Drama dirigido por José Eduardo Belmonte acompanha a ascensão de um jovem pastor na periferia do Rio dos anos 1980 e os segredos que marcam sua trajetória

Justino – Nos Bastidores do Reino de José Eduardo Belmonte chegou ao Festival do Rio. O filme é uma adaptação do livro ‘Nos bastidores do reino: a vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus’ de Mário Justino que conta a experiência do ex-pastor dentro de um dos maiores grupos religiosos do Brasil. Com distribuição da Imovision, o filme ainda não tem data de estreia prevista, mas assistimos ao filme no Reserva Cultural Niterói, nesta sexta-feira (09/10), durante uma sessão do festival.

A história de Justino nos leva a uma viagem de volta aos anos 80, quando o movimento neopentecostal surge em meio a um período de pânico e incertezas que o país vivia como uma alternativa. O cenário era um Brasil pós ditadura militar, com uma hiperinflação, alto índice de desemprego e uma epidemia de HIV/AIDS, todos buscavam alguma ajuda ou salvação.

Diferente do livro, o filme precisou adaptar certos nomes e informações, mas mesmo sem ter contato com o livro o público irá reconhecer facilmente de quem se trata. Afinal, o grupo ainda domina milhares de igrejas no Brasil e no mundo.

A importância de revisitar o passado

A chegada deste filme no contexto atual é extremamente preciso visto o ecossistema da política brasileira. Justino (Christian Malheiros) é um jovem negro, morador da periferia de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. O filme nos apresenta ao bairro Boa Vista, uma região bastante carente da cidade, principalmente, naquela época. O rapaz vivia escassez com a família e tinha uma relação muito distante do pai.

Como muitos jovens, ele sonha em sair daquela situação e mudar de vida. Sendo assim, o protagonista luta para conseguir uma bolsa de estudos em uma escola de referência na tentativa de prosperar e encontrar o acolhimento que não tinha em casa. Justino foi um jovem com muitas questões internas e não tinha com quem dividir suas angústias. É essa lacuna que a religião acaba preenchendo.

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Crédito: Divulgação / Imovision / Festival do Rio

Justino relata que é na igreja que se sente acolhido pela primeira vez. Ali sua cor e sua origem não eram um problema, então ele achava que finalmente estava no caminho certo. Então, ele abandona tudo para seguir os planos que Deus tinha reservado para ele. Mais do que se entregar para a religiosidade, ele vendeu sua alma para aquela instituição.

A hipocrisia como personagem

Em ‘Justino – Nos Bastidores do Reino’, a hipocrisia é um dos personagens centrais, muitas vezes expressada pelo Bispo Azevedo (Caio Blat) – o líder daquilo que se tornaria um império religioso. A principal ferramenta desta liderança vinha da boa lábia e da venda da teoria da prosperidade. Isto é, bastava o fiel fazer tudo o que ele mandasse que este iria conquistar tudo o queria. Justino era só mais uma ovelha naquele rebanho, mas Azevedo mantinha o jovem por perto lhe dando algum destaque dentro de filiais.

O personagem de Christian Malheiros também acaba embarcando na teoria. Ele relata com riqueza de detalhes os esquemas que a igreja mantinha para manter o fluxo de caixa ativo. Ainda que boa parte da população estivesse desempregada, o bispo não permitia que os fiéis deixassem de contribuir e isso gerava uma campanha de pressão em cima de obreiros, como Justino. Imatura e com pouca instrução, ele achava que havia recebido uma missão divina através do líder espiritual e fazia de tudo para agradá-lo.

O protagonista passa anos da usa vida escondendo seus valores e desejos para caber dentro daquele grupo. Ele acredita que aquela era a única maneira de ascender socialmente, mas são enxergava o preço. Até seu casamento com uma fiel havia sido arranjado pelos pastores, depois de acabar se envolvendo com outro obreiro da congregação. Tudo era justificado como um deslize, uma articulação do diabo. Dessa forma, Justino acaba vivendo cada vez mais infeliz e entrando em uma cilada após a outra.

Valer a pena assistir ‘Justino – Nos Bastidores do Reino‘?

Sim, vale a pena. ‘Justino – Nos Bastidores do Reino’ mostra a concepção da estrutura organizacional de uma das instituições religiosas mais tradicionais do Brasil, esta que é alvo de várias denúncias de crimes de abuso, exploração, lavagem de dinheiro, etc. Contudo, o longa não exime seu narrador de culpa, os erros de Justino ficam bastante evidentes a todo tempo. Aqui, não tem santo e nem herói, apenas um ser humano tentando sobreviver.

Justino é o típico brasileiro que mata um leão por dia pra sobreviver, porém aqui a fé cega (não a religiosidade) em outras pessoas o leva a fazer absurdos. Assim, quando ele se dá conta de que foi usado por tanto tempo e descartado com facilidade, a revolta o consome e ele decide rever o passado 15 anos depois. Havia dado tudo de si, mas acabou doente e morando na rua sem qualquer perspectiva de vida. Todavida, o mais importante disso tudo é que Justino sobreviveu para conta sua história.

José Eduardo Belmonte consegue recontar essa história de maneira brilhante, explorando com primor as duas horas de duração em que o público não vê o tempo passar. Somos mergulhados nesta história avassaladora. Justino – Nos Bastidores do Reino tem estreia prevista para 2027.

Imagem de capa: Divulgação / Imovision / Festival do Rio

Justino – Nos Bastidores do Reino
Brasil, 2026, Ficção, 120min

Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: José Eduardo Belmonte, Ewerton Belico, Sérgio Moriconi e Nilson Rodrigues
Produtora: Mercado Filmes
Produção: Nilson Rodrigues
Produção Executiva: Marília Garske, Marcela Bittencourt e Daniela Aun
Coprodutora: Geração Entretenimento
Fotografia: Leslie Montero
Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte
Direção de Arte: Dani Vilela
Figurino: Ananda Frazão
Edição de Som e Mixagem: Miriam Biderman
Desenho de Som: Miriam Biderman
Música: Flavia Tygel
Elenco: Antônio Pitanga, Caio Blat, Christian Malheiros, Larissa Nunes, Onna Silva
Distribuidora: Imovision

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