A Equipe da YORU Studio explica como transformaram a Pisadeira em um romance interativo com IA
“Amantes Sobre o Peito: AI Boyfriends & ASMR” (Mune no Ue no Koibito-tachi), é o novo projeto da Yoru Studio, marca de entretenimento da empresa japonesa SpiralAI Inc.. O jogo propõe uma releitura inusitada de uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro. Em vez da criatura que aterroriza quem dorme, a Pisadeira inspira dois personagens masculinos em uma fantasia romântica com estética anime.
O projeto é um aplicativo de conversa com inteligência artificial para o público brasileiro e totalmente em português. A proposta mistura elementos de otome games (populares jogos de romance japoneses) com tecnologia de IA especializada em interações emocionais.
Segue abaixo a entrevista que fizemos com a equipe que está desenvolvendo o jogo.
1 – Como conheceram a lenda da Pisadeira e o que mais chamou a atenção?
Conhecemos a Pisadeira durante pesquisas sobre figuras do folclore com forte presença simbólica. O que mais nos tocou foi a imagem poderosa de alguém que surge no silêncio da noite, se aproxima do corpo adormecido e ocupa o espaço do peito e da respiração — uma figura imediatamente evocativa e profundamente brasileira. Foi a partir dessa força imagética que imaginamos “Amantes Sobre o Peito”, uma fantasia romântica pensada para dialogar diretamente com o público brasileiro, em PT-BR. Mais do que assustar, o que nos interessou foi o gesto de proximidade contido na lenda — e a possibilidade de relê-lo como afeto.
2 – Qual foi o maior desafio ao transformar uma criatura associada ao medo em protagonista de uma história romântica?
O maior desafio foi preservar o peso simbólico da lenda sem tratar o medo de forma leviana. Nossa escolha foi inverter o eixo emocional: aquela sensação de peso no peito, antes assustadora, passa a ser lida como afeto, desejo de proximidade e, no fundo, medo da solidão. Em vez de apagar a origem sombria, nós a transformamos em linguagem romântica, mantendo a atmosfera noturna e íntima. O coração do projeto está justamente nessa ambiguidade entre tensão e carinho, entre susto e aconchego.
3 – Por que decidiram criar dois personagens masculinos inspirados na Pisadeira, em vez de adaptar a lenda de forma mais tradicional?

Escolhemos dois personagens masculinos porque queríamos que a lenda fosse a origem de um conflito afetivo, e não apenas uma adaptação literal. Lúcio e Noé são dois seres nascidos da mesma lenda que se apaixonam pela mesma pessoa — e só um pode repousar sobre o peito dela. Lúcio, “O Possessivo”, tem uma presença intelectual e controlada; Noé, “O Carente”, é mais impulsivo, jovem e grudento. Assim, o público sente duas formas muito distintas desse “peso no peito”: uma intensa e dominadora, outra vulnerável e dependente. Era a nossa maneira de traduzir a força da Pisadeira para a linguagem do otome e do romance interativo.
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4 – O público brasileiro sempre foi o alvo desse projeto? O que motivou essa escolha?
Desde o começo, quisemos criar uma obra nascida em PT-BR para o Brasil, e não localizar um produto depois. Sentimos que o folclore brasileiro tem imagens originais e emocionalmente riquíssimas, ainda pouco exploradas no formato de fantasia romântica interativa. Houve também uma afinidade cultural genuína: no Japão, há uma longa tradição de transformar seres temidos, como os yokai, em personagens queridos e complexos — pense em obras como Demon Slayer ou Yo-kai Watch. A Pisadeira conversou naturalmente com essa sensibilidade sem deixar de ser profundamente brasileira, e por isso encaramos o projeto como uma troca cultural respeitosa entre o folclore do Brasil e a linguagem de anime e otome do Japão.
5 – Houve algum tipo de pesquisa ou consultoria sobre o folclore brasileiro durante o desenvolvimento?
