Thainá Fernandes, autora nacional, é a mente por trás de “Beijada pela Maré”. O livro conta a história de uma jovem mulher que recebe um diagnóstico tardio e descobre que está no espectro do autismo. Assim, ela acaba se apaixonando por um ser especial que, assim como ela, parece não pertencer a este mundo.

Em entrevista exclusiva ao GeekPop News, Thainá fala sobre o processo criativo, sua trajetória e como sua experiência pessoal inspirou a criação de uma personagem diferente das convencionais.

Conte um pouco sobre você, de onde você é, o que gosta de ler, o que te inspira e sua jornada até aqui.

Sou do Rio de Janeiro e escrevo desde a adolescência, quando comecei a publicar fanfics em comunidades do Orkut, primeiro de High School Musical e, depois, de Vampire Academy. A escrita acabou me acompanhando, mesmo quando segui outros caminhos. Sou formada em Biologia e fiz mestrado em Ciências pela UERJ, pesquisando meninos com deficiência intelectual. Depois de me afastar da academia, voltei a me dedicar à literatura e também fiz uma pós-graduação em Escrita Criativa.

Publiquei meu primeiro livro em 2022 e, desde então, já lancei mais dois livros e alguns contos de forma independente. Os três livros têm protagonistas autistas e acho que isso diz muito sobre o tipo de história que eu sempre procurei escrever: histórias em que pessoas como eu possam existir não apenas como personagens secundários ou como uma representação do autismo, mas como protagonistas de suas próprias vidas.

Hoje, uma das coisas que mais me inspiram é justamente escrever para pessoas que, assim como eu, talvez nunca tenham se visto refletidas nas histórias que encontravam para ler.

Como surgiu a ideia de “Beijada pela maré”?

Essa ideia surgiu há bastante tempo e demorou anos para amadurecer. O primeiro vislumbre de “Beijada pela Maré” veio de apenas dois elementos: uma jovem que, de alguma forma, se apaixona por um ser marinho misterioso. A ideia ficou comigo durante anos, até que surgiu a oportunidade de submeter um projeto ao edital Literatura do Rio ao RJ.

Naquela época, li uma notícia sobre uma jovem autista, estudante universitária, que havia sido muito negligenciada pela própria universidade, e a sobrecarga de não ter apoio dentro de uma instituição de ensino a levou a recorrer a uma saída trágica para sua dor.

Aquela história ficou comigo porque eu queria que tivesse um final diferente. Aquela jovem, assim como eu, deveria ter sido tratada melhor pela universidade, mas também pelas pessoas ao seu redor.

E então eu me lembrei: eu sou escritora. É basicamente meu trabalho reimaginar a realidade e, no meu caso, eu queria imaginar uma realidade mais gentil. Perguntar: “e se acontecesse de outra forma?”. Foi assim que aquela ideia antiga começou a se transformar e deu origem a “Beijada pela Maré”.

Como a sua experiência pessoal influenciou a jornada de Nina?

A minha experiência influenciou muito a Nina, principalmente por eu também ter recebido um diagnóstico tardio de autismo. Eu conheço essa sensação de passar boa parte da vida tentando entender por que você se sente diferente das pessoas ao seu redor e não encontrar respostas, chegando até a acreditar que existe alguma coisa errada com você.

Também existe nela essa sensação de desamparo ao procurar ajuda, tentar explicar o que está acontecendo e não ser compreendida ou ter suas dificuldades tratadas como se não fossem importantes. A experiência acadêmica da Nina também parte de uma reflexão sobre algo que, na minha visão, já é difícil para muitas pessoas: a pressão por produtividade e desempenho dentro da academia, muitas vezes sem que exista um suporte institucional adequado para as necessidades específicas de uma pessoa com deficiência.

Uma das últimas cenas da Nina com o orientador dela também foi inspirada em uma experiência que aconteceu de verdade comigo, embora não tenha sido no mesmo contexto acadêmico e tenha sido adaptada para a história.

Eu usei muitas experiências minhas como matéria-prima para construir a protagonista, mas elas foram transformadas, deslocadas de contexto e misturadas com elementos ficcionais. Eu queria que as experiências da Nina fossem autênticas, mesmo quando não fossem exatamente iguais às minhas.

Como foi escrever sobre autismo a partir de uma experiência pessoal, sem transformar Nina em uma personagem que existe apenas para representar o autismo?

