“A Casa de Dona Carlota Curta”, dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, estreia na Première Brasil e recupera a trajetória de uma mulher que abriu espaço para jogadoras nos anos 1940

O futebol feminino brasileiro ganha espaço na programação do Festival do Rio 2026 com a estreia de “A Casa de Dona Carlota“, curta-metragem dirigido e roteirizado por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer. Com 15 minutos de duração, o filme terá sua première mundial na mostra ‘Première Brasil – Competição de Curtas’, dentro da 28ª edição do festival.

A história é inspirada em fatos e acompanha Dona Carlota, mulher que esteve ligada à organização do futebol feminino no Rio de Janeiro durante a década de 1940. Na época, sua casa, localizada no bairro de Pilares, funcionava como ponto de encontro e sede do Primavera Athletico Club, equipe formada por mulheres que ganhou destaque no cenário esportivo carioca. 

Quem foi Dona Carlota? 

Carlota Alves de Resende, conhecida como Dona Carlota, teve um papel importante na organização de equipes femininas de futebol em um período em que a modalidade ainda enfrentava forte resistência social. Segundo registros históricos, ela ajudava a organizar clubes, ligas e campeonatos e mantinha em sua própria casa um espaço frequentado pelas jogadoras. 

O Primavera Athletico Club foi fundado em maio de 1940 e rapidamente ganhou destaque. A equipe chegou a disputar partidas em diferentes cidades e recebeu um convite do empresário argentino Alfonso Doce para realizar uma excursão pela Argentina, com jogos previstos em Buenos Aires, Rosário, Santa Fé e Mar del Plata.

A possibilidade de levar um time feminino brasileiro para jogar fora do país, porém, acabou aumentando a pressão sobre a equipe. Em janeiro de 1941, Dona Carlota foi presa após uma denúncia que a acusava de explorar as jogadoras. Ela negou as acusações e foi liberada depois de 48 horas, sem que fossem encontradas provas contra ela. 

O episódio aconteceu em um momento de crescente repressão ao futebol praticado por mulheres. Meses depois, em 1941, o governo brasileiro proibiu a prática de esportes considerados “incompatíveis” com a “natureza feminina”. A restrição ao futebol feminino permaneceu por décadas e só começou a ser revertida no final dos anos 1970.

Bruna Linzmeyer no curta “A Casa de Dona Carlota” (Créditos: Divulgação)

A casa que virou espaço de resistência

O curta parte justamente desse período para apresentar a casa de Dona Carlota como um espaço de resistência e funciona como sede do clube e como um raro espaço de liberdade em meio à ordem moral e política do Brasil. Para Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, recuperar a trajetória de Dona Carlota também significa olhar para uma parte da história do futebol feminino que ficou apagada por décadas.

A produção nasceu de pesquisas sobre as mulheres que desafiaram as limitações impostas ao esporte no período. “A Casa de Dona Carlota” apresenta a trajetória da personagem como símbolo de resistência e memória do futebol feminino. A produção da MyMama Entertainment, dirigida e roteirizada por Bruna Linzmeyer, reúne nomes como Ingrid Trigueiro, Sandra Sá e Luisa Mangini.

O curta estreia no Festival do Rio 2026, em 7 de outubro, às 21h45, na Estação Claro Gávea 4. A produção inicia seu circuito de festivais e resgata uma história pouco conhecida das mulheres no esporte brasileiro, às vésperas da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil.

Foto capa: Divulgação