O documentário de Maya Annik Bedward revisita as origens do mito no Haiti e mostra como a figura ligada à escravidão e à espiritualidade se transformou em um dos maiores ícones do terror
Se você pensa em zumbis, provavelmente a primeira imagem que vem à cabeça é a de cadáveres ensanguentados caminhando pelas ruas em busca de cérebros. No entanto, essa criatura não começou como um monstro.
É essa história que o documentário “Black Zombie” pretende contar. Dirigido pela cineasta canadense Maya Annik Bedward, o longa investiga as origens do zumbi no Haiti. Além disso, ele mostra como uma figura ligada à escravidão, à espiritualidade e à resistência acabou transformada em um dos maiores símbolos do terror.
A produção estreou mundialmente no festival SXSW, em março de 2026, e chega aos cinemas dos Estados Unidos no dia 11 de setembro. No Brasil, ainda não existe previsão de estreia. Com 90 minutos de duração, “Black Zombie” mistura imagens de arquivo, entrevistas e cenas contemporâneas para reconstruir a trajetória dos mortos-vivos.
O zumbi antes dos filmes
A história do zumbi não começa com um cadáver procurando cérebros. Na verdade, o conceito tem raízes no Haiti e está relacionado ao imaginário formado entre populações africanas escravizadas e às tradições espirituais que deram origem ao Vodou haitiano.
Nesse contexto, a figura do zonbi (ou zombie, grafia crioula haitiana original para a criatura lendária associada ao vodu e ao folclore do Haiti) está associada à perda da vontade e da autonomia. A ideia ganhou um significado particularmente forte em uma sociedade marcada pela escravidão. Assim, tornar-se um zumbi significava, em diferentes interpretações, ser privado da própria liberdade e submetido à vontade de outra pessoa.
É essa relação que ajuda a explicar a proposta de “Black Zombie”. Segundo a distribuidora Kino Lorber, o documentário parte de uma figura “nascida da escravidão, da crença espiritual e da resistência” para mostrar como ela foi transformada em um monstro pela cultura popular.
Também é importante não confundir o Vodou haitiano com a representação estereotipada de “magia negra” comum em filmes mais antigos. A religião possui raízes africanas e se desenvolveu no Haiti em um contexto marcado pelo colonialismo e pela escravidão. Ao longo do tempo, produções estrangeiras ajudaram a reforçar uma imagem do Vodou como sinônimo de feitiçaria, maldade e práticas sobrenaturais. No entanto, essa visão que não corresponde à complexidade da religião nem às suas diferentes tradições e práticas.
Quando Hollywood criou seu próprio zumbi
Foi no cinema que o zumbi começou a ganhar a aparência que conhecemos atualmente. “White Zombie”, lançado em 1932 e estrelado por Bela Lugosi, é geralmente considerado o primeiro longa-metragem dedicado ao tema. Ambientado no Haiti, o filme apresenta pessoas transformadas em zumbis e submetidas ao controle de um mestre.
A produção ajudou a estabelecer uma associação entre zumbis, Haiti e práticas sobrenaturais que seria repetida durante décadas. No entanto, o problema é que essa representação também reproduzia estereótipos raciais e culturais sobre o país e sua população. Estudos sobre o filme destacam justamente a relação entre os zumbis escravizados apresentados na obra e o contexto histórico de exploração do Haiti.
Mas o zumbi ainda estava longe de ser o monstro que domina filmes e séries hoje.
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A revolução de George Romero

Uma das maiores mudanças aconteceu em 1968, com “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George A. Romero. A produção abandonou boa parte da estrutura do zumbi controlado por um feiticeiro e apresentou criaturas que retornavam à vida e atacavam os vivos.
A partir daí, o zumbi passou a funcionar também como metáfora para medos sociais. Em “O Despertar dos Mortos” (1978), por exemplo, Romero transforma um shopping center em cenário do apocalipse e usa o comportamento dos sobreviventes e dos próprios zumbis para fazer uma crítica à sociedade de consumo. Assim, ao longo das décadas, os mortos-vivos passaram a representar diferentes medos e questões sociais, aparecendo em histórias sobre epidemias, crises políticas e colapsos da sociedade.
Foi essa versão que abriu caminho para o imaginário contemporâneo: o apocalipse zumbi, as hordas de mortos-vivos e histórias como “The Walking Dead”, além de franquias de videogame como “Resident Evil”.
Por que assistir “Black Zombie”?
Mais do que explicar de onde vieram os monstros que aparecem nos filmes de terror, “Black Zombie” questiona o que aconteceu com a história por trás deles. Ao voltar para o Haiti e para as raízes espirituais do conceito, o documentário procura mostrar como uma figura associada à perda da liberdade foi retirada de seu contexto e transformada em um produto do horror.
Assim, para quem já está acostumado a ver zumbis correndo atrás de sobreviventes em filmes, séries e jogos, “Black Zombie” propõe uma pergunta diferente: e se a história mais assustadora dos mortos-vivos não for sobre eles voltarem dos mortos, mas sobre o que significa perder a própria liberdade enquanto ainda se está vivo?
Por enquanto, quem está no Brasil ainda precisa esperar para assistir a “Black Zombie” oficialmente. O documentário tem lançamento confirmado nos Estados Unidos, mas ainda não há informações oficiais sobre uma estreia nos cinemas brasileiros ou sobre a chegada do filme a alguma plataforma de streaming no país.
Créditos da capa: Black Zombie/Kino Lorber
Estagiária sob supervisão de Thiago Satiro.
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