Ringu, Ju-On, Pulse e Junji Ito ajudaram a consolidar um estilo de horror que ultrapassou as fronteiras do Japão e continua influenciando o audiovisual contemporâneo.

O estranho ou o exótico sempre foram atrativos, mas também angustiantes para o ser humano. Logo, isso se torna ainda mais evidente quando entramos em contato com linguagens artísticas de outras culturas. O cinema de terror japonês impactou mostrando as suas superstiçôes e filosofias implementadas no audiovisual

Embora o terror ocidental privilegie a ameaça física, o terror japonês costuma apostar no desconforto psicológico, na sugestão e no sobrenatural. Em vez de apresentar um inimigo claramente identificável, muitas vezes coloca seus personagens diante de forças incompreensíveis e inevitáveis.

Filmes como Ringu (1998), dirigido por Hideo Nakata, e Ju-On (2000), dirigido por Takashi Shimizu, são exemplos marcantes dessa abordagem. Ambos exploram a figura do Onryō, espírito vingativo do folclore japonês. No entanto, fazem isso transformando ambientes comuns em espaços hostis. O terror surge da percepção de que a ameaça já está instalada e não pode ser combatida pelos meios tradicionais.

Kayako, espírito vingativo de Ju-On, observando uma vítima em cena do filme.
Kayako é uma das figuras mais icônicas do terror japonês e ajudou a popularizar o conceito do Onryō no cinema mundial. Crédito: Reprodução.

Ao contrário de muitos filmes em que o protagonista escolhe enfrentar o perigo, o terror japonês sugere que qualquer pessoa pode ser vítima. Basta estar no lugar errado, na hora errada.

Isolamento e o Medo do Cotidiano

Outra característica recorrente do terror japonês está na forma como ele aborda a solidão e o isolamento social. Os protagonistas enfrentam problemas sozinhos, seja por apatia dos personagens secundários com a causa, seja pela dificuldade de expressar aquilo que está vivenciando.

Para espectadores acostumados com o herói ter um grupo de amigos, essa falta de apoio gera uma sensação adicional de angústia e isolamento.

Mulher caminhando lentamente em cena de Pulse (2001), um dos momentos mais icônicos do terror japonês.
A sequência da mulher caminhando em Pulse tornou-se uma das cenas mais analisadas do terror moderno por construir medo sem recorrer a jumpscares. Crédito: Reprodução.

Pulse (2001), dirigido por Kiyoshi Kurosawa, é minimalista, cru e traz um terror do simples: a forma estranha da personagem caminhando, um sussurro de ajuda. Cenas de um cotidiano faz o espectador sentir uma aflição, da sensação de que algo está profundamente errado. Tranformando ambientes comuns em espaços inquietantes, o longa faz com que o espectador passe a desconfiar da normalidade.

Terror Japonês no Ocidente

A influência do terror japonês no cinema mundial se propagou pela forma como ele passou a enxergar o medo. Contudo, enquanto muitas produções ocidentais apostam em sustos repentinos, trilhas sonoras intensas e violência gráfica, obras japonesas demonstraram que o horror também pode ser construído por meio do silêncio, da atmosfera e da sensação constante de desconforto.

Personagem observa imagem misteriosa em televisão em cena de O Chamado (2002), remake americano de Ringu.
O Chamado (2002) foi um dos remakes mais bem-sucedidos do terror japonês em Hollywood, ajudando a popularizar elementos do J-Horror para o público ocidental. Crédito: Reprodução.

Essa abordagem, marcada pela valorização da tensão psicológica e pela menor dependência de jumpscares, chamou a atenção do público e da indústria cinematográfica ocidental. O resultado foi uma onda de remakes produzidos por Hollywood, como O Chamado (2002), dirigido por Gore Verbinski e O Grito (2004), dirigido por Takashi Shimizu.

A influência é tão perceptível que muitos espectadores e críticos compararam o estranho caminhar da personagem Nikki (Inde Navarrette) de Obsessão (2025), dirigido por Curry Barker, à icônica sequência da mulher caminhando em Pulse (2001).

Montagem comparando uma cena de Pulse (2001), à esquerda, e uma cena de Obsession (2025), à direita, destacando semelhanças visuais na construção do terror psicológico.
À esquerda, a icônica cena da mulher caminhando em Pulse (2001); à direita, uma das sequências mais comentadas de Obsession (2025). As semelhanças entre as duas imagens levaram fãs e críticos a discutir a influência do J-Horror no terror contemporâneo. Crédito: Reprodução.

J-Horror na familiaridade

Por isso, é possível perceber como o terror japonês continua exercendo influência sobre a sétima arte. Em um caso isolado é possivel notar as similaridades e as referências à animação de terror Perfect Blue (1997), dirigido por Satoshi Kon com os filmes Cisne Negro (2010) e Réquiem para um Sonho (2000), ambos dirigidos por Darren Aronofsky.

A comparação evidencia como o J-Horror continua moldando a forma como o medo é construído no audiovisual, mesmo mais de duas décadas após seu auge internacional. Suas histórias costumam trabalhar conceitos sobre a ruptura sutil e lenta da normalidade e a percepção de que não temos controle de nada ao nosso redor. Um dia comum pode se transformar em um pesadelo sem aviso.

Junji Ito e a Ruptura da Familiaridade

Personagem grotesca aparece à janela em painel do mangá A Janela da Casa ao Lado, de Junji Ito.
Em A Janela da Casa ao Lado, Junji Ito transforma uma situação cotidiana em uma experiência perturbadora, exemplificando como o terror japonês encontra o horror no familiar. Crédito: Reprodução.

Do mesmo modo, esse conceito também está presente nas obras do mangaká de terror Junji Ito. Basta virar uma esquina, entrar em uma casa ou encontrar algo aparentemente insignificante para que a realidade deixe de fazer sentido. Por isso, diferentemente de muitas narrativas ocidentais, nem sempre existe uma explicação plausível para o que está acontecendo com o protagonista, tampouco um alerta de que aquela situação poderia acontecer.

Assim, Por trás dos espíritos vingativos, dos espaços vazios e das maldições que atravessam gerações, existe uma ideia inquietante: algumas coisas simplesmente acontecem. Por fim, podemos tentar entender suas origens, buscar respostas ou encontrar um significado para o horror. No entanto, às vezes, a única resposta possível é que não há resposta alguma.

Crédito da capa: Reprodução

Redator em experiência sob supervisão de Thiago Satiro.

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