Em “O Rei Pássaro“, Carol Sakura e Walkir Fernandes contam a história de uma mãe que busca se conectar com o filho com hiperfoco em pássaros. Ao longo das páginas, conhecemos um pouco mais do vasto mundo existente na mente do pequeno. Em entrevista exclusiva ao GeekPop News, os criadores da obra comentam sobre o processo de desenvolvimento, como surgiu a ideia e como a experiência enquanto pais norteou a trama.
Falem um pouquinho sobre vocês, quem vocês são, como foi a jornada de vocês até aqui e como foi o processo de criação da obra.
Carol:
Bom, eu sou Carol Sakura. Eu sou escritora, sou roteirista também. Trabalho também com cinema de animação, então tô sempre entre a escrita e também a narrativa por imagens de diferentes formas. Trabalho com quadrinhos, com literatura infantil, com contos e com cinema de animação também.
Esse livro é diferente porque ele parte de uma história particular, mas a gente acredita que é coletiva também, dessa criança que tem esse hiperfoco em pássaros. E a gente queria contar essa história desse contato de uma mãe que olha para essa criança e tenta procurar nesse interesse dela uma forma de se conectar.
Walkir:
Bom, eu sou o Walkir Fernandes. Eu sou ilustrador e coautor do livro “O Rei Pássaro”. Eu também sou apaixonado por essa ideia do livro ilustrado. Por essa brincadeira que o livro ilustrado tem, que é esse jogo, essa dança entre palavra e imagem, em que uma coisa coexiste com a outra, influencia a outra. Se você tirar a imagem desse texto, ele perde muito do significado e vice-versa.
O processo de criação do livro foi muito orgânico. Assim, eu recebi uma primeira versão do texto da Carol, trabalhei com algumas ilustrações em cima disso, sugeri outras. Ela alterou o texto em cima do que eu acabei dando ideia de ilustração, de imagens para contar aquela história. Aí eu fui em cima e também fui modificando.
E como que surgiu a ideia para a criação do livro?
Carol:
Então, na verdade, ela nasce de um olhar nosso, pessoal, porque a gente tem um filho; nós somos um casal, parceiros da vida também. E a gente tem um filho que é uma criança autista e ele já passou por vários hiperfocos, mas o que mais perdura é a paixão que ele tem pelos pássaros. Às vezes ele estava ali, alheio assim, preso dentro desse mundo dele de pássaros, onde ele só falava de pássaros, só pensava em pássaros e às vezes a gente sentia que a gente não conseguia acessar esse lugar.
E daí depois a gente foi pensando que ele não era mais só um livro sobre essa nossa experiência individual, mas ele era um livro sobre diferentes infâncias e diferentes pessoas, que são diferentes entre si. Pais que às vezes não conseguem se conectar com seus filhos ou que estão tentando entender como é esse mundo dessa criança. E o próprio universo da infância é diferente do universo do adulto.
Como que foi para vocês traduzir essa diferença entre o mundo percebido pela mãe e esse mundo imaginado pela criança?
Carol:
Eu acho que assim, a gente nunca alcança completamente todas as coisas que fazem parte da infância, principalmente de pessoas neurodivergentes. A gente não tenta, abarcar tudo, tipo, dar um veredito sobre como é essa relação ou como a gente olha as coisas, é uma experiência, é uma possibilidade de experiência, de olhar para esse mundo.
A nossa ideia não é de forma alguma romantizar as dificuldades que é essa relação entre pais e filhos. Mas é a gente pensar um pouco em possibilidades para estar junto, assim, sabe? Tentativas de se conectar e também de pensar. Eu acho que a gente tá sempre tentando se conectar com as pessoas de quem a gente gosta e, às vezes, a gente descobre coisas que são importantes para aquela pessoa. A mãe faz esse processo de: tá, meu filho ama pássaros e se eu recortar um pássaro para ele e eu tentar participar um pouco, pelo menos um pouquinho, desse universo dele.
Walkir:
Traduzir assim o que seria essa infância, esse lado lúdico, eu diria que é uma tarefa praticamente impossível porque existem diversas infâncias. A minha infância com certeza foi diferente da de vocês, e da do meu filho. Cada um tem a sua experiência de vida. Mas eu acho que o que ajuda a traduzir um pouco disso é a simbologia das coisas que a gente utiliza.
