Neste Halloween, os monstros continuam à espreita, mas o terror encontrou novas formas de provocar medo através de família, aparência, violência, isolamento e relações humanas…

Durante muito tempo, o terror construiu boa parte de sua identidade em torno de criaturas sobrenaturais, casas mal-assombradas, assassinos mascarados e ameaças escondidas na escuridão. Fantasmas, demônios e monstros alimentaram o imaginário de gerações de espectadores, criando algumas das figuras mais reconhecidas da história do cinema. Mas o gênero nunca se limitou a assustar. Por trás de seus sustos, sempre existiu uma maneira de falar sobre medos, angústias e tensões de cada época.

E, nos últimos anos, tivemos uma transformação interessante, já que o terror passou a encontrar algumas de suas histórias mais perturbadoras naquilo que parece familiar. O perigo não precisa mais surgir de um cemitério, de uma dimensão desconhecida ou até pela maldição de um demônio . Ele pode estar dentro de casa, em uma relação aparentemente saudável, na pressão para atender aos padrões de beleza ou até mesmo na incapacidade de reconhecer a pessoa que está diante de nós.

Neste Halloween, vale olhar para essa mudança e entender por que histórias tão próximas da realidade conseguem provocar um desconforto que muitas vezes permanece mesmo depois dos créditos.

Quando o cotidiano se transforma em pesadelo

O ator Daniel Kaluuya com os olhos arregalados, vermelhos e com lágrimas escorrendo, em uma cena marcante do filme que concorre ao título de melhor filme de terror.
A expressão de pavor em ‘Corra!’, considerado por muitos o melhor filme de terror da Universal Pictures. Crédito: Reprodução.

Uma das características mais interessantes do terror atual é sua capacidade de transformar situações comuns em experiências profundamente perturbadoras. O que começa como uma visita, um encontro ou uma reunião familiar pode rapidamente se transformar em um pesadelo. E o pior: muitas vezes, não existe uma explicação sobrenatural capaz de afastar completamente o medo.

Em “Corra!“, de Jordan Peele, o protagonista Chris visita a família de sua namorada e percebe que existe algo profundamente errado naquele ambiente. O filme utiliza o suspense e o horror para discutir racismo, apropriação cultural e a falsa cordialidade de uma sociedade que insiste em esconder suas contradições atrás de boas maneiras.

O que torna a experiência tão inquietante é o reconhecimento de situações que ultrapassam a ficção. Os sorrisos, os comentários aparentemente inocentes e a sensação de não pertencer àquele espaço constroem uma ameaça que não depende de um monstro tradicional. O horror nasce de uma realidade social que o espectador consegue identificar.

Outro exemplo é “Não Fale o Mal“. A história acompanha duas famílias que se aproximam durante uma viagem, mas o reencontro transforma-se gradualmente em uma experiência de desconforto e violência. O filme explora a dificuldade de estabelecer limites, o medo de parecer inconveniente e a tendência de ignorar sinais de perigo para preservar a educação e a convivência social.

É um terror que provoca uma pergunta incômoda: quantas vezes as pessoas deixam de reagir diante de uma situação ameaçadora simplesmente porque não querem criar um conflito?

O lugar onde deveríamos estar seguros também pode esconder monstros

Hereditário
A dor familiar pode abrir portas para um mal ancestral. Hereditário | Foto: Reprodução/IMDB

A casa sempre ocupou um lugar importante no cinema de terror. É o espaço da intimidade, da proteção e da convivência familiar. Por isso, quando esse ambiente se transforma em uma ameaça, o efeito costuma ser ainda mais perturbador.

Em “Hereditário“, de Ari Aster, o horror se desenvolve a partir de uma família marcada por perdas, ressentimentos e segredos. O filme começa com a morte da matriarca e acompanha a deterioração emocional dos personagens, enquanto acontecimentos cada vez mais perturbadores revelam que existe algo muito maior por trás daquela tragédia.

Embora a narrativa avance para o sobrenatural, seu impacto está profundamente ligado às relações familiares. O luto, a culpa, os conflitos entre pais e filhos e a dificuldade de escapar de uma história que parece ter sido determinada antes mesmo do nascimento formam a base de seu desconforto.

O filme entende que o horror não precisa começar com uma aparição assustadora. Às vezes, basta colocar uma família diante de seus próprios traumas e deixar que tudo desmorone.

Essa abordagem também mostra como o terror pode funcionar como uma ferramenta para discutir questões emocionais e sociais sem abandonar sua capacidade de provocar medo. O sobrenatural continua presente, mas deixa de ser o único responsável pelo pesadelo.

