Estamos tão acostumados a narrativas cada vez mais simples que assistir a uma adaptação de Odisseia, um dos textos mais importantes da literatura ocidental, construída nessa escala, se torna uma experiência rara. Christopher Nolan não tenta facilitar a jornada de Homero nem transformar seu poema em um blockbuster convencional. Pelo contrário. Ele abraça a grandiosidade da obra original e utiliza tudo o que o cinema tem à disposição para transportar o público para esse universo.

É impossível sair da sessão sem pensar em uma palavra: grandiosidade.

Não apenas pela dimensão da produção ou pelo elenco repleto de estrelas, mas porque tudo parece trabalhar em favor dessa sensação. A fotografia, filmada integralmente em IMAX, impressiona pela escala. O desenho de som, a trilha sonora e a sonoplastia criam uma imersão constante. Os cenários, figurinos e maquiagem ajudam a reconstruir um mundo que parece vivo. Nada ali existe apenas para ser bonito. Cada escolha reforça a ideia de que estamos acompanhando uma jornada épica.

Assistir ao filme em uma sala IMAX faz diferença, mas o mais importante é assisti,lo no cinema. A Odisseia pertence à tela grande, ainda que não seja Imax. É um daqueles casos em que imagem e som deixam de ser apenas recursos técnicos para fazer parte da própria narrativa. Em nenhum momento consegui me desligar do que estava acontecendo. A sensação é de participar daquela viagem ao lado de Odisseu.

A história acompanha justamente sua tentativa de voltar para casa depois da Guerra de Troia. Pelo caminho, ele enfrenta monstros, reis, deuses, tempestades, ilhas desconhecidas e, principalmente, as consequências das próprias escolhas. Ao mesmo tempo, Telêmaco parte em busca de notícias do pai enquanto Penélope resiste à pressão daqueles que acreditam que o rei jamais retornará.

Mesmo passando por tantos lugares, personagens e acontecimentos, Nolan conduz a narrativa com uma clareza admirável. Nunca tive a sensação de estar perdido. Cada etapa possui um peso próprio e ajuda a construir essa longa caminhada de volta para Ítaca. É justamente por isso que as três horas de duração praticamente desaparecem. A narrativa é intensa, apresenta diferentes camadas e mantém a curiosidade do começo ao fim. Em nenhum momento senti que o filme era longo demais.

Essa força também está nas atuações.

Matt Damon entrega, na minha percepção, um dos melhores trabalhos de sua carreira. Seu Odisseu carrega o peso da guerra, da culpa e da esperança de voltar para casa com uma intensidade impressionante. É uma interpretação que sustenta toda a dimensão emocional da história.

Tom Holland também me surpreendeu bastante como Telêmaco. Talvez seja seu trabalho mais consistente até hoje. Minha única ressalva não está na atuação, mas na adaptação. No poema de Homero, a viagem do personagem representa seu amadurecimento como futuro rei de Ítaca. No filme, essa jornada acaba sendo bastante reduzida. Funciona para a narrativa de Nolan, mas perde parte da força presente na obra original.

Anne Hathaway constrói uma Penélope marcada pela resistência. Ela convence tanto nos momentos de firmeza quanto nos de fragilidade. Robert Pattinson confirma a excelente fase dramática que vive nos últimos anos, enquanto John Leguizamo acaba sendo uma das maiores surpresas do elenco. Seu Eumeu transmite uma lealdade tão sincera que rapidamente se torna um dos personagens mais marcantes da história.

Charlize Theron funciona bem como Calipso, embora sua participação seja menor do que eu imaginava. Rimesh Patel entrega um Euríloco bastante convincente e é um dos personagens que mais gostei. Apesar de toda a polêmica (desnecessária, diga-se de passagem) Lupita Nyong’o aproveita bem o pouco tempo que recebe como Helena de Troia. Outra atriz que achei que teria mais tempo de tela era Zendaya, que interpreta Athena, a deusa que tem um papel importante na epopeia e aqui parece servir somente como uma consultora fantasma.

Anne Hathaway interpreta Penélope e Tom Holland interpreta Telêmaco
Foto: Universal Pictures

Nolan ensina como usar um elenco de estrelas sem privilégios

Mas talvez o maior mérito do roteiro esteja justamente na forma como administra esse elenco gigantesco. Em nenhum momento Nolan parece preocupado em criar grandes cenas apenas porque determinado personagem é interpretado por um astro de Hollywood. Cada um ocupa exatamente o espaço que a história precisa. Todos existem para fortalecer a jornada de Odisseu, e essa escolha faz muita diferença para o resultado.

As cenas de ação acompanham esse mesmo cuidado. A invasão de Troia, as batalhas em alto,mar, a passagem pelo submundo e os confrontos espalhados pelas diferentes ilhas impressionam pela construção visual. Se existe um uso intenso de computação gráfica, ele praticamente desaparece. Tudo transmite uma sensação de realidade. As coreografias são bem executadas, os cenários são enormes e existe um peso físico que faz cada batalha parecer importante. Não é ação pela ação. Cada confronto ajuda a contar a história.

As discussões que antecederam a estreia sobre parte do elenco acabam perdendo importância diante do resultado. As escolhas de escalação não comprometem a narrativa nem alteram a essência dos personagens, permitindo que o filme seja avaliado pelo que realmente entrega em cena.

Quando falamos da adaptação, acredito que exista um ponto importante. Não faz sentido avaliar Odisseia apenas pelo grau de fidelidade ao poema de Homero. Uma obra dessa dimensão inevitavelmente precisaria condensar acontecimentos e reinterpretar personagens. O mais interessante é entender se a visão de Christopher Nolan funciona como cinema. Troia, de 2004, não foi totalmente fiel A Ilíada, e funcionou bem também.

Robert Pattinson como Antínoo
Foto: Universal Pictures

Na maior parte do tempo, funciona muito bem.

A essência da obra permanece intacta e os principais acontecimentos continuam presentes. Ainda assim, algumas mudanças recaem justamente sobre momentos muito importantes da narrativa original. A principal delas, para mim, envolve Atena. No poema, a deusa desempenha um papel decisivo tanto na jornada de Telêmaco quanto no retorno de Odisseu. Aqui, sua participação é bem menor do que eu esperava, e isso acaba reduzindo parte da importância que ela possui na história.

Algo parecido acontece com Calipso e também com o episódio envolvendo Polifemo. As mudanças funcionam dentro da narrativa construída por Nolan, mas certamente serão debatidas por quem conhece profundamente a obra de Homero.

A única decisão que realmente me incomodou foi o desfecho. Nolan opta por simplificar o encerramento da história e altera justamente um dos momentos mais simbólicos do poema. O final funciona para o filme que ele escolheu fazer, mas perde parte da força que a conclusão original possui.

Ainda assim, essas observações estão longe de diminuir o resultado. Christopher Nolan preserva aquilo que realmente importa em Odisseia enquanto utiliza o cinema em sua forma mais completa. É um filme que impressiona pela escala, pela ambição e pela confiança de que o público ainda está disposto a embarcar em uma narrativa complexa.

Talvez seja cedo para dizer qual será o lugar de Odisseia na história do cinema. Mas uma coisa me parece clara. Mais do que adaptar um clássico da literatura, Christopher Nolan entrega uma experiência cinematográfica que merece ser vivida no cinema. Vale o ingresso, vale as três horas de duração e, principalmente, vale a oportunidade de dizer, daqui a alguns anos, que você assistiu a essa jornada na maior tela possível.

Foto de capa: Universal Pictures

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