Conheça a trajetória de Clarice Lispector, seu estilo de escrita e algumas das principais obras da literatura brasileira
Clarice Lispector ficou conhecida por histórias que nem sempre dependem de grandes acontecimentos. Em seus livros, uma viagem de bonde ou até uma barata encontrada dentro de casa podem ser suficientes para mudar a maneira como uma personagem enxerga a própria vida.
Autora de “A hora da estrela“, “Laços de família” e “A paixão segundo G.H.”, Clarice se tornou uma das principais escritoras da literatura brasileira. Suas histórias abordam questões como identidade, solidão, relações familiares e os sentimentos que nem sempre conseguimos explicar.
Mas sua trajetória não ficou apenas nos livros. Clarice também trabalhou como jornalista, escreveu colunas femininas e publicou histórias para crianças. Além dos romances e contos, encontrou nas crônicas um espaço para escrever sobre experiências pessoais e situações do cotidiano.
Então, o que torna sua escrita tão diferente? E por onde começar a conhecer suas obras?
Quem foi Clarice Lispector?
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na atual Ucrânia. Filha de uma família judaica, chegou ao Brasil ainda bebê, em 1922. Depois de viver em Maceió, a família se mudou para Recife, onde ela passou boa parte da infância.
Em 1935, Clarice foi morar no Rio de Janeiro. Alguns anos depois, ingressou na Faculdade de Direito da então Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apesar da formação, foi na escrita que construiu sua carreira. Em 1940, começou a trabalhar como jornalista e publicou o conto “Triunfo”, na revista “Pan”. Três anos depois, lançou seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”.
O livro acompanha Joana, uma jovem que questiona suas relações e a própria existência. A narrativa chamou a atenção da crítica por dar tanto espaço aos pensamentos da personagem, em vez de seguir apenas os acontecimentos da história. A estreia rendeu a Clarice o “Prêmio Graça Aranha”, em 1944. Mas aquele seria apenas o começo de uma carreira que reuniria romances, contos, crônicas e livros infantis.
Como Clarice Lispector ficou conhecida?

Depois da publicação de “Perto do coração selvagem”, Clarice continuou escrevendo enquanto acompanhava o marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, em diferentes países. Nesse período, publicou romances como “O lustre” e “A cidade sitiada”. Após a separação, em 1959, voltou a morar no Rio de Janeiro e retomou suas atividades na imprensa brasileira.
Nos anos seguintes, lançou algumas de suas obras mais conhecidas. “Laços de família”, publicado em 1960, recebeu o Prêmio Jabuti em 1961. Já “A paixão segundo G.H.”, de 1964, aprofundou a maneira como a autora explorava os pensamentos de suas personagens.
Em 1977, publicou “A hora da estrela”, obra que acompanha Macabéa, uma jovem alagoana que trabalha como datilógrafa no Rio de Janeiro. O livro se tornou um dos títulos mais conhecidos de Clarice e foi o último lançado durante sua vida. A escritora faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
Clarice Lispector também foi jornalista
A relação de Clarice com o jornalismo começou antes mesmo de sua estreia como romancista. Durante a carreira, trabalhou em jornais e revistas, escreveu crônicas e chegou a assumir colunas voltadas ao público feminino. Uma curiosidade é que nem sempre assinava esses textos com seu próprio nome. No jornal “Comício”, por exemplo, utilizou o pseudônimo “Tereza Quadros”. Anos depois, também escreveu como “Helen Palmer” no “Correio da Manhã”.
Essas assinaturas eram utilizadas em suas atividades na imprensa. Já seus romances eram publicados com o nome “Clarice Lispector”, que se tornaria conhecido entre leitores brasileiros e estrangeiros. Entre 1967 e 1973, Clarice publicou crônicas semanais no “Jornal do Brasil”. Os textos abordavam desde experiências pessoais até situações aparentemente simples, que acabavam se transformando em reflexões sobre diferentes aspectos da vida.
Parte desse material foi reunida posteriormente em “A descoberta do mundo“, publicado em 1984. O livro permite conhecer outra parte da produção da escritora, além de seus romances e contos.
O estilo de escrita de Clarice Lispector
Quem está acostumado com histórias cheias de acontecimentos pode estranhar a escrita de Clarice em um primeiro contato. Isso porque, em muitas de suas obras, o que acontece dentro da mente das personagens é tão importante quanto aquilo que acontece ao redor delas.
