De pseudônimos masculinos a máscaras de terror, entenda por que alguns autores escolheram não revelar quem são

Em uma época em que muitos escritores aparecem em redes sociais, eventos e entrevistas, alguns autores seguiram o caminho contrário. Eles ficaram famosos sem revelar totalmente o nome, o rosto ou a própria identidade.

Mas esse mistério não tem sempre o mesmo motivo. Em alguns casos, esconder a autoria foi uma forma de enfrentar o preconceito contra mulheres escritoras. Em outros, serviu para proteger a vida privada, fugir do peso da fama ou criar uma persona ligada à obra.

De Jane Austen a Uketsu, a literatura mostra que o nome na capa também pode contar uma história.

Por que esconder a identidade?

Nem todo autor esconde a identidade pelo mesmo motivo. Para algumas mulheres, publicar sem o próprio nome foi uma forma de entrar em um mercado dominado por homens.

A autoria feminina não era sempre proibida, mas muitas escritoras eram recebidas com desconfiança. Por isso, nomes neutros, masculinos ou assinaturas anônimas ajudavam a evitar julgamentos antes mesmo da leitura.

Hoje, o anonimato aparece de outras formas. Alguns autores querem preservar a privacidade, enquanto outros preferem que o público olhe primeiro para a obra, e não para a biografia de quem escreveu.

As irmãs Brontë

Charlotte, Emily e Anne Brontë publicaram usando os nomes Currer, Ellis e Acton Bell. Os pseudônimos eram masculinos ou ambíguos e escondiam que as obras tinham sido escritas por mulheres.

A escolha tinha relação direta com o preconceito da época. Charlotte Brontë explicou depois que as irmãs não queriam se apresentar como mulheres porque percebiam que escritoras eram vistas com resistência pela crítica.

O caso mostra que, para muitas mulheres, esconder o nome não era apenas uma escolha estética. Era uma tentativa de ser lida com seriedade em um espaço que favorecia autores homens.

Jane Austen

Retrato de Jane Austen feito por sua irmã, Cassandra Austen, por volta de 1810. Crédito: Cassandra Austen/Wikimedia Commons — Domínio público

Jane Austen também publicou sem assinar com o próprio nome. Razão e Sensibilidade, lançado em 1811, saiu identificado apenas como “By a Lady”, ou “Por uma dama”.

A autoria de Austen foi revelada publicamente após sua morte, em uma nota biográfica publicada junto de Persuasão e A Abadia de Northanger.

Hoje, ela é uma das autoras mais conhecidas da literatura inglesa. Mas, em vida, sua presença na capa era discreta, e seus livros circulavam sem transformar a escritora em figura pública.

George Eliot

Mary Ann Evans adotou o nome George Eliot para publicar seus romances. A escolha por um pseudônimo masculino também tinha relação com a forma como mulheres eram julgadas no século XIX.

A autora queria que seus livros fossem avaliados pelo próprio mérito, sem serem reduzidos aos estereótipos sobre escrita feminina. O nome também ajudava a afastar julgamentos sobre sua vida pessoal.

George Eliot se tornou uma das grandes romancistas da literatura inglesa. Mas, por trás do nome masculino, estava uma escritora tentando controlar como sua obra seria recebida.

Maria Firmina dos Reis

No Brasil, Maria Firmina dos Reis é um dos exemplos mais importantes. Úrsula, publicado em 1859, saiu assinado como “Uma Maranhense”, e não com o nome completo da autora. 

A obra é reconhecida hoje como um marco da literatura brasileira e da literatura abolicionista no país. A assinatura original permite discutir como autoria, gênero, raça e reconhecimento literário estavam ligados ao lugar social de quem escrevia.

A assinatura chama atenção também pelo contexto em que a autora escrevia. Maria Firmina era uma mulher negra publicando no Brasil do século XIX, em uma sociedade escravista e patriarcal. 

J.K. Rowling

J.K. Rowling não escondeu completamente sua identidade ao publicar Harry Potter, mas o nome usado na capa também teve uma função de mercado.

Segundo o site oficial Stories J.K. Rowling, as iniciais foram adotadas a pedido da editora. A preocupação era que meninos tivessem menos interesse em ler um livro assinado de forma claramente feminina.

Anos depois, Rowling voltou a usar outra identidade literária. Ela publicou a série policial Cormoran Strike sob o pseudônimo Robert Galbraith. Dessa vez, segundo o site oficial da autora, a intenção era fazer com que os livros fossem julgados pelo próprio mérito, sem o peso da fama de Harry Potter.