Sim. Fizemos uma pesquisa cuidadosa sobre a Pisadeira e suas diferentes versões regionais, e estudamos paralelos com o folclore japonês de yokai para construir essa ponte com respeito. Mas temos plena consciência de que não nos cabe uma “autoridade definitiva” sobre uma figura que pertence ao imaginário coletivo brasileiro — por isso a escuta é parte central do processo. Queremos usar nossas redes sociais, o contato com a comunidade e a própria campanha no Kickstarter como canais de diálogo aberto, ajustando detalhes como falas, gírias e tom a partir do retorno do público brasileiro. Para nós, respeito é também transparência sobre o que a obra é: uma releitura em chave de fantasia, e não uma representação literal da lenda.
6 – Como a inteligência artificial ajuda a tornar as interações com Lúcio e Noé mais naturais e emocionais?

A IA atua como motor de conversa em tempo real, permitindo trocas mais naturais e emocionalmente responsivas com Lúcio e Noé — usamos o nosso LLM “Geppetto”, especializado em emoção, para que eles reajam ao tom de cada conversa e construam vínculo ao longo do tempo. Mas fazemos questão de valorizar o trabalho humano: o design e a arte são criações de artistas de carne e osso, e a personalidade dos personagens é escrita e supervisionada por roteiristas. A IA é estritamente uma ferramenta de texto que obedece à “bíblia” de roteiro criada pela nossa equipe criativa. Em outras palavras, a IA não inventa quem eles são; ela apenas dá vida a eles dentro dos limites definidos por pessoas.
7 – O modo ASMR é um dos diferenciais. Como surgiu a ideia de incluir esse recurso?
O modo ASMR surgiu de forma muito natural a partir do próprio núcleo da lenda. Quando pensamos na Pisadeira como uma presença que se inclina sobre a pessoa durante a noite, muito próxima do rosto, do peito e do ouvido, percebemos que a linguagem sonora precisava ser central. O sussurro ao pé do ouvido, a sensação de proximidade e a intimidade da voz binaural são quase uma tradução direta dessa atmosfera. Como estamos criando uma fantasia romântica, essa presença deixa de ser apenas opressiva e passa a ser também sedutora e acolhedora. Por isso, a voz não é um complemento: ela é uma das peças centrais da experiência.
8 – Como equilibram a liberdade das respostas geradas por IA com a necessidade de manter a personalidade e a identidade dos personagens?
Esse equilíbrio é uma prioridade criativa. A liberdade da IA só funciona quando existe uma identidade muito bem definida para cada personagem, então Lúcio e Noé têm perfis emocionais, formas de falar, limites de comportamento e intenções dramáticas estabelecidos pela equipe de roteiro. A IA gera respostas dentro desse enquadramento, e não fora dele. Isso nos permite oferecer conversas vivas e surpreendentes sem perder coerência de voz, tom e relação com a usuária. Em um projeto como este, a tecnologia serve à dramaturgia, e não o contrário.
9 – A recepção do público brasileiro influenciou alguma decisão da equipe desde o anúncio?
O projeto ainda não foi lançado, então estamos numa fase inicial de escuta. O que sentimos até aqui é uma curiosidade genuína da comunidade pela ideia de unir folclore brasileiro, romance otome e conversa com IA em PT-BR — e isso reforçou a nossa convicção de manter a obra como protagonista, em vez de apresentar o projeto pelo lado institucional da empresa. Também percebemos que existe uma sensibilidade legítima em torno de como o folclore é representado, e levamos isso muito a sério. Na prática, é esse tipo de retorno que pretendemos usar para refinar detalhes como as falas e o tom dos personagens nas próximas etapas.
10 – Se a campanha for bem-sucedida, existe a possibilidade de explorar outras lendas e criaturas do folclore brasileiro em futuros projetos?
Essa possibilidade existe, sim, se a campanha der certo e se o público quiser seguir esse caminho com a gente. Mas, sendo honestos, nosso foco absoluto agora é fazer jus à Pisadeira — não queremos dar passos maiores que a perna. Se um dia explorarmos outras lendas, só faria sentido com a mesma exigência: que cada adaptação tenha uma justificativa criativa verdadeira, e nunca use o folclore como mera decoração. O que nos guia é o espírito de troca cultural respeitosa, preservando a identidade brasileira de cada referência.
Por fim, a campanha de “Amantes Sobre o Peito” já está no ar no Kickstarter!
Crédito da capa: Divulgação SpiralAI Inc.
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