Um exemplo está no conto “Amor”, de “Laços de família”. Durante uma viagem de bonde, Ana observa um homem cego mascando chiclete. A cena parece comum, mas acaba provocando uma mudança na maneira como ela percebe sua rotina. Esse tipo de acontecimento recebe o nome de epifania. Na literatura, o termo pode ser utilizado para descrever um momento de descoberta ou percepção que transforma a relação de uma personagem com determinada situação.
Outro recurso presente na escrita de Clarice é o fluxo de consciência, que aproxima o leitor dos pensamentos das personagens. Em vez de apresentar tudo de forma organizada e linear, a autora acompanha lembranças, sensações e reflexões. Isso não significa que todos os seus livros sejam iguais. “A hora da estrela”, por exemplo, também apresenta uma preocupação evidente com a pobreza e a invisibilidade social, enquanto outras obras se concentram em questões mais filosóficas.
Talvez por isso uma mesma pessoa possa ter experiências tão diferentes ao ler dois livros da autora. Algumas histórias são mais diretas e apresentam situações próximas da realidade do leitor, enquanto outras exigem uma leitura mais atenta, com reflexões que nem sempre são fáceis de compreender em um primeiro contato.
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Por onde começar a ler Clarice Lispector?
Clarice escreveu romances, contos, crônicas e histórias infantis. E, apesar de ser conhecida por uma escrita considerada difícil por alguns leitores, nem todas as suas obras apresentam o mesmo nível de complexidade. Para quem ainda não conhece a autora, começar pelos contos ou por um de seus livros mais curtos pode ser uma boa alternativa.
Confira seis obras para conhecer diferentes momentos de sua carreira.
“Felicidade clandestina” (1971)
A coletânea reúne contos sobre infância, descobertas, desejos e relações humanas. Na história que dá nome ao livro, uma menina enfrenta uma espera angustiante para conseguir ler uma obra que deseja muito. É uma opção interessante para começar porque os textos são curtos e apresentam diferentes características da escrita de Clarice.
“A hora da estrela” (1977)
Uma das obras mais conhecidas da autora acompanha Macabéa, uma jovem alagoana que vive em condições precárias no Rio de Janeiro. A história é contada por Rodrigo S. M., um narrador que também reflete sobre a dificuldade de escrever a vida de outra pessoa. O livro aborda pobreza, desigualdade e identidade, mas também questiona o próprio ato de contar uma história.
“Laços de família” (1960)
Com 13 contos, o livro apresenta personagens que enfrentam conflitos familiares, sentimentos reprimidos e situações inesperadas. Histórias como “Amor e Feliz aniversário” mostram como Clarice utiliza acontecimentos cotidianos para explorar questões que nem sempre aparecem nas conversas entre os personagens.
“Perto do coração selvagem” (1943)
O primeiro romance de Clarice acompanha Joana em diferentes momentos da vida. Assim, a narrativa explora suas lembranças, seus relacionamentos e os questionamentos que surgem ao longo de sua trajetória. É uma leitura interessante para perceber como algumas das principais características da escrita da autora já estavam presentes em sua estreia.
“A paixão segundo G.H.” (1964)
Depois de encontrar uma barata no quarto de serviço de seu apartamento, uma mulher passa por uma experiência que coloca em dúvida sua maneira de compreender a existência. Dessa forma, a história parte de uma situação simples, mas desenvolve reflexões filosóficas e existenciais. Por isso, costuma ser uma leitura mais exigente do que as coletâneas de contos.
“Água viva” (1973)
Em “Água viva”, Clarice se afasta ainda mais da estrutura tradicional dos romances. O livro não apresenta uma história linear e acompanha reflexões sobre o tempo, a criação artística e a existência. É uma das obras mais experimentais da escritora e pode ser uma escolha interessante para quem já conhece seu estilo e quer explorar outra forma de narrativa.
Bibliografia de Clarice

Capa do Livro “A hora da Estrela”. Crédito: Editora Rocco
Além dos seis livros citados, Clarice Lispector deixou uma bibliografia extensa, com títulos publicados em diferentes momentos de sua carreira. Alguns deles foram lançados após sua morte, enquanto outros ganharam novas edições que reúnem textos antes publicados separadamente.
Confira a lista de obras da escritora, organizada por tipo de publicação.
Romances e novelas
- Perto do coração selvagem (1943)
- O lustre (1946)
- A cidade sitiada (1949)
- A maçã no escuro (1961)
- A paixão segundo G.H. (1964)
- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969)
- Água viva (1973)
- A hora da estrela (1977)
- Um sopro de vida (1978) — publicação póstuma.