Foi justamente um dos cuidados que tive durante toda a escrita. Eu queria que a Nina fosse uma pessoa antes de qualquer outra coisa. Ela é autista, mas também é uma jovem de 21 anos, estudante de Biologia, tem desejos, medos, interesses, relações, se apaixona, comete erros, toma decisões e vive sua própria história.

Para mim, era importante que o autismo fizesse parte de quem ela é, sem ser a única coisa que define sua existência. Ao mesmo tempo, eu não queria esconder as dificuldades que fazem parte da experiência dela. Acho que o desafio foi justamente mostrar as duas coisas: o impacto real de ser uma pessoa autista em um mundo que nem sempre está preparado para nós, sem transformar a personagem em um manual sobre o autismo.

Minha própria experiência ajudou a construir essa parte com mais autenticidade, mas a Nina é uma personagem única. Ela tem uma trajetória própria, e eu quero que quem for ler conheça primeiro a Nina e, a partir dela, também possa compreender melhor algumas experiências de pessoas autistas.

O livro critica ambientes que se dizem inclusivos, mas continuam exigindo que pessoas neurodivergentes sejam aquelas que precisam se adaptar. O que, para você, diferencia inclusão de verdade de uma inclusão apenas no discurso?

Acho que existe uma diferença muito grande entre facilitar a entrada de uma pessoa com deficiência em determinado ambiente e criar condições para que ela consiga, de fato, permanecer nele. Muitas vezes, a inclusão fica limitada a permitir que a pessoa entre, mas, depois, ela é deixada para se virar sozinha.

Para incluir de verdade, é preciso entender a diferença entre igualdade e equidade. Não significa diminuir os padrões ou esperar menos de pessoas com deficiência. É adaptar as condições para que pessoas com necessidades diferentes também tenham condições reais de alcançar aquilo que é esperado delas.

Uma instituição não deveria simplesmente dizer que todos podem ocupar aquele espaço e depois deixar que a pessoa enfrente sozinha todas as barreiras que existem naquele ambiente. É preciso pensar também em acompanhamento, acessibilidade e permanência. A inclusão não termina quando a pessoa passa pela porta de entrada.

Se você pudesse conversar com a Nina no início da história, o que gostaria que ela soubesse sobre o lugar que vai ocupar no mundo?

Eu diria a ela que não há nada de errado com ela. Mas também diria que o seu sofrimento é válido, que não é exagero nem drama. Pessoas autistas têm uma forma diferente de estar no mundo, mas isso não significa que sejam defeituosas ou que não mereçam alcançar aquilo que desejam na vida. Também não significa que não mereçam amor sendo exatamente como são.

Ela não precisa se moldar o tempo todo para tornar a própria existência mais palatável para os outros. Eu sei que é difícil viver acreditando que até mesmo se aceitar como você é e sentir orgulho de si mesma precisa ser uma luta, mas ela merece ocupar espaço no mundo sem precisar deixar de ser quem é para isso.

Qual foi o maior desafio da escrita?

Foram vários desafios. Um deles foi escrever e entregar um livro inteiro dentro dos 180 dias de prazo estabelecidos pelo edital que contemplou a obra. Ao mesmo tempo, eu precisava equilibrar romance, elementos sobrenaturais, biologia e a discussão sobre inclusão sem deixar que a história se transformasse apenas em uma explicação sobre o autismo e suas dificuldades.

Criar o Azul também foi um desafio muito divertido. Eu queria que ele fosse uma criatura sobrenatural, mas que tivesse características que parecessem minimamente possíveis do ponto de vista biológico. Por isso, pesquisei bastante sobre diferentes espécies marinhas e peguei emprestadas algumas características que já existem na natureza para construir a espécie dele. Como também há capítulos narrados sob o ponto de vista do Azul, precisei pensar em como um ser não humano, com pouco contato com pessoas, perceberia o mundo e se comportaria.

Também foi desafiador lidar com temas emocionalmente muito pesados, como suicídio e ideação suicida. Eu queria tratar essas experiências com sensibilidade e respeito, sem transformar quem passa por isso em vilão ou sugerir que essa pessoa simplesmente “escolheu uma saída fácil”, como, infelizmente, ainda vejo algumas pessoas dizerem quando não compreendem o assunto.