O corpo também pode ser uma fonte de horror

A Substância é o grande vencedor da categoria de Melhor Maquiagem e Penteado

Se existe um território que o terror contemporâneo tem explorado com intensidade, é o próprio corpo humano. O chamado body horror transforma mudanças físicas, deformações e processos biológicos em elementos de angústia. Mas, em produções recentes, essa abordagem também tem servido para discutir identidade, envelhecimento, padrões estéticos e a relação que construímos com nossa própria aparência.

“A Substância”, de Coralie Fargeat, é um dos exemplos mais marcantes dessa tendência. O filme acompanha Elisabeth Sparkle, uma celebridade que, diante da perda de espaço na indústria do entretenimento, decide recorrer a um procedimento misterioso que promete criar uma versão mais jovem e aperfeiçoada de si mesma.

O resultado é uma experiência visual extrema, que utiliza o grotesco e o absurdo para criticar a obsessão pela juventude e a cobrança estética imposta principalmente às mulheres. A transformação física se torna uma representação bastante literal da violência de uma sociedade que insiste em tratar o envelhecimento como uma falha.

O filme não tem receio de levar suas imagens ao limite. Sangue, deformações e situações grotescas fazem parte de uma narrativa que utiliza o choque para expor uma questão muito concreta: até onde alguém estaria disposto a ir para continuar sendo considerado desejável?

Nesse caso, o monstro não surge de uma maldição antiga. Ele nasce de uma cobrança social que já existe muito antes de qualquer elemento fantástico entrar em cena.

O medo de quem está ao nosso lado

Noites Brutais foto 3
Noites Brutais. Crédito: Reprodução

Outra característica recorrente do terror contemporâneo é a desconfiança em relação às pessoas. Histórias sobre desconhecidos, vizinhos, parceiros e até amigos mostram como a convivência pode esconder ameaças difíceis de identificar.

Em “Noites Brutais“, de Zach Cregger, uma mulher chega a uma casa alugada e descobre que outra pessoa já está hospedada no local. O encontro, que poderia parecer apenas um inconveniente, abre caminho para uma sequência de acontecimentos cada vez mais inesperados e violentos.

O filme brinca com as expectativas do público e transforma a sensação de vulnerabilidade em uma de suas principais ferramentas. A casa, que deveria oferecer abrigo, torna-se um espaço de perigo. E a ameaça não se apresenta necessariamente da maneira que imaginamos.

O resultado é um terror que trabalha com a imprevisibilidade e com o medo de não saber em quem confiar. Afinal, nem sempre aquilo que parece perigoso é a verdadeira ameaça e nem sempre conseguimos reconhecer o perigo antes que seja tarde demais.

O terror continua assustando porque continua falando sobre nós

É importante lembrar que essa transformação não significa que os monstros, fantasmas e demônios perderam espaço. O terror sobrenatural continua vivo, assim como os slashers, os filmes de possessão e as histórias de criaturas. A diferença está na ampliação das possibilidades do gênero.

O terror sempre dialogou com os medos de seu tempo. Em diferentes momentos da história, epidemias, guerras, tensões sociais, transformações culturais e inseguranças coletivas encontraram representação nas telas. O monstro, muitas vezes, funciona como uma metáfora para aquilo que a sociedade não consegue compreender ou prefere não enfrentar.

Hoje, quando o cinema aborda racismo, violência, padrões de beleza, relações abusivas, traumas familiares e isolamento, não está necessariamente abandonando o horror tradicional. Está encontrando novas maneiras de utilizá-lo.

E certamente é essa capacidade de se reinventar que mantém o gênero tão relevante. Um bom filme de terror pode nos fazer gritar diante de uma criatura, mas também pode nos deixar desconfortáveis ao reconhecer algo familiar em uma situação aparentemente absurda.

Nem todo monstro precisa precisa de um ambiente medonho…

Neste Halloween, entre fantasmas, assassinos mascarados e criaturas sobrenaturais, vale lembrar que nem todo monstro precisa viver em uma casa abandonada. Alguns estão escondidos atrás de sorrisos, outros se alimentam de inseguranças e há aqueles que nem sequer precisam de maquiagem ou efeitos especiais para provocar medo.

Porque, no fim das contas, o terror mais perturbador talvez não seja aquele que nos mostra algo impossível. É aquele que nos faz olhar para a realidade e pensar: isso poderia acontecer.

Credito da capa: Cena do filme “Corra”. Reprodução