Livros de contos
- Alguns contos (1952)
- Laços de família (1960)
- A legião estrangeira (1964)
- Felicidade clandestina (1971)
- A imitação da rosa (1973) — reunião de contos já publicados.
- A via crucis do corpo (1974)
- Onde estivestes de noite (1974)
- A bela e a fera (1979) — publicação póstuma.
Literatura infantil
- O mistério do coelho pensante (1967)
- A mulher que matou os peixes (1968)
- A vida íntima de Laura (1974)
- Quase de verdade (1978) — publicação póstuma.
- Como nasceram as estrelas (1987) — publicação póstuma.
Literatura infantil
- O mistério do coelho pensante (1967)
- A mulher que matou os peixes (1968)
- A vida íntima de Laura (1974)
- Quase de verdade (1978) — publicação póstuma.
- Como nasceram as estrelas (1987) — publicação póstuma.
Crônicas, entrevistas e outros textos
- Visão do esplendor (1975)
- De corpo inteiro (1975)
- Para não esquecer (1978) — publicação póstuma.
- A descoberta do mundo (1984) — publicação póstuma.
A produção de Clarice também continuou sendo organizada e publicada nas décadas seguintes. Entre as coletâneas e edições posteriores estão “Correspondências” (2002), “Aprendendo a viver” (2004), “Outros escritos” (2005), “Correio feminino” (2006), “Entrevistas” (2007), “Minhas queridas” (2007) e “Só para mulheres” (2008).
Mais recentemente, foram publicados volumes como “Todos os contos” (2016, no Brasil), “Todas as crônicas” (2018) e “Todas as cartas” (2020). Essas edições reúnem textos de diferentes períodos da vida da escritora, incluindo materiais que antes estavam espalhados por jornais, revistas e correspondências. A lista contempla suas principais publicações autorais em livro e importantes coletâneas posteriores. Do mesmo modo, traz traduções feitas por Clarice, reedições e todas as seleções temáticas lançadas pelas editoras.
Clarice Lispector também chegou ao cinema

Assim como aconteceu com outros grandes nomes da literatura, a obra de Clarice também ganhou espaço fora dos livros. Em 1985, “A hora da estrela” recebeu uma adaptação para o cinema, dirigida por Suzana Amaral. A atriz Marcélia Cartaxo interpretou Macabéa, personagem central da história.
Décadas depois, a influência da escritora voltou às telas com “Lispectorante”, filme dirigido por Renata Pinheiro que chegou aos cinemas brasileiros em 2025. A produção não adapta diretamente um livro, mas utiliza elementos associados à escrita de Clarice para construir sua narrativa.
E a influência não ficou apenas no cinema. A literatura da autora também chegou à música, como mostra a canção “A hora da estrela“, da banda Pato Fu, inspirada no livro de mesmo nome. Desse modo, a música é mais um exemplo de como as histórias de Clarice Lispector ultrapassaram as páginas e encontraram espaço em outras formas de expressão artística.
Por que Clarice Lispector continua importante?
Mesmo décadas depois de sua morte, Clarice Lispector continua sendo um dos principais nomes da literatura brasileira. Seus livros são publicados em diferentes países, estudados nas universidades e seguem conquistando leitores interessados em conhecer sua maneira única de contar histórias.
Uma das razões para esse reconhecimento está na forma como a escritora construiu suas narrativas. Em vez de depender apenas dos acontecimentos, Clarice deu espaço aos pensamentos, às dúvidas e aos conflitos de suas personagens. Portanto, essa característica ajudou a ampliar as possibilidades do romance e do conto brasileiro.
Suas obras também abordam questões que permanecem atuais. Em “Laços de família”, por exemplo, aparecem conflitos ligados às relações familiares e às expectativas sociais. Já em “A hora da estrela”, a trajetória de Macabéa apresenta discussões sobre pobreza, desigualdade e invisibilidade social.
Outro ponto interessante é que Clarice não escreveu apenas para um tipo de leitor. Enquanto algumas obras apresentam histórias mais diretas, outras experimentam diferentes formas de narrativa. Dessa forma, essa variedade permite conhecer a escritora por caminhos diferentes, seja pelos contos, romances ou crônicas.
Além disso, não é necessário começar pelos livros mais complexos para descobrir sua literatura. Obras como “Felicidade clandestina” e “A hora da estrela” podem ser boas escolhas para um primeiro contato, enquanto “Água viva” e “A paixão segundo G.H.” apresentam experiências de leitura mais exigentes.
Crédito de capa: Divulgação
Estagiária sob supervisão de Anna Flávia Lopes
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