Então, na hora de fazer as ilustrações, eu procurei tomar um pouco esse cuidado também. Se você reparar nas primeiras páginas, esses pássaros estão chegando em algum lugar. Aí se vira a página; eles estão ali no fio de luz esperando uma oportunidade para entrar naquela janela, aquela janela da infância da criança.
Tem algum trecho ou ilustração que possui um significado mais especial para vocês?
Walkir:
Tem coisas ali que são especiais para mim, porque, quando eu tava fazendo, assim, quem vê o livro vai ver: meu Deus, tem muitos passarinhos aqui. Esse cara ficou maluco desenhando passarinho. Eu desenhei muitos mesmo.
Mas, enquanto estava fazendo esse livro, fui fazendo os passarinhos, meu filho falava assim: “Pai, não pode esquecer da curicaca”, que é o pássaro favorito dele. E lá vai eu desenhar a Curicaca. “Pai, não esquece do carcará”, e lá ia eu fazer o carcará, ah, o pica-pau… então assim, para mim, cada ilustração é especial por causa também desse carinho que é muito particular, que talvez a pessoa que vai ler não entenda isso, mas para mim a relação é muito particular também por conta disso, porque foi feito meio assim, de forma muito orgânica.
Carol:
Para mim, tem algumas coisas que são especiais assim, que a gente tentou colocar, que até a gente ganhou já uma leitura de uma pequena leitora, assim, que foi muito bacana, assim, ela foi descobrindo alguns segredos assim nas ilustrações, sabe? A gente brinca ali que tem um passarinho que é diferente dos outros, ele é especial. Ele é o único que tem umas características únicas ali, que conversam com uma outra coisa que é tipo meio um segredo nosso ali. E mas tem outras coisas ali que são especiais.
E teve uma vez que o meu filho chegou e falou para mim: “Mãe, você sabia que eu sou diferente das outras crianças? Porque no meu coração tem um pássaro.” E eu fiquei muito impressionada com isso. Assim, eu falei: nossa, a gente precisa fazer essa história de alguma forma, porque esse foi o jeito que ele verbalizou como ele se sente diferente, mas todo mundo tem algum momento em que se sente assim.
Então essa é uma coisa que é uma experiência pessoal que a gente trouxe pro livro, mas que eu acho que conversa com outras coisas. Então é uma parte especial do livro para mim também quando essa mãe percebe que no coração dele tem um pássaro, sabe?
Leia também: Resenha | “O Rei Pássaro”, de Carol Sakura e Walkir Fernandes
E qual foi o momento mais desafiador para vocês na criação da obra?
Walkir:
Tem essa parte de produção que realmente foge às vezes completamente do controle do autor, da autora, mas o que nos compete assim também, cada fase tem o seu desafio. Que nem, por exemplo, o texto. O texto do livro é de poucas frases, pouquíssimas frases, mas para chegar a lapidar cada uma das palavras que tem aqui, teve frases lindas da Carol que tiveram que ser cortadas do livro, porque é aquela coisa do todo.
A parte dela precisa falar do todo também na história e, às vezes, uma frase que é muito linda pode ser que ela destoou um pouco do restante.
Então isso é quase esculpir esses textos e essas imagens. Quando eu comecei a desenhar, eu não imaginei que eu ia desenhar 500 passarinhos no livro. Eu não imaginei isso. Mas foi ganhando corpo; isso foi criando vida mesmo, sabe? Tem uma hora que o que você tá fazendo pede coisas.
É uma coisa muito engraçada isso, sabe? Às vezes você planeja de um jeito, mas à medida que a obra tá sendo feita, ela tá pedindo coisas de você e você tem que entregar aquilo ali para aquilo ali virar uma coisa coesa, algo que funcione mesmo assim.
Carol:
O nosso maior receio era que desse a ideia de que a gente tá tentando romantizar o autismo. A gente tá falando de uma experiência que também não tem necessariamente um final feliz. Você não sabe se realmente aquela conexão foi completamente bem-sucedida. Aquela mãe talvez continue esperando, sabe, que esse contato aconteça assim. Acho que é um pouco mais nesse sentido.
Confira a entrevista completa:
Imagem de capa: Divulgação
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