Roma (2018) é um filme quase autobiográfico de Alfonso Cuarón, que traz sua infância na década de 1970 para o filme. O longa-metragem acompanha a rotina de Cleo (Yalitza Aparicio), empregada doméstica em uma casa de família na Cidade do México. Assim, a trama aborda as tensões da relação entre a protagonista e seus patrões, além dos dilemas de sua vida particular.

O uso do preto e branco na fotografia carrega uma sensação de nostalgia e um tanto de melancolia, reforçando o aspecto memorialista da obra. Aliás, além de utilizar suas lembranças como fonte de inspiração para o filme, Cuarón acumula funções em “Roma”, assinando a direção, roteiro, fotografia e montagem – sendo este último ao lado de Adam Gough. Portanto, “Roma” pode ser considerado o trabalho mais autoral e pessoal do cineasta.

Cleo está no núcleo familiar, mas não faz parte da família

Cleo (Yalitza Aparicio) e Pepe (Marco Graf) em cena de "Roma"
Cleo (Yalitza Aparicio) e Pepe (Marco Graf) em cena de “Roma”. Crédito: Reprodução/IMDb

A abertura do filme já nos revela um pouco da rotina de Cleo ao mostrar a empregada lavando o quintal, uma das inúmeras atividades que é responsável na casa em que trabalha. Além da limpeza da residência, a jovem cuida das crianças e do cachorro, lava as roupas e atende os telefonemas da família. Inclusive, durante o dia a dia, a protagonista acaba envolvida nos dramas familiares de seus empregadores, que constantemente descontam suas frustrações na funcionária.

A exaustão de Cleo com tantas demandas surge na cena em que deita-se cansada ao lado de uma das crianças, que está se fingindo de “morta”, e diz: “Olha só. Gostei de estar morta”. É quase automático traçar paralelos entre a trama mexicana e a realidade das empregadas brasileiras. Segundo uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e da Organização Internacional do Trabalho divulgada em 2025, 70% das trabalhadoras domésticas declaram sofrer de cansaço crônico.

Apesar de ser essencial para o bom funcionamento da casa e ter uma relação próxima e carinhosa com os filhos dos patrões, Cleo é constantemente relembrada da sua posição inferior na hierarquia do lugar. Até mesmo quando fazem gentilezas para a empregada, como levá-la ao hospital, os chefes fazem questão de enfatizar sua benevolência com ela.

Silêncio e serenidade como protagonistas

Cena de Cleo (Yalitza Aparicio) no filme "Roma"
Cena de Cleo (Yalitza Aparicio) no filme “Roma”. Crédito: Reprodução/IMDb

A atuação de Yalitza Aparicio é um dos maiores destaques de “Roma”. Embora Cleo seja silenciada por diversas vezes na trama, a atriz transmite de maneira brilhante tudo o que precisamos saber sobre os sentimentos da personagem através do olhar e de gestos simples.

Mesmo em meio ao caos, a protagonista se mantém serena e calada. Quando a jovem descobre que está grávida e é abandonada pelo seu parceiro, não temos nenhuma cena de explosão de emoções. Pelo contrário, vemos uma Cleo extremamente contida e forte durante a gravidez.

A sequência mais eletrizante e emocionante de “Roma” ocorre durante o trabalho de parto da moça. Durante uma manifestação estudantil que foge do controle e torna-se violenta, a bolsa de Cleo estoura. A audiência consegue sentir o medo da empregada, ainda que tudo ao redor seja mais alto que o seu choro. Aliás, ao chegar à maternidade, a doméstica continua sem ser ouvida. Os médicos atropelam sua reações, enchendo-a de perguntas e dando pouco tempo para que ela entenda sua situação.

Inclusive, a invisibilidade de Cleo dentro da família também chega ao seu ápice na cena. Ao fazer o cadastro da funcionária no hospital, a patroa não sabe nenhuma informação além do nome completo dela. Desta maneira, torna-se evidente a irrelevância que a empregada tem para a família que cuida com tanto zelo.

Vale a pena assistir o filme “Roma”?

“Roma” é um filme belíssimo, não somente pela estética impecável, mas também pela sua história. Alfonso Cuarón encontra um tesouro em meio ao cotidiano, dando protagonismo para quem sempre está à margem da sociedade. Assim, o diretor conduz, de maneira sutil, uma crítica social potente sobre desigualdade social através de um roteiro delicado.

Talvez para alguns, as cenas longas e com pouco diálogo podem não agradar muito, mas a trama surpreendente e o trabalho impecável do elenco compensam. Não à toa, o longa foi aclamado mundialmente e ganhou três Oscars: Melhor Filme Internacional, Melhor Fotografia e Melhor Diretor.

Por fim, “Roma” está disponível na Netflix.

Imagem de capa: Reprodução/IMDb

Redatora em experiência sob supervisão de Giovanna Affonso.

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