Conheça a literatura da tradição banto que inspirou o reino fictício de Batanga

A novela das seis da TV Globo, “A Nobreza do Amor”, entra em sua semana final, prometendo emoções que conectam ancestralidade e aventura. De autoria do trio Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., a trama narrou a trajetória da princesa Alika (Duda Santos). 

Na ficção, após o golpe articulado pelo vilão Jendal (Lázaro Ramos) contra o Rei Cayman (Welket Bungué), Alika e sua mãe, a Rainha Niara (Érika Januza), fugiram do reino africano de Batanga. Refugiada na cidade de Barro Preto (RN) sob o nome de Lúcia, a protagonista teve de encarar uma realidade desigual e preconceituosa. Além disso, precisa contornar o risco constante de ser descoberta. Porém, Alika segue firme no objetivo de voltar para Batanga e libertar seu povo da opressão. Em meio a tantos desafios, ela encontrou no amor por Tonho (Ronald Sotto) mais um incentivo para reaver seu trono.

Na história, o reino de Batanga é fundamentado na ancestralidade e na cultura banto. A herança dos povos bantu (ou bantos) é um dos pilares mais importantes da formação da cultura e da sociedade brasileira. Entre 1580 e 1850, cerca de 75% das pessoas escravizadas trazidas para o Brasil eram de origem banta. Eram pessoas vindas principalmente da África Central e Austral (regiões dos atuais Angola, Congo e Moçambique).

Por isso, para quem deseja saber mais sobre o legado do universo que inspirou “A Nobreza do Amor” fizemos uma seleção especial. Conheça autores que investigam as raízes da ancestralidade banto e que também revelam como essa herança moldou a identidade brasileira.

Uanhenga Xitu e Óscar Bento Ribas: os pioneiros da resistência cultural em Angola

Imagem dos escritores angolanos Oscar Ríbas e Uanhenga Xitu
Óscar Ribas | Uanhenga Xitu | Créditos: Site Expansão e Site Bula

Guardiões da memória angolana, os contemporâneos Uanhenga Xitu (1924-2014) e Óscar Bento Ribas (1909-2004) transformaram a literatura em um ato de resistência e resgate. Os autores trazem em suas obras a estrutura lógica, os prefixos e as expressões do quimbundo, além de utilizarem os provérbios tradicionais bantu como a própria coluna vertebral moral e filosófica de seus textos. Desse modo, crenças, lendas e folclore ganham voz. Em “Mestre Tamoda” (1974), Xitu expõe as cicatrizes do colonialismo. Já no célebre “Tudo isto aconteceu: romance autobiográfico” (1975), com o qual Ribas imortalizou sua trajetória.

Mia Couto e a visão de mundo dos povos de Moçambique

Imagem do escritor Mia Couto.
Crédito: Companhia das Letras

Mia Couto é um dos autores mais traduzidos de Moçambique, conhecido por criar uma estética literária singular, em que o autor recria o português a partir do pensamento africano. Obras como “Terra Sonâmbula” (1992), “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra” (2003), entre outras, trazem as línguas bantu faladas em Moçambique (como o ronga e o macua). Isso se reflete tanto na criação de neologismos quanto na inversão de tempos verbais. Assim, o autor cria uma poética que traduz o “pensar em bantu” estruturado em português.

Lélia Gonzalez: presença bantu no nosso cotidiano

Crédito: Revista Cult | Cezar Loureiro

Antropóloga, escritora, professora e ativista, a brasileira Lélia Gonzalez (1935-1994) dedicou-se a mostrar como a herança banta se faz presente no cotidiano. Além de termos como samba, moleque, cafuné, dengo, quitanda e fubá, essa influência também é presente na musicalidade, na entonação e no sotaque da fala brasileira. No livro “Festas populares no Brasil” (1987), Lélia analisa como o Congado, as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário, o Maracatu e o Samba evidenciam a tradição banto.