Decisões corporativas envolvendo Inteligência Artificial (IA) estão forçando sindicatos e atores a entrarem em atrito com estúdios de Hollywood

Quem acompanha o universo de Hollywood com afinco sabe bem que o lado corporativista da indústria está em constante atrito com sindicatos e com sua própria classe artística. Não à toa, nós vimos a maior greve geral de roteiristas/atores da história paralisar o cinema e a TV estadunidenses há apenas três anos.

O movimento que pausou a indústria por meses buscava uma atualização dos acordos trabalhistas tanto dos sindicatos dos atores quanto dos roteiristas com os estúdios. As mudanças causadas no ramo pelo advento do streaming estavam no cerne da questão, mas a IA generativa já surgia como preocupação no meio artístico. Três anos depois, a questão caminha a passos largos para se tornar mais uma crise entre os estúdios e sua classe trabalhadora.

Enquanto estúdios de Hollywood investem em IA, classe artística protesta

Para começo de conversa, o avanço das ferramentas de IA não gera polêmica só em Hollywood. Basta abrir as redes sociais para encontrar extensas discussões sobre seu impacto no meio ambiente (o ChatGPT, por exemplo, consome mais de 500 ml de água para gerar uma resposta de 100 palavras) e acerca das questões éticas no uso de IA generativa.

Na indústria cinematográfica, a IA também divide opiniões. Para os estúdios, as novas tecnologias se tornaram um “sonho de consumo”. Não à toa, a Disney foi pioneira em 2025 ao selar um acordo inédito de 1 bilhão de dólares com a OpenAI, gestora do ChatGPT, para a criação de vídeos curtos utilizando personagens do estúdio. Porém, a parceria ruiu sem sequer sair do papel devido ao encerramento do Sora, a geradora de vídeos da OpenAI.

Até mesmo estúdios independentes entraram na corrida para investir em IA. No último mês, a A24, estúdio “queridinho” dos cinéfilos que lançou “O Drama” e “Backrooms” neste ano, selou um acordo de US$ 75 milhões com o Google para desenvolver ferramentas de IA que visam “aprimorar” funções criativas na produção cinematográfica.

Backrooms Um Não-Lugar filme
A24, estúdio de “Backrooms”, selou acordo com Google para desenvolvimento de ferramentas de IA (Crédito: Divulgação/A24)

Por que o uso de IA gera debate entre atores e membros da indústria?

Mas, enquanto os estúdios correm para fechar acordos milionários, a questão tem sido vista de maneira diferente em parte da classe artística, não só no cinema, mas nas artes em geral. Figuras renomadas do entretenimento, como Madonna e Christopher Nolan, já criticaram abertamente o uso de IA no processo criativo. O próprio criador de “Backrooms”, Kane Parsons, foi na contramão da A24 e apontou recentemente:

“Já vivemos em um mundo onde você sai e tem outdoors e placas que são obviamente ‘lixos’ gerados por IA. Isso se tornou parte da nossa realidade visual. Para mim, a IA generativa parece menos uma inovação e mais um sintoma mais amplo de um empobrecimento cultural e econômico.”

A questão também virou tema até mesmo na ficção. Por exemplo, a comédia “Hacks“, um dos principais sucessos da HBO Max, dedicou um episódio inteiro de sua última temporada para debater o uso da IA generativa como um “substituto” do processo artístico humano.

Estúdios de Hollywood e empresas de IAs tentam burlar direitos autorais e de imagem

Para além desse debate, as IAs também inauguraram uma nova crise no entretenimento do ponto de vista legal: a infração de direitos autorais e de imagem. Inclusive, esse foi um dos principais impasses que estendeu a greve dos atores em 2023. O SAG-AFTRA, sindicato que representa mais de 170 mil artistas do audiovisual, exigiu que produtoras obtivessem consentimento dos atores para criar réplicas digitais, sejam elas IAs ou CGI, enquanto os estúdios resistiram.

Na época, essa tecnologia ainda era emergente, mas, a realidade atual já é outra e mexe com as estruturas de Hollywood. Em 2025, a OpenAI e o Google recorreram ao governo dos EUA com um “plano de ação para o avanço da IA”. Entre os pontos apoiados, estava a flexibilização das leis de direitos autorais e de imagem.

O motivo? as empresas alegavam que usar materiais protegidos por direitos autorais, como filmes, músicas e séries, impulsionaria o treinamento da IA generativa. Isso, é claro, criando brechas nas leis para que sequer precisassem da autorização dos detentores dos direitos. O caso provocou uma reação no entretenimento, com uma carta aberta assinada por mais de 420 artistas, entre eles nomes como Mark Ruffalo, Paul Simon e Aubrey Plaza, pressionando o governo.

Nas últimas semanas, uma nova crise foi exposta, dessa vez envolvendo o trabalho de dublagem em animações. Uma carta assinada por mais de mil atores, agentes e pais/responsáveis dos EUA e Reino Unido expôs publicamente que um grande estúdio de Hollywood vinha utilizando cláusulas contratuais para obrigar crianças a cederem suas vozes para IAs generativas.

Embora a carta aberta não tenha nomeado o estúdio em questão, uma investigação do Deadline revelou que a Hasbro adotou essa prática com “Peppa Pig“. A empresa passou a apresentar essas cláusulas como uma condição determinante para a assinatura dos contratos de atores mirins. Com um detalhe: a Hasbro poderia utilizar as vozes até mesmo após o fim do vínculo. Ou seja, ou os pais/responsáveis concordavam em ceder a voz das crianças para IA para sempre, ou nada feito.

Imagem de capa: Reprodução/IMDb

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