E existe ainda o desafio de ser uma autora independente. Escrever um livro inteiro já é difícil por si só, mas, para uma autora independente, o trabalho não termina quando o manuscrito fica pronto. É um trabalho que normalmente seria dividido entre uma equipe inteira e que acaba sendo feito por uma pessoa só. Uma publicação envolve todo o trabalho de produção editorial, divulgação, vendas, embalagem, envio dos exemplares físicos, gestão de redes sociais e interação com quem lê. E esse último ponto é, para mim, a melhor parte. Gosto demais de conversar com os leitores e saber o que acharam da história.

O que você espera alcançar com “Beijada pela maré”?

Eu espero, principalmente, que pessoas leitoras autistas encontrem na Nina uma personagem em quem possam se reconhecer. Que alguém que nunca se viu na protagonista de um livro possa encontrar um pedacinho de si nessa história.

Também queria mostrar uma mulher autista vivendo uma história de amor sem que o autismo seja o único eixo da personagem. A Nina pode estudar, apaixonar-se, desejar coisas, ter conflitos, fazer escolhas e viver sua própria história. Ela é uma pessoa autista, mas não é apenas uma representação do autismo.

Além disso, espero que pessoas leitoras não autistas possam entrar em contato com essas experiências por meio de uma história que talvez não procurassem espontaneamente.

Profissionalmente, espero que “Beijada pela Maré” ajude a consolidar minha trajetória como escritora e possa contribuir para que mais histórias com protagonistas autistas encontrem espaço. Ainda busco uma oportunidade de publicação tradicional, e espero que o livro também possa me aproximar desse caminho.

O que você espera que leitores autistas reconheçam na trajetória de Nina e o que espera que leitores não autistas compreendam a partir dela?

Para pessoas leitoras autistas, eu espero que se sintam vistas. Muitas vezes temos a sensação de que somos invisíveis, de que nossas particularidades são irrelevantes e nossas dificuldades são descartadas como se não fossem grande coisa. Quero que sintam que existem mais pessoas como nós por aí, pessoas que compreendem algumas dessas experiências e sabem como pode ser difícil encontrar um lugar no mundo.

Para pessoas leitoras não autistas, espero que compreendam que pessoas autistas adultas existem e que podemos ter diferenças importantes, mas que essas diferenças não nos transformam automaticamente em pessoas com quem não é possível se identificar ou se relacionar. Apesar das nossas diferenças, ainda temos muito em comum.

O que você diria aos leitores que estão encontrando a obra agora?

Eu espero que você dê uma chance à história da Nina e do Azul e que se permita conhecer um livro com uma protagonista um tantinho diferente do que costuma ver por aí.

“Beijada pela Maré” foi escrito pensando em abraçar. É uma história sobre sermos dignas de amor mesmo quando pensamos que não o merecemos, e sobre como, depois de sermos amadas do jeito certo, aprendemos a não aceitar menos do que descobrimos merecer.

O propósito deste livro é dizer às pessoas que vão lê-lo que existe um lugar para nós. Existem pessoas por aí que vão enxergar você como você é e que vão escolher ficar ao seu lado, não importa o que aconteça.

Convido você a mergulhar nessa história e deixar as ondas te abraçarem.

Há algo mais que gostaria de dizer?

“Beijada pela Maré” representa uma etapa muito importante da minha trajetória como autora independente. Eu ainda busco um espaço no mercado editorial tradicional e a oportunidade de levar meus livros para as livrarias e alcançar pessoas que não consigo alcançar sozinha.

Mas o edital Literatura do Rio ao RJ tornou possíveis coisas que eu provavelmente não teria conseguido realizar de outra forma. Além da visibilidade, pela primeira vez pude produzir uma edição física de um livro meu e oferecê-la a quem lê minhas histórias, além de participar da FLIP em uma mesa para falar sobre minha experiência com “Beijada pela Maré”. Foram oportunidades muito importantes para mim.

Ainda é muito difícil entrar em uma editora tradicional, ainda mais quando você é uma pessoa com deficiência tentando se destacar entre tantas outras autorias e tantos outros livros. Mas eu acredito no potencial dessa história. Foi justamente por acreditar nela que, quando não encontrei uma porta aberta, fui buscar outra maneira de viabilizar o livro e colocá-lo nas mãos de pessoas que estavam procurando justamente uma história como essa.

E gostaria também de agradecer pela oportunidade de falar sobre “Beijada pela Maré” e sobre a minha trajetória. Fiquei muito feliz com o convite para esta entrevista e espero que ela também ajude mais pessoas a conhecerem o livro e o meu trabalho.

Imagem de capa: Divulgação