O centenário de nascimento de Ingeborg Bachmann (1926-1973), no próximo dia 25 de janeiro, recupera o legado de uma das vozes mais radicais da literatura de língua alemã do pós-guerra. Nome central do Grupo 47, um influente coletivo literário alemão formado por autores e críticos de língua alemã após a Segunda Guerra Mundial, a escritora austríaca transitou da filosofia à poesia e à prosa.
Natural de Klagenfurt, na Áustria, Bachmann iniciou sua trajetória intelectual com uma tese de doutorado sobre a filosofia de Heidegger e Wittgenstein. Iniciou sua carreira como roteirista de radionovelas, porém alcançou reconhecimento imediato como poeta.
Ao longo de sua carreira, escreveu contos, libretos de ópera, traduções e um único romance, “Malina”. A participação no Grupo 47 também foi marcante para a carreira da escritora. Nomes como Günter Grass, Heinrich Böll, Paul Celan e Peter Weiss também eram integrantes.
Correspondências que Bachmann manteve com Max Frisch e Paul Celan, que vieram a público décadas depois, revelaram não apenas uma relação próxima e intelectual, mas discussões importantes. Entre os tópicos estavam discussões sobre forma literária, política, luta pelo reconhecimento feminino dentro de uma sociedade patriarcal, entre outros temas.
A obra de Bachmann continua atual, uma vez que hoje, ela ganha novas leituras através de sua investigação profunda sobre a violência, a identidade feminina e os traumas da linguagem. Seu único romance, Malina (1971), foi o primeiro volume de uma trilogia intitulada “Manias de morrer”. No entanto, a série nunca foi concluída.
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Malina: os traumas e a identidade feminina

Disponível no Brasil pela Editora Estação Liberdade, “Malina” narra a história de uma mulher, a narradora, uma escritora que vive em Viena. Assombrada por memórias distantes de seu pai, vive com o andrógino Malina. Inicialmente frio e distante, ele acaba se tornando uma influência ameaçadora.
Ao narrar o colapso de uma mulher por meio de sonhos e memórias, Bachmann antecipou discussões contemporâneas sobre a violência invisível e o apagamento da identidade sob o patriarcado. Malina serviu de modelo para muitos escritores por ser tão rico não só em conteúdo, mas também em forma. O livro se destaca por ser uma prosa descritiva e narrativa. Do mesmo modo, é uma poesia em versos, assim como diálogos dramáticos que lembram as peças teatrais, em uma metamorfose narrativa.
A morte prematura de Ingeborg Bachmann aos 47 anos, em decorrência de ferimentos sofridos em um incêndio em seu apartamento, interrompeu sua trajetória e sua carreira em ascensão. No entanto, “Malina” permanece como uma obra cheia de significado e atemporal, uma vez que expõe a violência estrutural nas relações entre homens e mulheres. O legado da escritora também permanece, por sua genialidade que revolucionou a literatura austríaca e europeia.
“Ingeborg Bachmann é a primeira mulher da literatura do pós-guerra, no espaço de língua alemã, a retratar, por meios radicalmente poéticos, a continuação da guerra, da tortura e da aniquilação na sociedade e nas relações entre homens e mulheres.” —
Elfriede Jelinek, dramaturga e escritora austríaca, Prêmio Nobel de Literatura (2004)
Imagem de capa: Créditos: Editora Estação Liberdade
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