pela narrativa é a monetização precoce da imagem infantil. Crianças influenciadoras movimentam contratos publicitários, constroem marcas pessoais e, em alguns casos, tornam-se fonte principal de renda familiar. É fato que isso é um sonho bem comum para muitas crianças, adolescentes e adultos fazerem sucesso e ganhar dinheiro nas redes sociais.

Entretanto, essa inversão de papéis entre quem deveria cuidar e ser cuidado altera profundamente a estrutura tradicional de responsabilidade. Quando a criança deixa de ser apenas dependente e passa a sustentar financeiramente o núcleo familiar, cria-se uma zona delicada de poder e dependência emocional. A pressão por manter relevância pode substituir a liberdade de simplesmente crescer.

Salve Rosa capa
Crédito: Divulgação/Elo Studios

Outro eixo importante é a exposição contínua. Diferentemente de artistas infantis de outras épocas, cuja imagem estava mediada apenas por televisão ou cinema, a criança influenciadora vive sob vigilância permanente. O cotidiano vira roteiro e a intimidade vira postagem. Milhares de pessoas ficam assistindo o dia a dia da criança e toda essa exposição é muito danosa para a vida dela.

Infelizmente, o impacto dessa visibilidade precoce ainda é pouco mensurado. Dessa forma, comentários, críticas e julgamentos chegam sem filtro para as crianças. A construção de identidade da criança passa a ocorrer diante de milhares, às vezes milhões, de espectadores.

Nesse sentido, “Salve Rosa” sugere que a ausência de fronteiras claras entre vida pública e privada pode gerar desgaste psicológico silencioso, especialmente quando a validação externa se torna parâmetro de valor pessoal.

E sobre a Adultização?

Filme "#SalveRosa", que será exibido no Festival do Rio 2025
Crédito: Reprodução/Elo Studios

A adultização é um dos pontos mais desconfortáveis quando falamos de crianças nas redes sociais, e talvez justamente por isso precise ser encarada de frente. Não é só sobre maquiagem, looks “mini fashionista” ou poses ensaiadas. É sobre expectativa. É sobre colocar uma criança dentro de uma lógica de performance, consumo e validação que pertence ao mundo adulto. Quando curtidas viram termômetro de valor, a infância começa a perder espaço para a construção de uma personagem.

Existe também uma inversão silenciosa acontecendo. Ao serem tratadas como marcas, essas crianças passam a carregar responsabilidades emocionais e financeiras que não deveriam existir tão cedo. A pressão por manter engajamento, agradar o público e fechar contratos não combina com o direito de errar, mudar de ideia ou simplesmente enjoar de algo, que é parte essencial do crescimento. Assim, a espontaneidade vira estratégia e a brincadeira vira conteúdo.

Além disso, o mais inquietante é que a adultização chega raramente com uma placa de aviso. Ela se instala aos poucos, normalizada por comentários do tipo “como é madura para a idade” ou “já tem postura de gente grande”. Só que maturidade forçada não é desenvolvimento saudável, é adaptação a um sistema que exige demais cedo demais. Quando a infância começa a performar para sobreviver socialmente, algo está bastante errado. Ao serem inseridas em ambientes de consumo, estética e competitividade, muitas crianças passam a reproduzir comportamentos e discursos que não correspondem ao seu estágio de desenvolvimento.

Um debate que ultrapassa a ficção

Ao inserir essas questões dentro de uma atmosfera de suspense psicológico, “Salve Rosa” amplia a sensação de desconforto. Não há respostas fáceis. O que existe é um convite à reflexão.

Quem regula a presença infantil nas redes? Quais são os limites éticos? Como equilibrar liberdade criativa, autonomia familiar e proteção integral?

Por fim, mais do que um filme, a produção funciona como espelho de uma geração que cresce sob algoritmos e de uma sociedade que ainda aprende a lidar com as consequências dessa exposição.

“Salve Rosa” está disponível na Netflix.

Crédito da capa: Divulgação/Elo Studios