Para muita gente, Marsupilami faz parte da infância. O personagem criado por André Franquin em 1952 ganhou enorme popularidade entre crianças graças aos quadrinhos e, principalmente no Brasil, ao desenho exibido na TV Cultura e no SBT. É justamente essa memória afetiva que torna Marsupilami: Confusão a Bordo uma experiência curiosa e, ao mesmo tempo, frustrante.
A trama acompanha David (Philippe Lacheau), funcionário de um diretor de zoológico interpretado por Jean Reno, que recebe a missão de transportar ilegalmente um misterioso pacote da América do Sul até a Europa. Para disfarçar a operação, ele embarca em um cruzeiro ao lado do filho Léo (Corentin Guillot) e de sua ex-companheira Tess (Élodie Fontan), na tentativa de reconstruir a relação com a família. O que ele não imagina é que o pacote guarda um filhote de Marsupilami, cuja fuga transforma a viagem em uma sequência de perseguições e confusões.
Como comédia pastelão, o filme funciona surpreendentemente bem. Philippe Lacheau domina esse tipo de humor físico, exagerado e propositalmente bobo, algo que já havia demonstrado em produções como Super Quem?. Há momentos realmente engraçados, principalmente graças ao carisma de Jamel Debbouze, que retorna ao papel de Pablito após interpretá-lo em Na Trilha do Marsupilami (2012). O elenco parece confortável dentro dessa proposta, entregando um ritmo acelerado e situações absurdas que arrancam boas risadas.
O próprio Marsupilami também convence mais do que eu esperava. Embora alguns efeitos visuais revelem um acabamento limitado, alternando entre um visual que lembra um boneco animatrônico e um CGI mais convincente, o personagem continua simpático e consegue preservar boa parte do carisma que sempre o acompanhou.

O problema está no tom.
Apesar de ser vendido como uma aventura para toda a família, o filme aposta repetidamente em piadas de cunho sexual, insinuações, referências a drogas e humor adulto. Não se trata de pequenas brincadeiras escondidas para que apenas os pais percebam, como acontece em animações como Shrek. Aqui, as referências são muito mais explícitas. Há piadas envolvendo Viagra, insinuações sexuais e situações que destoam bastante da imagem tradicional do personagem.
Isso cria um conflito difícil de ignorar.
Se Marsupilami: Confusão a Bordo fosse apresentado simplesmente como uma comédia francesa voltada ao público adolescente e adulto, provavelmente minha avaliação seria bem mais positiva. O humor funciona dentro dessa proposta e, em vários momentos, é bastante eficiente. Mas quando a obra utiliza um personagem historicamente associado ao entretenimento infantil e ainda se vende como um filme para a família, essa escolha de linguagem passa a incomodar.
É claro que crianças pequenas talvez nem compreendam boa parte dessas piadas. Ainda assim, elas estão presentes e foram claramente escritas para o público adulto. Na minha percepção, existe uma diferença entre inserir referências discretas que passam despercebidas pelos menores e construir várias sequências apoiadas justamente nesse tipo de humor.
Também pesa o fato de que o restante da produção não vai muito além do básico. A direção aposta em uma estética simples, quase televisiva, os personagens humanos não são particularmente marcantes e o roteiro segue caminhos bastante previsíveis. O verdadeiro destaque continua sendo o Marsupilami, cuja relação com Léo acaba se tornando o principal elemento emocional da história.
Curiosamente, parte da crítica francesa classificou o longa como uma aventura inocente e descomplicada para toda a família. Confesso que tive dificuldade em enxergar o filme dessa maneira. Talvez seja uma questão cultural, talvez esse tipo de humor seja recebido de forma diferente na França. Ainda assim, para quem cresceu vendo Marsupilami como um personagem essencialmente infantil, a sensação é de que a adaptação escolheu um caminho bastante diferente daquele que tornou o personagem tão querido.
No fim das contas, saí dividido da sessão. Ri bastante e me diverti em diversos momentos. Como comédia adulta, o filme entrega exatamente o que promete. Mas como adaptação de um ícone da infância, acredito que ele perde a mão justamente por não compreender aquilo que sempre fez Marsupilami funcionar para tantas gerações.

Ficha Ténica
Marsupilami: Confusão a Bordo
Tempo: 1 hora e 39 minutos
Gênero: Aventura , Comédia , Família
Diretor: Philippe Lacheau |
Roteiro: Philippe Lacheau , Pierre Dudan (II)
Elenco: Philippe Lacheau , Jamel Debbouze e Élodie Fontan
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Foto de capa: Paris Filmes
