Finalista do Prêmio Jabuti 2025, Tiago Feijó é o nosso entrevistado de hoje. Escritor atento às nuances do cotidiano e às tensões humanas que atravessam suas narrativas, ele constrói uma obra marcada pela sensibilidade, pela observação crítica e pelo cuidado com a linguagem, elementos que o colocaram em destaque no cenário literário contemporâneo.
Em Breve Inventário de Pequenas Solidões, Feijó constrói uma obra marcada pela introspecção e pela delicadeza narrativa, reunindo histórias que exploram diferentes formas de solidão e conexão humana. O livro evidencia um olhar atento para o cotidiano e para os conflitos íntimos, revelando personagens atravessados por pequenas rupturas, memórias e gestos sutis.
Para começarmos, conte um pouco sobre você e sobre a trajetória que te trouxe até aqui
Bom, a minha história com a literatura começa na adolescência, quando eu me apaixono pela leitura e pelos livros e resolvo escrever. Resolvo escrever alguma coisa, me dou conta de que posso escrever alguma coisa. E todo esse apego pela escrita e pela leitura na adolescência me levou a cursar Letras, a escolher o curso de Letras.
Então eu me formei em Letras Clássicas, em 2007, e passo a escrever, de fato, alguns projetos que tinha, com mais seriedade. Em 2010 e 2011, eu terminei meu primeiro livro. Em 2015 eu inicio a publicação a partir de um prêmio que ganhei em Fortaleza, no Ceará, o Prêmio Ideal clube de Literatura com o meu primeiro livro, o Insolitudes. E a partir daí começa a minha trajetória literária, de fato, do mercado literário, de publicações, até chegarmos a esse quarto livro, que é o Breve Inventário de Pequenas Solidões.
O que te motivou a escrever Breve Inventário de Pequenas Solidões? Houve algum ponto de partida emocional ou estético para a obra?
Na verdade, os livros de contos que escrevi não surgiram inicialmente como uma ideia de um livro de contos. Primeiro foram escritos contos avulsos, aleatoriamente. Só depois de ter um grupo grande de contos é que eu vou pensar na unidade de um livro de contos. Então, o Breve Inventário surgiu de uma leitura que fiz de um grupo de contos que eu tinha. E cheguei à conclusão de que todos eles falavam um pouco sobre esse tipo de solidão, esses vários tipos de solidão, essas muitas facetas da solidão.
Então me dei conta de que o livro versava sobre esse tema. E aí surge o Breve Inventário de Pequenas Solidões. Na verdade, o livro surge depois da escrita dos contos. Primeiro eu escrevo contos avulsos, de diversos temas e de diversas formas, com diversos tipos de narrador e espaço. E depois é que faço a leitura deles e os organizo dentro de um livro temático.
Seu livro aborda memória, perda e permanência de forma muito delicada. Como você encontra o equilíbrio entre o íntimo e o universal, permitindo que o leitor se reconheça nos contos?
Eu penso que os contos do Breve Inventário são contos bastante cotidianos, que lidam muito com o cotidiano das pessoas. Portanto, trazem essas marcas do cotidiano e da vida. São contos também interioranos, onde o espaço é interiorano, as pessoas são simples, pertencem, de uma certa forma, a um conjunto de um recorte popular. Então, acho que o reconhecimento é fácil, em termos de leitores. E aí, o que tenho que fazer é me aprofundar na psique desses personagens, no íntimo desses personagens, naquela luta interna deles com os seus problemas pessoais, que, de certa forma, estão imersos nessa temática da solidão.
O Prêmio Jabuti costuma ampliar diálogos sobre a literatura brasileira contemporânea. Você acredita que a indicação como finalista ajudou mais leitores a chegarem ao seu livro?
Sem dúvida alguma. Creio que o principal benefício de um prêmio como o Jabuti, a indicação na final de um prêmio como esse, é principalmente uma janela aberta para a obra. A maneira como a obra é divulgada, a exposição da obra, a atenção que é dada ao livro. O Jabuti coloca o livro em evidência e o torna um pouco mais prestigioso, na medida em que os leitores ficam mais curiosos sobre aquele livro, do porquê ele ter chegado até a final de um prêmio como esse.
Essa visibilidade trouxe alguma nova expectativa, responsabilidade ou reflexão sobre a sua escrita e sobre o lugar do livro no mundo?
Penso que a indicação ao prêmio Jabuti e a visibilidade que ele deu à obra trazem uma reflexão a respeito da minha escrita no sentido de ser uma espécie de aval, como se dissessem que estou no caminho certo. Não que um prêmio necessariamente seja o suficiente para isso ou seja determinante para isso.
O retorno dos leitores também é muito importante. Mas é consequentemente essa visibilidade do livro e o retorno dos muitos leitores que o alcançaram depois da indicação ao prêmio que me fazem também crer que a minha escrita está no caminho certo ou pelo menos é capaz de angariar um número grande de leitores e de conquistá-los. Então acho que principalmente é essa a grande mudança na indicação ao prêmio.
