Desenvolvedor solo revela bastidores, desafios e a essência criativa por trás do arcade de corrida independente

Ghosts With Hats mostra sua essência em poucos segundos na pista. A energia caótica das corridas, o visual desenhado à mão e a proposta simples prendem logo na primeira volta. O jogo combina diversão rápida com estratégia e personalidade própria, surpreendendo ainda mais quando descobrimos que uma única pessoa desenvolveu tudo.

Em entrevista ao GeekPop News, Francisco Naves volta alguns anos para explicar como tudo começou. Um amigo insistiu para que ele estudasse programação, destacando o mercado aquecido na área. A ideia permaneceu na cabeça, mesmo acompanhada de dúvidas. Ainda assim, ele decidiu dar o primeiro passo.

“Eu preciso criar alguma coisa, gosto de ver na tela as coisas acontecendo. Então vou juntar isso com o que eu gosto, que são jogos e eu sempre tive vontade de fazer.”

Então, ele uniu a programação a outra paixão antiga, os jogos. O primeiro projeto nasceu ambicioso demais, pensado para ser grande e surpreendente. No entanto, ao perceber que não conseguiria sustentar algo tão complexo sozinho, começou a pensar em diminuir o peso.

“Se eu criasse algo muito gigante, sozinho, eu não ia conseguir terminar. Aí fui tentando resumir e dentro do projeto que estava criando, acabou que surgiu a possibilidade de transformar ele num joguinho de corrida, estilo Mario Kart”

Durante esse processo de simplificação, surgiu a ideia de transformar o projeto em um jogo de corrida arcade, inspirado por clássicos como Biker Mice From Mars (Ratos de Marte) e Rock n’ Roll Racing. A partir daí, Ghosts With Hats finalmente encontrou seu caminho.

Simplicidade que virou identidade

A escolha dos fantasmas não surgiu como conceito principal, mas como solução criativa. Francisco admite que desenhar nunca foi seu ponto forte. Antes dos fantasmas, ele testou outros estilos e temas, porém nada funcionava visualmente.

“Eu não sou uma pessoa muito boa para desenhar, então eles surgiram sem querer. O fantasma foi o que eu achei mais fácil, isso me ajudou a produzir, dando facilidade, porque eu não sou um artista de desenho.”

A forma simples dos fantasmas facilitou o processo, desenhando com mais rapidez, animava com menos dificuldade e avançava na produção sem travar na arte. Ainda assim, algo parecia faltar, foi quando ele adicionou chapéus para dar mais identidade aos personagens. A partir desse detalhe, passou a gostar do resultado e ganhou motivação para continuar.

Fantamas com chapéus ganham personalidade própria em Ghosts With Hats
Fantamas com chapéus ganham personalidade própria em Ghosts With Hats, com estilo visual desenhado à mão | Crédito: Pinatra Studios / Divulgação

Francisco cuidou de absolutamente tudo, desde a arte vetorial, programação, game design, animações, efeitos visuais, trilha sonora e efeitos sonoros. A música, inclusive, ocupa um lugar especial em sua rotina. Como músico por hobby, ele escuta música o tempo todo e transformou essa familiaridade em prazer durante o desenvolvimento

“As músicas foram uma coisa à qual eu me dediquei bastante. Eu sou músico, música é meu hobby. Então isso é uma coisa que tenho muita facilidade. Enquanto as pessoas que estão escutando podcast, eu estou escutando música.”

Mais do que criar cada elemento isoladamente, o desafio era fazer tudo conversar dentro do jogo. E, na visão dele, essa junção funcionou.

Caos com estratégia

Ghosts With Hats traz o caos, mas sem abrir mão da estratégia. No início do desenvolvimento, ideias exageradas surgiam com frequência.

“Ideias mirabolantes é o que mais aparece na nossa cabeça nesses momentos. Acabou que eu pensei assim, vou tentar simplificar, não criar muito caos na tela, mas também não posso deixar o negócio sem graça.”

Assim, ele precisou simplificar sem deixar o jogo sem graça, pensou a progressão de dificuldade para atender diferentes perfis de jogadores. O sistema vai até o nível 10 e o último exige precisão máxima.

“Na dificuldade 10, eu dei uma sacaneada, o pessoal tem que ter precisão mesmo, ter atenção e não pode cometer nenhum erro na corrida. Então, isso pode cair no gosto, um jogo rápido e frenético.

Por outro lado, quem prefere algo mais leve pode permanecer em níveis menores e aproveitar partidas rápidas e relaxantes. Desde o início, ele quis permitir que cada jogador encontrasse seu próprio nível de desafio.

Além disso, o balanceamento dos personagens levou anos de ajustes. Cada fantasma apresenta comportamento próprio, o que impediu soluções simples de “copiar e colar”. Ele testou incontáveis vezes até alcançar o ponto ideal.

Corridas intensas e cheias de estratégia
Corridas intensas e cheias de estratégia marcam a demo de Ghosts With Hats, que combina visual acolhedor com disputas caóticas a cada volta | Crédito: Pinatra Studios / Divulgação

Personalidade nos detalhes

Embora o jogo apresente uma história acessível, ele carrega camadas mais profundas. Francisco revela que buscou inspiração em comportamentos reais que observou ao longo da vida.

“Os personagens foram baseados em experiências diversas que eu tive na minha vida. Quando você sai de casa, vê pessoas, o comportamento, conversa. Então, fui inspirando em coisas sutis que as pessoas têm.”

Os fantasmas não representam pessoas específicas, mas refletem traços inspirados em amigos, familiares e experiências pessoais. Alguns são impacientes, outros tranquilos ou estressados. Dessa forma, o jogador pode se reconhecer, ou reconhecer alguém nesses detalhes.

O que esperar da versão final

A demo já representa fielmente a experiência final em gameplay e balanceamento. No entanto, a versão completa contará com 24 fases, enquanto a demonstração traz apenas as quatro primeiras.

Conforme o jogador avança, será necessário melhorar os personagens para enfrentar desafios mais difíceis. A progressão segue um modelo clássico: evoluir atributos, aumentar desempenho e desbloquear dificuldades maiores.

“O que eles vão encontrar na versão final não tem nada muito diferente. É continuar a história, continuar jogando, cada fase é muito diferente, o cenário das fases iniciais é de umas cores, de um jeito. As próximas fases são diferentes, tem mais desafios na corrida”

Ghosts With Hats pode ter nascido de uma necessidade de simplificar, mas se transformou em um projeto com identidade própria, equilíbrio entre caos e estratégia e uma assinatura autoral clara. E, pelo entusiasmo do criador, ainda há muita pista pela frente.

Confira a entrevista na íntegra

Imagem de capa: Pinatra Studios / Divulgação