Peça teatral de “Stranger Things”, da Broadway, funciona como prólogo oficial do universo da Netflix e revela conexões diretas com a quinta temporada
A peça “Stranger Things: A Primeira Sombra” deixou de ser apenas uma expansão narrativa para se consolidar como um elemento central do universo da série da Netflix. Ambientada em Hawkins em 1959, décadas antes dos eventos conhecidos do público, a produção teatral aprofunda a origem de Henry Creel (Louis McCartney) e estabelece relações diretas com personagens e conceitos explorados na quinta e última temporada de Stranger Things.
A peça estreou em 2023, na Inglaterra e ganhou uma nova produção em 2025 na Broadway. Ela foi apresentada como um prólogo oficial da história. Segundo os irmãos Duffer, criadores da série, o enredo da montagem é canônico. Além de essencial para compreender o desfecho da produção televisiva, ainda que parte dessas informações não tenha sido explicitada na tela.

Hawkins antes do Mundo Invertido
“Stranger Things: A Primeira Sombra” se passa em uma Hawkins aparentemente comum, marcada por conflitos cotidianos. É nesse cenário que a família Creel chega à cidade, buscando recomeçar. O foco recai sobre o jovem Henry Creel, ainda criança, que já demonstra comportamentos perturbadores e habilidades fora do padrão.
A peça apresenta versões jovens de personagens centrais da série, como Jim Hopper, Joyce Maldonado (futura Byers) e Bob Newby, todos colegas de escola de Henry. Diferentemente do que é sugerido na série, a montagem teatral mostra que Hopper e Joyce reconhecem Henry. Eles fazem a ligação entre os eventos estranhos da época e o garoto, algo que a quinta temporada optou por não dramatizar diretamente.
Os irmãos Duffer explicaram que chegaram a escrever uma cena em que Hopper e Joyce alcançam essa conclusão, mas retiraram o trecho da temporada final para evitar confusão entre espectadores que não assistiram à peça.

A peça de “Stranger Things” como complemento narrativo da série
Enquanto a quinta temporada responde a diversas questões acumuladas ao longo dos anos, parte dessas explicações já havia sido apresentada no teatro. É em “Stranger Things: A Primeira Sombra” que o conceito do Mundo Invertido, também chamado de Dimensão X, recebe, pela primeira vez, uma contextualização mais ampla e estruturada.
A peça estabelece que os experimentos ligados à Dimensão X antecedem em décadas as atividades do Laboratório de Hawkins. Nela, o Dr. Martin Brenner conduz pesquisas iniciadas ainda nos anos 1940, conectando seus estudos ao capitão do USS Eldridge, navio real cercado por lendas sobre o chamado Experimento Filadélfia. Segundo a narrativa teatral, essas tentativas abriram caminho para o acesso a um espaço dominado por estruturas orgânicas e entidades hostis, que mais tarde se tornaria o eixo central da mitologia da série.
Essa construção altera de forma significativa a leitura sobre a origem de Vecna. Em vez de apresentá-lo como um produto direto dos experimentos de Brenner, a peça indica que Henry Creel já mantinha contato com forças da Dimensão X desde a infância. O vilão passa, assim, a ser compreendido menos como uma criação do laboratório e mais como resultado de um processo iniciado muito antes, reforçando a ideia de que o conflito central de Stranger Things é anterior aos eventos mostrados na televisão.

Henry Creel, cavernas e memórias
Um dos elos mais diretos entre a peça e a série é a chamada caverna de Max, espaço mental onde a personagem encontra refúgio na quinta temporadas. Em “A Primeira Sombra”, esse local ganha uma origem concreta: trata-se de uma caverna real descoberta por Henry ainda criança, quando sua família vivia em Nevada.
É nesse ambiente que Henry encontra uma luneta e equipamentos roubados do laboratório de Brenner, passando a utilizá-los como meio de acesso à Dimensão X. A narrativa teatral deixa claro que esse primeiro contato com o espaço e com as entidades que o habitam foi decisivo para a formação do personagem que mais tarde se tornaria Vecna. Assim, estabelecendo uma ligação direta entre infância, trauma e poder.
Esses elementos retornam na série principalmente nas sequências em que Max percorre as memórias de Henry. Em uma dessas cenas, ela surge nos corredores da Hawkins High School segurando um panfleto de um musical escolar. Um detalhe aparentemente banal que funciona como mais um ponto de contato com a peça teatral e reforça a continuidade entre palco e tela.

Um musical que conecta gerações
A produção escolar citada na série é Oklahoma!, mas a peça revela que Joyce, na verdade, dirigia uma montagem alternativa intitulada “Dark of the Moon“. O panfleto exibido na quinta temporada traz nomes familiares ao público: Joyce Maldonado, Jim Hopper, Karen Childress (que no futuro será Wheeler), Patty Newby, Alan Munson (pai do Eddie), Ted Wheeler e Henry Creel.
A revelação sugere que boa parte dos adultos de “Stranger Things” conviveu diretamente com Henry durante a juventude, alguns, inclusive, dividindo o palco com ele. Esse detalhe amplia a percepção de Hawkins como uma comunidade profundamente entrelaçada, marcada por conexões que antecedem os eventos centrais da série.
Segundo os irmãos Duffer, o teatro estabeleceu primeiro elementos como o medo de Henry em relação à caverna de Max, a relevância de Oklahoma! e a ligação de Creel com diversos moradores da cidade. A temporada final retomou esses pontos ao mostrar o caminho do personagem até Brenner.
Ao evitar referências excessivamente diretas à peça na série, os criadores optaram por preservar a autonomia da narrativa televisiva. Ainda assim, quem assistiu à montagem teatral tem acesso a uma camada adicional de leitura, que amplia o contexto histórico e emocional da história.
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Um prólogo que redefine a experiência
“Stranger Things: A Primeira Sombra” funciona como uma camada complementar à série, antecipando respostas e reorganizando a cronologia de eventos centrais. Ao apresentar Henry Creel sob uma perspectiva mais ampla e contextualizada, a peça redefine a compreensão sobre a construção do principal antagonista da história.
Mais do que um produto derivado, a montagem teatral se afirma como parte integrante do cânone narrativo. Para quem busca entender plenamente o desfecho de “Stranger Things“, o palco se revela tão relevante quanto a tela.
Imagem de capa: Matthew Murphy e Evan Zimmerman/Divulgação
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