Um relato intenso e sensível sobre o psicológico de uma mulher. O filme As Correntes, da diretora Milagros Mumenthaler, estreia nos cinemas brasileiros, com distribuição da Filmes do Estação. A produção cinematográfica teve passagem pelo Festival do Rio, onde foi exibida na mostra Première Latina e venceu o Prêmio do Público.
A trama foca na vida de uma estilista bem-sucedida, que volta de uma viagem internacional com um segredo. Um segredo que se transforma em uma fobia e que leva a vida dela ao limite.
Um trauma, um segredo
Nos primeiros instantes do longa, somos apresentados a Lina (Isabel Aimé Gonzalez-Sola). A estilista está em uma viagem para receber um prêmio na Suíça, mas acaba largando tudo ao ter uma crise de ansiedade e se jogar no rio. Ela anda desnorteada pela cidade, como se sentisse que algo estivesse errado, até chegar ao limite e pular da ponte.
Quando retorna à casa, todos à sua volta percebem que ela está mudada. Porém, Lina esconde o que vivenciou durante a viagem e tenta lidar, silenciosamente, com os traumas que carrega desde então. Uma fobia por água começa a afetar a vida da protagonista, que tenta encontrar formas de sobreviver em meio ao medo do que experienciou.
O roteiro pode conter alguns furos, mas acerta em mostrar a dificuldade que a mulher tem em se abrir com as pessoas que estão tentando compreender as mudanças dela. Não há julgamento, apenas preocupação. A sensação de todos que a conheciam é de que ela não retornou da viagem. É uma pessoa completamente diferente.
Seja na relação com o marido, com a filha ou qualquer outro personagem, o telespectador consegue compreender o que se passa na cabeça de Lina. E isso apenas com o que os atores entregam em cena, às vezes sem a presença de um diálogo.

Não há necessidade de explicar com diálogo
Os primeiros minutos são compostos apenas com as cenas visuais e os sons ambientes. Nada de trilha sonora ou diálogos. Boa parte do filme passa da mesma forma, com planos mais detalhados e sons que transmitem muito mais do que palavras sendo ditas em voz alta poderiam.
A direção tem uma sensibilidade emocional para expor na tela a visão de uma mulher que está à beira do limite. Isso pode ser compreendido logo no início, quando Lina retorna à casa e não conta nada para ninguém. Quando ela fica andando de um lado para o outro enquanto a filha a chama para ajudar no banho, a ansiedade retorna. Só temos a certeza de que o que aconteceu no rio afetou sua mente quando ela confessa à amiga de infância o que está acontecendo.
O filme opta por mexer com o emocional do telespectador sem dar muitas explicações diretas, com textos sendo apresentados. A história foi escrita para ser transmitida na atuação dos atores e nos sons que preenchem o vazio.
Vale a pena assistir a “As Correntes”?
Sim! É um filme que mostra a realidade de uma pessoa sobrecarregada, deixando claro o esgotamento emocional a partir de sons e sensações. O roteiro acerta com diálogos que acrescentam à história, sem ser repetitivo. O telespectador tem que assistir ao filme preparado para entender o contexto a partir da atuação e do contexto da cena.
A fotografia é muito bonita e em tons frios, o que ajuda a embarcar na mente conturbada da protagonista. Ela não está vivendo um momento alegre, mas, sim, uma fase de questionamentos sobre a própria vida.
O longa “As Correntes” já está disponível nos cinemas brasileiros.
Ficha Técnica
As Correntes
Suíça, Argentina, 2025, 104 min.
Direção: Milagros Mumenthaler
Roteiro: Milagros Mumenthaler
Elenco: Isabel Aimé Gonzalez-Sola, Esteban Bigliardi, Claudia Sánchez, Ernestina Gatti e Jazmín Carballo
Produção: Alina Film e Ruda Cine
Direção fotográfica: Gabriel Sandru
Classificação: 16 anos
Distribuição brasileira: Filmes do Estação

Imagem de capa: Divulgação/Filmes do Estação
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