No cenário digital, manter a concentração para ler um livro tornou-se um desafio coletivo. Esse desafio é ainda maior  para quem convive com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No Janeiro Branco,  mês de conscientização sobre saúde mental, a especialista em literatura e escritora Thaís Campolina aponta caminhos e estratégias práticas para retomar o foco.

São dicas para vencer as distrações das redes sociais e manter o hábito da leitura. De acordo com Thaís Campolina, a dificuldade atual em manter o foco para a leitura é um fenômeno coletivo: “Estamos desaprendendo a ler. Nossa vida hiperconectada tem afetado nossos neurônios, que se reorganizam a partir desse excesso de estímulos e do ritmo acelerado exigido pelo momento que estamos vivendo.”

Se o excesso de estímulos do mundo digital já desafia a concentração do público neurotípico, para quem vive com TDAH, o impacto é muito maior. Thais afirma que a dinâmica das redes sociais atua como um gatilho de hiperestimulação, afetando os neuroatípicos de forma muito mais severa do que o público geral.

“Pessoas com TDAH tendem a ter mais dificuldade em cultivar o hábito da leitura e lidar com as redes sociais. Somos mais propensos, inclusive, a nos viciar nelas. Afinal, a gente obtém dopamina facilmente assistindo reels e, em nossos cérebros, esse neurotransmissor está sempre em baixa”.

Mesmo assim, ela garante que é possível criar o hábito de leitura, mesmo com o diagnóstico de TDAH. E uma vez que o hábito é criado, com o tempo tudo se torna mais fácil e rotineiro.

“Ler é bom para o cérebro, em especial para os nossos cérebros neurodivergentes. É difícil começar, mas depois que você começa, flui, ainda que vez ou outra a gente precise se esforçar um pouquinho”, diz. Thaís compara o processo à atividade física: “A gente teima, porque não quer fazer, mas depois que começa a ter o hábito, se sente bem melhor no dia a dia e isso vira uma motivação para continuar.”

Como ler mais: estratégias para neuroatípicos e neurotípicos

  • Fuja de leituras puramente funcionais. Busque histórias que despertem interesse real. 
  • Busque novos formatos. Leia poesia contemporânea, crônicas, quadrinhos e até audiobooks. Se você gosta de podcasts, o livro em áudio pode ser a porta de entrada ideal.
  • Identifique suas janelas de foco: ter o hábito de leitura não exige ler todos os dias, mas sim ter uma rotina. Teste diferentes momentos: antes de dormir, no almoço ou durante o trajeto no transporte público para descobrir quando sua concentração flui melhor.
  • Crie um ambiente blindado, diminua as distrações externas e afaste-se  do celular. Para quem lida com o TDAH, usar fones de ouvido com ruído branco pode ajudar a isolar o cérebro de estímulos externos.
  • Transforme suas redes sociais em aliados. Siga perfis literários e influenciadores que falem de livros. 
  • Participe de clubes de leitura, presenciais ou online. Os debates incentivam a leitura.
  • Faça um ritual de “pré-leitura”: Se as telas tornaram sua mente inquieta, comece com atividades de desconexão. Livros de colorir ou palavras-cruzadas são boas opções. Elas ajudam o cérebro a desacelerar antes de mergulhar em uma narrativa densa.

Portanto, a mensagem final da autora é de que deve-se começar devagar, ajustar expectativas e lembrar que a leitura, assim como qualquer hábito, é construída com disciplina, curiosidade e acolhimento das próprias limitações.

Sobre a autora

Thaís Campolina é poeta, curadora literária e mediadora de leitura. Autora dos livros “Eu investigo qualquer coisa sem registro” (2021), “Estado febril” (2024) , é pós-graduada em Escrita e Criação. Atua no acompanhamento de projetos literários e na mediação de clubes como o Cidade Solitária e o Leia Mulheres Divinópolis. Além disso, administra a página Bafo de Poesia.

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