Entre os dias 1º e 11 de outubro, o Festival do Rio 2026 reeditou uma prática histórica ao destacar o espaço fundamental das adaptações literárias no cinema contemporâneo.  O evento reuniu mais de 350 títulos em sua 28° edição. Bem como a apresentação de produções de diversos países e gêneros, que se baseiam em obras literárias para explorar experiências pessoais, conflitos sociais e questões políticas.

Dos universos fantásticos aos romances, as adaptações das páginas para as telas seguem demonstrando sua capacidade de expandir leitores e espectadores. Embora o festival tenha terminado, os leitores agora têm uma lista de leituras para explorar sem pressa.

Os dados comprovam o que o público já demonstra

Esse novo entusiasmo pelas adaptações também pode ser notado através dos números no streaming. Em abril de 2026, a Netflix divulgou dados onde as adaptações de obras literárias alcançaram mais de 9 bilhões de visualizações no mundo todo no ano anterior. Isto é, quase 20% das horas assistidas na plataforma correspondem a esse nicho.

Além disso, o relatório também mostrou que as obras derivadas estiveram entre os títulos mais assistidos da plataforma durante as 13 primeiras semanas de 2026. Ainda que, esses sejam dados de um único serviço, eles nos ajudam a ter uma dimensão da força que este mercado possui. O Geekpop News reuniu algumas das adaptações que passaram pelo maior festival de cinema da América Latina.

‘Cem Dias Entre Céu e Mar’ de Amyr Klink

Uma das produções nacionais em destaque no festival foi ‘100 Dias’. Dirigida por Carlos Saldanha a baseada na obra de Amyr Klink, intitulada ‘Cem Dias entre Céu e Mar’. A autobiografia narra a travessia solitária e com apenas um barco a remo do autor pelo Atlântico Sul. 

Ambas as obras retratam a viagem realizada por Klink, em 1984, onde ele vivenciou perigos físicos e emocionais em sua experiência em alto-mar. Assim se tornando a primeira pessoa a atravessar sozinha o Atlântico Sul.

‘Quem Matou Narciso?’ de Guido Rodriguez Alcalá

Sendo outra produção que chamou atenção durante o festival, ‘Quem Matou Narciso?’, inspirado na obra literária de Guido Rodríguez Alcalá. O livro que é ambientado no Paraguai durante o período da Ditadura de Alfredo Stroessner, acompanha Narciso, um jovem que fica popular nas rádios ao apresentar o rock’n’roll dos Estados Unidos.

A obra mostra o contraste entre a imagem de liberdade que o protagonista representa e o ambiente conservador em que vive. No entanto, a narrativa de mistério começa a ser construída quando o radialista é encontrado morto. Com a história sendo conduzida a partir das circunstâncias em que o crime aconteceu. Tudo isso em meio ao medo da repressão política.  

‘O Cheiro das Maçãs’ de Mark Behr

‘O Cheiro das Maçãs’ é um romance de Mark Behr, que se passa na Africa do Sul de 1974, durante o Apartheid. O livro retrata a vida de um menino de 11 anos que foi criado em uma familia branca privilegiada. Sua adaptação tem a direção de John Trengove. 

Durante o periodo de férias de verão, ele vivência acontecimentos que acabam manchando a imagem que o garoto idealizou do pai. Tudo isso acaba resultando na exposição da violência, anteriormente disfarçada sob a normalidade do seu ambiente familiar. A narrativa acompanha o processo doloroso que o protagonista vivencia ao notar as contradições do mundo em que cresceu. 

Por que as adaptações continuam em alta?

As produções apresentadas no festival não só deixam em evidência a variedade de adaptações literárias, como também reafirmam que elas podem partir de premissas completamente distintas. Enquanto ‘100 Dias’ se baseia em uma experiência autobiográfica, ‘Quem Matou Narciso?’ e ‘O Cheiro das Maçãs’ carregam narrativas que abordam contextos históricos, caracterizados por repressão e violência.

Para a indústria do audiovisual, reproduzir um trabalho já publicado pode simbolizar partir de um projeto que já possui leitores e reconhecimento. Isso não confirma o sucesso automático de um filme, mas pode ajudar de forma significativa, contribuindo para incitar a curiosidade do público e criar a ligação entre o mercado literário e o cinema.

Apesar disso, a adaptação exige o desafio de transformar o texto em imagens e sons. Enquanto o livro cria o ambiente e descreve os sentimentos por meio de palavras, o trabalho audiovisual precisa recorrer a imagens, efeitos sonoros, atuações e construção de cenários. Durante esse processo algumas alterações na obra original podem acabar acontecendo, isso auxilia para que a narrativa apresentada funcione na linguagem cinematográfica.

O Festival do Rio 2026 conseguiu demonstrar que essa relação entre o cinema e o mundo literário não se limita a determinado gênero ou formato. Reunindo obras com diversas origens e temas, ele mostrou que ao invés de substituir os livros, as adaptações só amplificam as chances de que essas histórias encontrem outros públicos.