Uma animação que aborda preconceito e empatia de modo lúdico para o público infantil
O filme Zootopia: Essa Cidade é o Bicho, lançado pela Disney em 2016, virou referência quando a pauta é diversidade, estereótipos e preconceito. O longa trata desses assuntos de forma leve e, ao mesmo tempo, surpreendentemente profunda. Não por acaso, o filme voltou ao centro das conversas nesta semana, já que a tão aguardada sequência estreia amanhã (27).
A animação apresenta um universo de animais antropomorfizados – ou seja, animais que recebem características humanas na aparência, no comportamento, nas emoções, na fala e até na forma de pensar. Assim, o longa transforma debates adultos sobre preconceito, estereótipos e discriminação em uma fábula visual e narrativa acessível às crianças, mas que também atinge o público adulto.
Além disso, “Zootopia” combina humor, investigação policial e personagens carismáticos para mostrar como julgamentos precipitados e rotulações prejudicam comunidades inteiras. O filme faz isso sem recorrer a discursos diretos. Em vez disso, usa situações lúdicas para preparar o terreno para uma conversa sobre diversidade, tema que a sequência deve retomar de novas maneiras.
“Zootopia” como leitura lúdica do preconceito
“Zootopia” é uma animação infantil que não se limita a lições superficiais. Ao contrário, o filme usa o mundo dos animais para representar o mesmo preconceito que existe na sociedade humana. Tudo isso aparece em uma linguagem acessível e lúdica, pensada para que as crianças entendam o tema sem peso excessivo.
Na metrópole de Zootopia, predadores e presas convivem lado a lado em diferentes biomas. Essa escolha criativa sustenta a alegoria central do longa. As espécies funcionam como analogias à pluralidade de etnias, identidades de gênero e orientações sexuais.

Apesar de apresentar uma cidade vibrante e aparentemente harmoniosa, o filme não parte do conflito. Pelo contrário: “Zootopia” começa em um cenário de paz, em que predadores e presas teriam superado seus instintos naturais. A narrativa insiste nessa ideia de convivência perfeita para mostrar, logo depois, que essa harmonia é mais frágil do que parece.
Desse modo, a metrópole funciona como uma utopia frágil. Os problemas aparecem nas pequenas atitudes: na desconfiança silenciosa, nas suposições sobre cada espécie e nas oportunidades negadas a quem tenta romper esses rótulos.
A protagonista Judy Hopps simboliza esse descompasso. Quando chega a Zootopia com o sonho de se tornar policial, ela encontra resistência imediata. Na cidade, o estereótipo do policial ideal é claro: homens grandes, fortes e, de preferência, predadores. Por isso, Judy enfrenta preconceitos ligados à sua aparência “frágil” e, também, ao fato de ser uma mulher.
Assim, o filme deixa claro que o preconceito não desaparece mesmo quando a sociedade afirma ter evoluído. Com isso, “Zootopia” mostra às crianças que desigualdades existem não devido às diferenças, mas pelas estruturas que insistem em limitá-las e as reproduzir.
Como “Zootopia” ensina diversidade pela jornada de seus protagonistas
Os personagens de “Zootopia” funcionam como pontes de empatia e instrumentos de desconstrução de estereótipos. A protagonista Judy Hopps, por exemplo, subverte a imagem da “coelha frágil” ao enfrentar uma polícia dominada por figuras grandes, fortes e quase sempre predadoras. Seu esforço para provar competência em um sistema que dúvida de suas capacidades ecoa debates reais sobre desigualdade de gênero e discriminação no mercado de trabalho.
Nick Wilde, por sua vez, é uma raposa astuta que vive de pequenos golpes. Desde a infância, ele carrega rótulos e desconfiança. Por causa disso, internaliza essas expectativas negativas e adota exatamente o comportamento que esperam dele – não porque seja sua natureza, mas porque nunca lhe deram a chance de ser diferente.
Sua relação gradual com Judy revela um personagem sensível, inteligente e ético. A dinâmica entre os dois mostra às crianças que o preconceito pode moldar destinos e limitar potencialidades. Além disso, reforça a ideia de que um livro não deve ser julgado pela capa (e que um animal não deve ser definido por sua espécie).

Outros personagens reforçam essas camadas temáticas. O Chefe Bogo ilustra a resistência institucional à diversidade, funcionando como um dos primeiros obstáculos de Judy após sua chegada à delegacia. Já Bellwether, apresentada no início como tímida e inofensiva, carrega um ressentimento profundo contra os predadores. Ela alimenta esse ódio após anos de discriminação e subestimação, o que a leva a reforçar o mesmo ciclo de preconceito que a feriu.
Essas escolhas narrativas ampliam o alcance simbólico do filme. Elas mostram que os estereótipos afetam todos – tanto quem os sofre quanto quem os reproduz – e que esse movimento cria um ciclo perigoso e difícil de romper.
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A lição continua com “Zootopia 2”
Ao apresentar conflitos complexos em uma linguagem acessível, “Zootopia” transforma debates importantes em experiências que crianças conseguem compreender e sentir. A animação mostra que preconceito, estereótipos e desigualdades não nascem do nada; eles se formam no dia a dia, nas pequenas atitudes, nos medos transmitidos por gerações e nas verdades que aceitamos sem questionar.
Por isso, o filme segue atual mesmo oito anos depois. Ele lembra que diversidade não é uma pauta abstrata, mas algo que se constrói com convivência, empatia e coragem para desafiar rótulos. Com humor, aventura e personagens que cativam diferentes idades, “Zootopia” ajuda o público infantil a reconhecer injustiças e a pensar além das aparências.
Agora, com a estreia de “Zootopia 2”, esse debate volta ao centro das conversas. A sequência chega em um momento em que representatividade e educação emocional ocupam espaço cada vez maior no entretenimento infantil. Se o novo filme seguir o caminho do original, ele deve reforçar que imaginar mundos melhores também é uma forma de transformar o nosso.
Imagem de capa: Reprodução/Walt Disney Pictures
Redatora em experiência sob supervisão de Giovanna Affonso.
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