A solidão atravessa a coletânea, mas cada conto parece examiná-la por um ângulo distinto. Como você enxerga essa pluralidade de solidões dentro da obra?
A ideia é que, na leitura desses contos, eu percebi que cada um trazia consigo esse variado aspecto da solidão. Não é uma solidão única, ou, pelo menos, a forma como ela se expressa, a origem de onde ela emana. É perceptível que a solidão, nos seus muitos aspectos, atinge os personagens desses contos, desse conjunto de contos. Então, a ideia foi exatamente essa. O título do livro surge a partir da leitura desses contos, onde eu percebo que há ali uma variedade de solidão.
Por isso, o termo, no plural, solidões, que é um pouco raro de se ver. É uma palavra que geralmente é usada muito no singular. E eu a utilizo no plural exatamente para indicar essa variedade do conceito.
Entre os contos, você tem um favorito? O que te faz se conectar mais profundamente com ele?
Eu tenho alguns contos preferidos desse livro, mas se eu tiver que escolher um, certamente será o primeiro. O Destino de Beethoven é um conto que me agradou muito, principalmente pela simbologia que traz a história. E essa ideia do pássaro engaiolado e, posteriormente, liberto, e que, de certa forma, não traz a ele algum benefício concreto, vamos dizer assim, ou pelo menos um benefício palpável, guarda consigo uma simbologia profunda sobre essa coisa da solidão e a maneira de vivenciá-la, de experienciá-la.
E qual das solidões retratadas foi a mais difícil de transformar em narrativa? Por quê?
Eu acho que o último conto, Balada do Impossível Amor Através das Páginas, foi talvez o conto mais difícil, a ideia mais difícil de transformar em narrativa. Porque é um conto de meta escrita, é um conto que versa sobre a própria escrita, é um conto em que a personagem se apaixona pelo leitor, portanto, a ideia transformada em narrativa era de uma concepção um pouco difícil, ficava em uma fronteira muito complicada entre o que seria possível dizer, o que seria possível contar ao leitor e fazê-lo entender aquela proposta.
Acho que esse tipo de narrativa, que é um conto dentro de um conto, quer dizer, uma escrita dentro da escrita, é sempre um desafio para o escritor.
Como enxerga a continuidade ou transformação da sua escrita ao longo do tempo?
Eu tenho percebido que toda a minha escrita tem se transformado ao longo do tempo. E acho que todo escritor passa por isso. Na verdade, a escrita é sempre uma evolução. E penso que ela é sempre um estado daquele momento da nossa vida. Evidentemente, quanto mais se exercita a escrita e quanto mais se lê, mais ela ganha outros contornos. E outros vocabulários, outra maneira de contar as histórias, outra sintaxe.
Tudo isso é um processo que acho que a gente só vai percebendo conforme vai escrevendo. Mas, sem dúvida nenhuma, a escrita está em constante evolução no indivíduo.
O mercado editorial brasileiro passa por mudanças constantes. Como você, enquanto autor, percebe esse cenário hoje? Há desafios ou oportunidades que considera importantes destacar?
Eu vejo que o mercado editorial brasileiro contemporâneo se abriu em infinitas possibilidades para os autores. Há 10, 15 anos, era praticamente impossível essa quantidade de autores estreantes, de novos autores, a possibilidade de livros de autores independentes, a possibilidade da própria diversidade de autores no que diz respeito ao gênero, à sexualidade, à etnia, à cor, a credos, enfim.
Portanto, creio que o mercado brasileiro se ampliou demasiadamente, mas ainda há grandes desafios, como, por exemplo, da própria divulgação dos autores independentes, das pequenas editoras, a abertura para as grandes livrarias, para os grandes veículos de comunicação que falam sobre literatura, as revistas literárias, os jornais, tudo isso ainda é muito difícil para o autor estreante ou para o autor de pequena editora ou mesmo para o autor independente.
Para quem está começando a escrever agora, que conselho você gostaria de dar?
Eu acredito que o fundamental é escrever sempre. Escrever sem amarras, escrever sem uma autoexigência, uma autocrítica muito exacerbada. Escrever com fé na sua escrita. E escrever, escrever, escrever, escrever. Não tenho conselhos outros que não seja o exercício da própria escrita.
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Há algo que você gostaria de acrescentar ou compartilhar?
Quero agradecer imensamente o espaço, a possibilidade, o convite. É sempre bom falar de literatura, de livros e do nosso trabalho como escritor, do nosso trabalho com a escrita, com a palavra. É uma maneira também de refletir sobre a nossa própria prática. Então, quero agradecer imensamente e novamente o convite e o espaço. Muito obrigado.
Imagem de capa: Amazon
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