E se uma história conseguisse prender a atenção, fazendo com que planos fossem esquecidos? Em 100 Noites de Desejo, dirigido por Julia Jackman, é exatamente isso que acontece. A trama lembra um pouco a história das mulheres de “O Conto da Aia”, mas sua semelhança maior acaba sendo com o enredo de “Mil e Uma Noites”.

Baseado na história da graphic novel de Isabel Greenberg, o longa nos apresenta um mundo em que as mulheres foram idealizadas para reproduzir e não possuir voz. Mas tudo muda quando uma jovem criada resolve contar uma história para a chefe e o hóspede inesperado.

O enredo

O longa começa sendo narrado em terceira pessoa, apresentando o universo da história e os personagens que o público vai conhecer ao longo da obra. O mundo foi criado por uma jovem chamada Kiddo (Safia Oakley-Green). No entanto, o pai dela, Birdman (Richard E. Grant) tomou o controle por achar a criação da filha entediante. Sendo assim, ele se torna a figura “endeusada” desse mundo. Esse é o primeiro sinal do mundo patriarcal em que vamos ser introduzidos ao longo dos 90 minutos de filme.

Depois do mundo da obra ser apresentado, somos introduzidos a Hero (Emma Corrin), personagem que será peça-chave para a trama. A criada de Cherry (Maika Monroe) é muito mais que uma funcionária, mas descobrimos que ambas são melhores amigas e confidentes. Hero se solidariza com os medos e inseguranças da patroa.

Cherry vive presa em um casamento não consumado com Jerome (Amir El-Masry), mas tudo muda quando a jovem é intimada a ter um filho. A protagonista se vê em um dilema: ou tem um herdeiro em 101 dias ou acabará morta por não cumprir seu papel como mulher. O roteiro deixa bem claro o destino das mulheres que não seguiram as ordens de Birdman: a morte. Enquanto isso, os homens saem impunes de seus atos.

Quando um amigo de Jerome aparece de surpresa na casa deles, o caos começa. Manfred (Nicholas Galitzine) faz uma proposta de seduzir a esposa do amigo, que aceita por estar convencido de que a mulher não cairá nos encantos do homem. Porém, Manfred deve cumprir a tarefa enquanto Jerome está viajando a trabalho. O diálogo deles deixa claro, mais uma vez, que os homens sempre saem impunes enquanto as mulheres sofrem as consequências.

Maika Monroe e Nicholas Galitzine em cena de "100 Noites de Desejo"
Maika Monroe e Nicholas Galitzine em cena de “100 Noites de Desejo”. Crédito: Paris Filmes

Uma história dentro de outra história

Para ajudar a amiga a não cair nos encantos do hóspede encantador, Hero faz um combinado com Cherry: sempre que ela se sentir nervosa, pode pedir uma história. E é assim que, dia após dia, a criada envolve Manfred e Cherry na história de Rosa (Charli XCX) e suas irmãs, e ambos não percebem o tempo passar.

Conforme Hero vai adentrando a história das irmãs que sabiam ler e escrever, Cherry vai associando a história da mulher que foi morta por ser considerada uma bruxa. O roteiro vai deixando pistas que podem ser decifradas aos poucos, mas não demora para concluir que o intuito de Hero é justamente contar a versão real da história da mulher injustiçada.

A forma como Hero sempre deixa a história inacabada não deixa apenas Cherry e Manfred – e os guardas – curiosos, como também gera ansiedade no telespectador. Quem está do outro lado da tela fica curioso para descobrir o desfecho do romance de Rosa e o que acontece com ela e as irmãs quando o segredo delas é revelado.

Aos poucos, percebe-se que Cherry descobre que existe um mundo que vai além daquele que foi ensinada desde pequena. Conhecer a fundo a história de Rosa faz com que ela deseje mais para a sua própria vida.

Ritmo lento, mas enredo que envolve

O roteiro peca por se perder às vezes nos pequenos detalhes e deixar o ritmo mais lento. Mesmo com os minutos finais mais eletrizantes, fica um ar de “poderia ter sido mais”. Desde o princípio, podemos perceber que a conexão de Hero e Cherry é intensa, mas a sensação é que a história de Rosa rouba a cena e o envolvimento amoroso das protagonistas fica em segundo plano. Quando elas assumem o que sentem, o filme já está para acabar.

Apesar de estar ali com as intenções erradas, Manfred consegue agregar muito à história. Ele fica tão envolvido com a história contada por Hero, que acaba tendo sonhos e perde a noção do tempo. O personagem tem um bom desenvolvimento durante a trama, mas o roteiro peca no desfecho dele.

No geral, o filme surpreende ao envolver o telespectador. Mesmo que tenha alguns pontos que atrapalhem a narrativa, como excesso de explicação e falta de aprofundamento em alguns temas, o longa ganha no visual. A estética escolhida acaba sendo o ponto alto da produção.

Rosa (Charli XCX) e suas irmãs em cena de "100 Noites de Desejo".
Rosa (Charli XCX) e suas irmãs em cena de “100 Noites de Desejo”. Crédito: Paris Filmes

Vale a pena assistir a “100 Noites de Desejo”?

Sim! O filme é uma crítica social ao patriarcado e deixa um recado: as histórias têm o poder de transformar o mundo. Não é à toa que o filme termina contando a história da criação de um grupo de mulheres que contam histórias para que elas não sejam esquecidas com o tempo. Pode começar com a história de Rosa e sua trágica morte, mas o legado continua com a história de Cherry e Hero.

Apesar de ter um ritmo mais lento em grande parte, o final fica mais movimentado e faz com que o telespectador deseje descobrir qual será o destino do romance “proibido” de Cherry e Hero. O elenco faz um belo trabalho de atuação, e o que chama mais atenção na obra são os figurinos e os cenários exagerados, bem fantasiosos.

O longa “100 Noites de Desejo” estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 04 de junho.

Ficha Técnica

100 Noites de Desejo
EUA, 2026, 90 min.
Direção: Julia Jackman
Roteiro: Isabel Greenberg e Julia Jackman
Elenco: Emma Corrin, Nicholas Galitzine, Maika Monroe, Amir El-Masry e Charli XCX
Produção: Stephanie Aspin
Direção fotográfica: Xenia Patricia 
Classificação: 14 anos
Distribuição brasileira: Paris Filmes

Imagem de capa: Paris Filmes

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