Entre a burocracia da morte e o vazio de uma existência sem fim, filme brasileiro aposta em uma ficção científica filosófica, visualmente interessante e nem sempre tão envolvente quanto sua premissa promete
E se viver para sempre deixasse de ser um sonho e se transformasse em uma condenação? Essa é a provocação central de “Cartório das Almas”, filme brasileiro escrito e dirigido por Leo Bello, que transforma a imortalidade em ponto de partida para discutir solidão, liberdade e o sentido da vida.
A história acompanha Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos que consegue um emprego em um cartório responsável por registrar as justificativas daqueles que decidiram abrir mão da vida eterna. Sua função é ouvir essas pessoas e formalizar suas decisões, sem tentar convencê-las a permanecer vivas. A ironia é que Laura, apesar de conviver diariamente com pessoas que desejam morrer, está presa a um contrato que a impede de fazer a mesma escolha.
A premissa é excelente e abre espaço para questionamentos sobre o valor da existência quando o tempo deixa de ser limitado. Afinal, se não existe mais a urgência de aproveitar a vida antes que ela termine, o que acontece com nossos objetivos, afetos e desejos?
A burocracia da morte e o peso da eternidade

Transformar uma repartição burocrática no centro de uma discussão existencial é o maior acerto do filme. A morte, normalmente retratada como tragédia ou ameaça, passa a integrar uma rotina administrativa. Existe algo de absurdo nessa ideia, mas também uma familiaridade desconfortável, já que até mesmo o fim da vida precisa seguir procedimentos.
Leo Bello não aposta em uma ficção científica convencional, repleta de efeitos especiais ou grandes explicações sobre o funcionamento desse universo. Sua abordagem é contemplativa, privilegiando os silêncios, os encontros entre personagens e a sensação de vazio que acompanha uma existência sem prazo para terminar.
Essa escolha funciona especialmente quando o filme permite que as histórias dos clientes revelem diferentes maneiras de enxergar a vida. O problema é que nem todos esses encontros possuem a mesma força dramática. Em alguns momentos, a narrativa parece mais interessada em reafirmar sua ideia central do que em explorar novas possibilidades para ela.
Uma boa premissa não garante, sozinha, uma história igualmente consistente. E “Cartório das Almas” por vezes parece confiar demais na força de seu conceito, deixando questões importantes sem o desenvolvimento que mereciam.
Uma ficção científica com identidade brasileira
Visualmente, o longa encontra personalidade ao aproveitar a arquitetura modernista de Brasília e as paisagens do Cerrado. Os espaços amplos e a sensação de isolamento ajudam a construir um universo que parece suspenso entre o presente e um futuro indefinido.
A direção de arte e a fotografia contribuem para essa atmosfera melancólica, enquanto o desenho de som reforça o silêncio e a distância emocional entre os personagens. São escolhas que demonstram como o cinema brasileiro pode construir mundos interessantes sem precisar competir com os grandes estúdios em orçamento ou espetáculo visual.
Gabriela Correa também sustenta bem a proposta ao interpretar Laura com uma atuação contida, marcada pelo desgaste de alguém que parece ter perdido a capacidade de imaginar um futuro diferente. A personagem não precisa verbalizar constantemente sua angústia: ela está presente nos gestos, nos olhares e na maneira como enfrenta a própria rotina.
Entretanto, a lentidão que inicialmente contribui para a atmosfera acaba prejudicando o ritmo em determinados momentos. O silêncio pode ser uma ferramenta poderosa, mas precisa produzir significado. Quando as situações se repetem sem acrescentar novas camadas aos conflitos, a contemplação corre o risco de se transformar em monotonia.

Vale a pena assistir “Cartório das Almas”?
“Cartório das Almas” é uma produção que merece atenção por apostar em uma ficção científica brasileira autoral, interessada menos em apresentar respostas do que em provocar questionamentos. Sua proposta é original, e a construção visual demonstra cuidado em criar uma identidade própria.
Por outro lado, o roteiro poderia aprofundar melhor as implicações sociais da imortalidade e desenvolver alguns conflitos com mais consistência. A narrativa tem boas ideias, mas nem sempre consegue extrair delas todo o potencial dramático.
Isso não significa que o filme não é interessante. Pelo contrário, sua maior qualidade está em transformar uma fantasia aparentemente desejável em uma reflexão desconfortável sobre a existência. O problema é que, em certos momentos, a obra parece caminhar em círculos quando poderia avançar para discussões ainda mais provocadoras.
No fim,“Cartório das Almas” deixa uma pergunta que continua ecoando depois da sessão: se a morte deixasse de ser inevitável, o que ainda daria sentido à vida?
“Cartório das Almas” estréia dia 29 de outubro nos cinemas.
Crédito da capa: Divulgação Pandora Filmes
FICHA TÉCNICA
Título: Cartório das Almas
Direção: Leo Bello
Roteiro: Leo Bello
Elenco: Wellington Abreu, Gabriela Correa, Gabrielle Lopes
Gênero: Fantasia / Ficção Científica
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 1h 17min
Distribuição: Pandora Filmes
Estreia nos cinemas: 29 de outubro de 2026

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