Com uma atuação marcante de Yuri Gomes, o filme de Allan Deberton encontra beleza nas pequenas cenas, embora algumas histórias fiquem pelo caminho

Feito Pipa é um filme muito bonito, e talvez seja justamente a simplicidade com que conta essa história que tenha me tocado tanto. O longa trata de temas complexos, mas não transforma cada um deles em um grande discurso. Acompanha o cotidiano de Gugu e deixa que a emoção apareça nos detalhes, na rotina e nas mudanças que vão acontecendo ao redor dele.

Gugu (Yuri Gomes) tem 11 anos, vive com a avó, Dilma, interpretada por Teca Pereira, e não conhece a mãe. O pai, Batista, vivido por Lázaro Ramos, formou outra família, mas quer participar da vida do filho. Existe amor entre os dois, embora também haja um distanciamento difícil de ignorar, porque o pai não consegue compreender quem Gugu é.

Também me chama atenção o lugar onde essa história acontece. Gugu é um garoto afeminado, gosta de dançar, de brilho e de usar adereços, e vive no sertão nordestino. A gente está mais acostumado a encontrar personagens assim em histórias ambientadas em centros urbanos. Ver Gugu nesse contexto amplia o nosso imaginário sobre quem pode viver essas experiências e onde elas podem acontecer. O filme não transforma o menino numa curiosidade do lugar. Seus gostos e seu jeito fazem parte de quem ele é, mas não resumem sua personalidade, seus desejos e seus medos.

A dificuldade do pai em compreender o filho aparece junto do preconceito que Gugu enfrenta na escola e dentro de casa. Ainda assim, o filme não faz dessa questão a única explicação para o personagem. Para mim, há coragem em contar essa história num momento de crescimento do conservadorismo, sem reduzir Gugu à maneira como os outros o enxergam.

Coração do filme mora na doçura e na inocência do amor de vó

O centro emocional do filme está na relação entre Gugu e a avó. Dilma é quem o aceita por inteiro e representa tudo o que ele conhece como amor, família e segurança. Quando a saúde dela começa a mudar e os esquecimentos ficam mais frequentes, os dois passam a cuidar um do outro. Só que Gugu ainda é uma criança, e essa troca, apesar de nascer do afeto, coloca sobre ele responsabilidades grandes demais para a idade.

É nesse ponto que o filme mais me pega. Gugu cresceu sem a mãe, sente a distância do pai e começa a perceber que pode perder também a segurança que encontra na avó. Enquanto tenta lidar com tudo isso, vai abrindo mão de momentos da própria infância. Há uma situação em que deixa de jogar futebol diante de um olheiro, uma oportunidade que poderia apontar para outro futuro. Ele não transforma isso numa reclamação, mas a gente percebe o tamanho da renúncia.

A atuação de Yuri Gomes é uma das grandes surpresas do filme. Ele constrói um Gugu forte, cheio de personalidade e muito verdadeiro. Mesmo nas cenas mais cotidianas, há uma presença marcante no jeito como o menino reage e ocupa a tela. Para mim, Yuri é o grande destaque do elenco, e sua atuação ajuda a fazer com que as perdas de Gugu nunca apaguem quem ele é.

Lázaro Ramos também tem momentos muito bonitos como o pai, um homem que ama o filho, mas é bruto e não sabe lidar com as diferenças dele. O afeto existe, só não encontra um jeito fácil de chegar até Gugu. Fiquei com vontade de ver mais dessa relação, porque Lázaro aparece pouco e tem poucas oportunidades para desenvolver o personagem. Ainda assim, sua atuação tem verdade e impacto. Assim como Teca Pereira, que simplesmente atua teatralmente na tela do cinema. Atua como uma força da natureza, que ninguém pode parar.

Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa.
(Crédito: Jamille Queiroz)

Roteiro não precisa de espetáculo, e acerta nisso

O filme encontra sua narrativa de forma simples, através da música, da dança, do canto dos pássaros, na força da amizade, na poeira do campinho de futebol. Coisas tão brasileiras que se tornam fáceis de se identificar.

Mesmo que em alguns momentos, deixe de seguir uma linha tão reta, dando a sensação de que o filme está se afastando da história principal, a relação entre ele e a avó é o fio que atravessa o longa inteiro. Já as situações da escola, os relacionamentos de Dilma e a nova família do pai aparecem como partes da vida deles, e mesmo sem se desenvolverem por completo, servem como espuma dentro de almofada, que dão forma e conforto.

Admito, fiquei com perguntas na cabeça sobre a história da família. O filme não esclarece totalmente o que aconteceu entre os pais de Gugu ou como o pai se afastou e formou outra família. A irmã do menino tem idade parecida com a dele, e isso abre espaço para dúvidas sobre o passado dos adultos. Entendo que talvez o roteiro não quisesse entrar nessa seara, mas senti falta de um pedaço dessa história. Perto do final, o filme esclarece a ausência da mãe. Não vou contar como, porque prefiro deixar essa descoberta para quem ainda vai assistir (é muito impactante e visceral, dói na alma demais).

A fotografia e as trilhas, tanto a original quanto as músicas escolhidas para o filme, estão entre os seus pontos mais fortes. As paisagens do interior não servem apenas de fundo, elas ajudam a dar identidade à história e a situá-la no Brasil que a gente conhece. A direção trabalha muito bem com esses elementos e encontra força justamente naquilo que o filme tem de mais simples.

Feito Pipa foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. Acho que será difícil avançar, especialmente depois de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. É uma ressalva sobre o tamanho do desafio, não uma tentativa de diminuir o que o filme realiza. Queria muito uma indicação para Yuri Gomes, o menino simplesmente atuou como astro de Hollywood.

E vale a pena assistir?

Mesmo com as perguntas que ficaram e com algumas histórias que não se desenvolvem tanto, saí de Feito Pipa com a sensação de ter visto um filme muito especial. Ele fala sobre a velhice, sobre as limitações que podem chegar com o tempo e sobre a forma como as pessoas idosas são vistas, inclusive longe dos grandes centros urbanos. Também toca, de forma sútil e delicada, nos afetos e na sexualidade na terceira idade, e abraça a doçura, inocência e força de uma criança que está descobrindo quem é nesse mundo.

Acho que cada pessoa pode se reconhecer em uma parte diferente dessa história. Gugu pode tocar especialmente quem já enfrentou preconceito por ser quem é, enquanto Dilma pode encontrar eco em quem vive a velhice de perto. E, no meio dos dois, fica uma relação que também fala sobre cuidado, ausência e família.

Talvez seja por isso que a pergunta que fica comigo não seja apenas o que vai acontecer com Gugu, mas quanto de infância uma criança consegue preservar quando precisa cuidar da pessoa que representa seu mundo inteiro.

FICHA TÉCNICA

Título: Feito Pipa
Direção: Allan Deberton
Roteiro: André Araújo e Allan Deberton
Elenco: Yuri Gomes, Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco e Georgina Castro
Gênero: Drama
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 93 minutos
Distribuição: Paris Filmes
Estreia nos cinemas: 5 de novembro de 2026