O caso mostra duas situações diferentes. Primeiro, o nome foi suavizado para não afastar parte do público. Depois, a identidade foi escondida para separar uma nova obra da imagem da autora já famosa.

Ali Hazelwood

Foto da autora de romances, Ali Hazelwood
Crédito: Reprodução

Ali Hazelwood também mostra como o pseudônimo pode separar duas vidas públicas. A autora ficou famosa com romances como A hipótese do amor, que mistura comédia romântica e ambiente acadêmico, mas preserva o nome verdadeiro ligado à sua trajetória fora da literatura.

O nome Ali Hazelwood é um pseudônimo. Em seu site oficial, a autora afirma que nasceu na Itália, viveu no Japão e na Alemanha, mudou-se para os Estados Unidos para fazer PhD em neurociência e trabalhou como professora por cerca de três anos antes de deixar a carreira acadêmica em 2022 para escrever em tempo integral.

O caso é interessante porque Hazelwood escreve romances ambientados no universo da ciência, ao mesmo tempo em que mantém distância entre a carreira literária e sua identidade civil. A Penguin Random House também apresenta a autora como escritora de artigos revisados por pares sobre ciência do cérebro.

Diferente de autoras que usaram nomes masculinos para enfrentar barreiras do mercado editorial, Hazelwood usa o pseudônimo para preservar uma fronteira entre a vida acadêmica e a vida literária.

Em entrevista ao The Washington Post, ela afirmou que não quer que leitores saibam seu nome verdadeiro, embora não se incomode que pessoas que a conhecem pelo nome civil descubram que ela é Ali Hazelwood.

Elena Ferrante

Livros da escritora Elena Ferrante.
Crédito: Biblioteca Azul

Elena Ferrante é um dos casos contemporâneos mais famosos de identidade preservada. A autora italiana, conhecida pela série iniciada em A amiga genial, nunca revelou publicamente quem é.

O anonimato faz parte da forma como Ferrante entende a própria literatura. Em entrevista ao The Guardian, ela defendeu que a ausência pública permite concentrar a atenção na escrita.

A escolha chama atenção porque vai contra a lógica atual do mercado cultural. Enquanto muitos escritores precisam aparecer para divulgar livros, Ferrante mantém a obra em primeiro plano.

Uketsu

Uketsu, autor japonês de terror e mistério, aparece com máscara branca e roupa preta em coletiva no Japão. Crédito: Eugene Hoshiko/AP Photo

Uketsu leva o anonimato para outro caminho. O autor japonês de terror e mistério aparece publicamente, mas sem revelar o rosto. Ele usa máscara branca, roupa preta cobrindo o corpo e voz modificada digitalmente. Sua identidade real não é conhecida pelo público.

Conhecido por obras como Strange Pictures e Strange Houses, Uketsu transforma o próprio mistério em parte da experiência com seus livros.

Nesse caso, esconder o rosto não serve apenas para preservar a privacidade. A imagem pública do autor também funciona como extensão do universo de horror que ele cria.

James Tiptree Jr.

Na ficção científica, Alice Bradley Sheldon publicou durante anos como James Tiptree Jr. O pseudônimo masculino circulou em um meio literário dominado por homens. A identidade foi revelada publicamente em 1977, quando se descobriu que James Tiptree Jr. era Alice Bradley Sheldon.

O caso teve impacto porque mostrou como o gênero atribuído a um autor pode interferir na leitura de uma obra. Textos antes lidos como uma voz masculina passaram a ser relidos a partir de outra perspectiva.

O que esses autores têm em comum?

Os motivos para esconder uma identidade mudaram ao longo do tempo. Para muitas mulheres, o anonimato foi uma forma de enfrentar um mercado literário que não as recebia com igualdade.

Para J.K. Rowling e Ali Hazelwood, o pseudônimo apareceu em contextos diferentes. Rowling usou outra identidade para separar uma nova fase da fama de Harry Potter, enquanto Hazelwood mantém uma fronteira entre a vida acadêmica e a carreira literária.

Já Elena Ferrante e Uketsu mostram como o anonimato continua funcionando hoje. Uma evita a exposição para preservar a escrita e a vida privada. O outro aparece mascarado e transforma o próprio segredo em parte da obra.

No fim, os autores sem rosto revelam algo que vai além da curiosidade. A literatura nunca depende apenas do texto: o nome na capa, o gênero de quem escreve, a imagem pública e o mistério em torno da autoria também influenciam a forma como uma história chega aos leitores.

Imagem de Capa: Eugene Hoshiko/AP Photo

Estagiária sob supervisão de Julia Gabriela e Mario Guedes.