Seleção para o Festival de Cinema de Berlim reúne produções de diferentes países e aponta tendências do gênero no cinema contemporâneo

O Festival Internacional de Cinema de Berlim, que acontece entre 12 e 22 de fevereiro, confirmou a presença de seis filmes de terror em sua próxima edição. A curadoria inclui títulos que disputam espaço em diferentes mostras do evento. O gênero ganha visibilidade dentro de um festival tradicionalmente associado ao cinema de autor.

A seleção reflete o interesse crescente do circuito internacional por narrativas de terror. Os filmes abordam temas variados, com propostas estéticas e narrativas distintas. A presença dessas obras reforça o espaço do gênero em grandes festivais. O Festival de Cinema de Berlim funciona como vitrine para lançamentos e novos talentos.

Além disso, o evento costuma influenciar a circulação internacional dos filmes selecionados. A inclusão do terror na programação amplia o diálogo com diferentes públicos. A seguir, veja a lista com os seis filmes de terror que participarão do Festival de Berlim e integram a programação oficial do evento:

AnyMart

AnyMart participa do Festival Internacional de Cinema de Berlim 2026
Cena do filme | Crédito: 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim/Reprodução

O filme de estreia de Yusuke Iwasaki usa um supermercado como retrato simbólico da sociedade japonesa contemporânea. O espaço cotidiano se transforma em cenário de terror social, marcado por rotinas rígidas e comportamentos padronizados. Desde o início, a narrativa associa consumo, trabalho e alienação.

Ao longo da história, os funcionários exibem rostos inexpressivos e atitudes mecânicas. Além disso, a figura do supervisor impõe regras de cordialidade extrema, quase desumanas. Com isso, o longa constrói uma atmosfera opressiva, que aproxima o horror psicológico da crítica social.

Por outro lado, o jovem Sakai surge como ponto de ruptura. O personagem mantém a esperança e questiona o sistema ao seu redor. Assim, o filme contrapõe conformismo e resistência, encerrando a trama como uma reflexão sobre identidade, trabalho e controle social no Japão atual.

Die Blutgräfin (A Condessa Sangrenta)

"A Condessa Sangrenta" participa do Festival Internacional de Cinema de Berlim 2026
Isabelle Huppert no filme | Crédito: 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim/Reprodução

A nova obra de Ulrike Ottinger acompanha o despertar da Condessa Báthory (Isabelle Huppert) em Viena, após um longo sono dedicado à preservação da beleza. A partir daí, a narrativa mistura fantasia, terror e ironia. Em seguida, a condessa e sua criada iniciam a busca pelo elixir vermelho, elemento essencial para a sobrevivência dos vampiros.

Enquanto isso, diferentes forças entram em cena. Um livro capaz de expor e ameaçar o mundo dos vampiros passa a ser disputado. Ao mesmo tempo, a dupla é perseguida por um inspetor de polícia, dois vampirologistas e pelo sobrinho vegetariano da condessa, acompanhado de seu terapeuta. Assim, o filme constrói uma trama de perseguições cruzadas e interesses conflitantes.

Com isso, a história se desenvolve como uma jornada caótica e simbólica pela Europa contemporânea. Além do suspense, o longa propõe uma reflexão sobre tradição, identidade e transformação. Dessa forma, a estreia mundial reforça o diálogo entre o mito vampírico e questões culturais atuais.

Saccharine

Sacarina participa do Festival Internacional de Cinema de Berlim 2026
Saccharine | Crédito: 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim/Reprodução

Hana (Midori Francis) é uma estudante de medicina movida por inseguranças e sentimentos não correspondidos. Nesse contexto, ela decide aderir a uma tendência extrema de emagrecimento. A prática envolve a ingestão de cinzas humanas. A partir desse ponto, a rotina da personagem passa por uma mudança radical.

Em seguida, uma presença ameaçadora começa a se manifestar. Hana passa a ser perseguida pelo espírito da pessoa cujas cinzas consumiu. Com isso, o filme constrói uma relação direta entre o corpo, a culpa e o medo. Além disso, o terror se desenvolve de forma gradual, sempre ligado às consequências da escolha inicial da protagonista.

Ao mesmo tempo, a narrativa explora temas como pressão estética, obsessão e limites éticos. Dessa forma, o longa transforma uma prática absurda em ponto de partida para um horror psicológico. Assim, a estreia europeia apresenta uma história que conecta comportamento social contemporâneo e elementos sobrenaturais.

Sleep No More (Monster Pabrik Rambut)

"Sleep No More"
Cena do filme | Crédito: Reprodução/IMDB

Dois irmãos passam a trabalhar em uma fábrica de cabelos para quitar a dívida deixada pela mãe. Desde o início, o ambiente impõe jornadas exaustivas e regras rígidas. Aos poucos, eles percebem que o local funciona como um retrato extremo da exploração do trabalho humano.

Com o avanço da rotina, eventos estranhos começam a atingir os funcionários. Trabalhadores perdem o sono e seguem produzindo sem descanso. Nesse cenário, surge uma presença sombria que passa a ocupar os corpos daqueles levados ao limite físico e mental. Assim, o terror se manifesta como consequência direta da sobrecarga.

Ao mesmo tempo, o filme associa horror sobrenatural e crítica social. A narrativa relaciona produtividade excessiva, sacrifício pessoal e desumanização. Dessa forma, a estreia mundial transforma o espaço industrial em um palco de medo, refletindo tensões do mundo contemporâneo.

Ghost in the Cell (Fantasma na Cela)

"Fantasma na Cela"
O filme tem diversos momentos de um terror mais gore | Crédito: Reprodução/IMDB

A comédia de terror sobrenatural de Joko Anwar (“Os Escravos de Satanás”) se passa em uma prisão marcada por tensão constante. De repente, uma força invisível começa a matar detentos de forma brutal. Diante da ameaça, grupos rivais precisam agir juntos para sobreviver.

Com o avanço das mortes, o fantasma passa a transformar cadáveres em instalações de arte. A situação gera caos e reações extremas. Ao mesmo tempo, o tom de humor surge do contraste entre o absurdo das situações e o ambiente rígido do sistema prisional.

Além do horror, o filme incorpora crítica social. A narrativa aborda poder, corrupção e violência institucional. Assim, a estreia mundial combina terror, comédia e comentário político em uma história que explora limites humanos sob pressão.

The Valley Where LOAB lives

"The Valley where LOAB lives"
Cena do filme | Crédito: 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim/Reprodução

The Valley Where LOAB Lives” é um curta-metragem que investiga a relação entre terror e inteligência artificial. A obra parte de um fenômeno real da internet. Um “negative prompt” gera LOAB, uma entidade digital que existe entre falha técnica e figura fantasmagórica.

Ao longo do filme, LOAB conduz o espectador por seis eras marcantes do cinema de horror. A narrativa conecta referências que vão de Nosferatu a Corra!. Assim, o terror clássico dialoga com o medo contemporâneo ligado a algoritmos e sistemas automatizados.

Além disso, o filme propõe uma reflexão conceitual. Quem reconhece LOAB passa a integrar o próprio algoritmo. Por outro lado, a resistência gera consequências. Dessa forma, o projeto assume o formato de um ensaio audiovisual que discute controle, conhecimento e poder no ambiente digital.

Imagem de capa: Reprodução/IMDB