O crescente uso de IA generativa para produção de jogos digitais levanta debates sobre criatividade, jogabilidade e direitos autorais
O uso da IA para a produção de jogos é uma preocupação de grande parte dos jogadores no Brasil. Isso é que revela o relatório anual da PGB 2026. De acordo com a pesquisa, 45,7% dos jogadores brasileiros se preocupam com a precarização do processo criativo causada pelo uso de IA nos games. Apesar disso, os números também revelam que 40,9% consumiriam esse tipo de jogo.
Antes de compreender como esse fenômeno se dá, é preciso entender do que se trata a Inteligência Artificial e como a IA nos games é utilizada.
Como o nome sugere, a inteligência artificial se refere a um campo da computação que simula a inteligência humana através da aprendizagem de máquina. Ou seja, sistemas são treinados com um banco de dados para pensarem como os humanos pensariam. Já a IA generativa é uma ferramenta utilizada apenas para criar conteúdos.
Como a IA generativa é utilizada nos jogos digitais?
A IA generativa pode ser utilizada para diversas etapas da produção de um game. Desde testes básicos, ajustes de animações, geração de cenários ou personagens NPC e para adaptação de dificuldade de cada jogador. Dessa forma, a IA analisa o comportamento e habilidades do usuário e ajusta a dificuldade de forma personalizada.
Além disso, uso de IA nos games promete tornar as etapas de produção mais rápidas e práticas, facilitando a criação de roteiro e códigos, por exemplo. Para Filipe Araújo, professor da cadeira de Games no Curso de Ciência da Computação na Uninassau, “ela economiza um tempo precioso de produção e é um braço direito na correção de código, agilizando processos que antes eram puramente manuais.”
No entanto, apesar de facilitar a parte manual, esse tema é delicado ao ser utilizado no campo artístico. “A arte é um conceito abstrato e humano, mas muitas empresas grandes a usam para cortar caminho. Vimos isso naquele erro bizarro nos dedos em uma arte de Call of Duty: Warzone, algo que um artista humano dificilmente erraria. Por mais que a IA ‘democratize’ a criação, ela torna a vida dos designers muito mais instável”, ele completa.
Já existem jogos feitos com IA?
Codex Mortis é um jogo do tipo bullet hell, desenvolvido pela CRUNCHFEST. Com temática necromântica, este é o primeiro game desenvolvido 100% por IA generatva.
Em Codex Mortis, os jogadores podem comandar lacaios, criar combinações de feitiços devastadores e lutar contra um exército de mortos-vivos, em sua busca pelo poder supremo.

Os desenvolvedores confirmaram que utilizaram IA em todos os códigos do jogo, incluindo texto, artes, cenários, sons e música. O jogo está disponível, na versão demo, para computadores via STEAM.
Além desse título, outros games utilizam elementos de IA, como o jogo No Man’s Sky, que utiliza planetas feitos com IA generativa. A Ubisoft, desenvolvedora de Assassin’s Creed, também utiliza recursos de aprendizagem de máquina para gerar diálogos dos personagens NPC.
A questão ética a respeito do uso de IA nos games
Por se basear em um banco de dados, o uso de IA nos games se depara com uma série de problemáticas: os direitos autorais e a mecanização, que torna os conteúdos repetitivos. Afinal de contas, softwares de inteligência artificial podem criar jogos, cenários, dar voz a personagens com mínima intervenção humana no processo. Porém, diante da aprendizagem de máquina, que simula o cérebro humano através de banco de dados, é importante questionar se essas criações não utilizam indevidamente algum tipo de conteúdo ou se repetem padrões de forma robotizada.
Em entrevista ao GeekPop News, Ivson Henrique, UI/UX designer de jogos falou sobre a dificuldade que muitos artistas independentes podem enfrentar com o avanço do uso de IA generativa:
“Então, isso pode prejudicar algum tipo de artista que não possa ser registrado, não tenha direitos autorais. Tem muitos artistas que trabalham, mas muitos deles não registram. Pode ser que alguém faça alguma arte e publique, alguém pegue e use aquela arte. Como ela não é registrada, pode ser que use com outros fins. E o artista nem sabe, vai saber quando é muito tarde. Pode ser um problema futuro.”
Com o crescimento desse fenômeno, o Brasil aprovou o PL 2338/2023, que prevê punição para desenvolvedores ou operadores que gerarem conteúdos com risco de dano aos direitos fundamentais sem salvaguardas adequadas. O projeto é de autoria de Rodrigo Pacheco (PSD/MG). Para Felipe, discutir o uso ético da IA é urgente.

A precarização do processo criativo dos jogos digitais
Além da questão ética, com o uso de IA generativa para geração de conteúdos que fazem parte dos games, também há a discussão a respeito da precarização do processo criativo e como isso pode gerar uma experiência ruim para os jogadores.
Segundo os dados da PGB 2026, 38,4% dos usuários têm medo de que jogos feitos por IA gerem uma onda de títulos “sem alma”. A pesquisa sobre consumo de jogos, aconteceu entre 05 de março de 2025 e 13 de março de 2025 e contou com a participação de 7.115 entrevistados. De acordo com a pesquisa, “A IA em jogos divide menos entre “a favor” e “contra” e mais entre “como usar”. O centro do debate está em preservar autoria, qualidade e confiança do público diante de uma tecnologia que já entrou no radar do consumo gamer”.
Para o professor Felipe, “há uma obsessão por gráficos de última geração que consome toda a equipe, esquecendo que o jogo precisa, acima de tudo, ser divertido. Uma revolução real seria aplicar IA na inteligência dos NPCs. Os inimigos de Indiana Jones (2024), por exemplo, são bem ‘burros’, focados só no ataque direto. É gritante o contraste com o primeiro Halo (2001) ou com F.E.A.R. (2005), onde os inimigos flanqueiam, buscam cover e reagem ao dano. Sinto que houve um verdadeiro ‘apagão tecnológico’ na indústria em termos de comportamento tático.”
Para Ivson, o uso de IA nos games pode acontecer depois do processo criativo, mas não para criação. Para ele “se você quer criar algo autoral, tem que sair da sua cabeça, não precisa usar essas ferramentas para a criação de algo que não existe. Eu acho que é um pouco desconexo do comportamento humano. Às vezes, também, a IA cria algumas histórias baseadas em outras, não fica tão humanizado.”
Ele complementa que, além do processo criativo, o teste de usabilidade também é algo que precisa do olhar humano para ser bem feito. “Acho que a gente não consegue um teste de usabilidade tão bom quanto um feito e analisado por uma pessoa especializada na área, né? Então, acho que a IA ainda não consegue fazer isso, porque tem várias etapas para fazer isso. Então, a gente precisa muito de pessoas para testar, né?” acrescenta.
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Como é o futuro dos jogos diante do aumento de produções com IA?
A utilização da IA na produção de games é um fenômeno crescente, mas também recente. Por isso, os estudos e testes sobre o assunto ainda seguem em desenvolvimento. Alguns usuários tendem a gostar, outros vão preferir o trabalho artístico humano. No entanto, é um processo que deve continuar acontecendo, com cada vez mais empresas e desenvolvedores utilizando esse tipo de tecnologia.
Para o professor, “o segredo está na parcimônia. É um tema sensível, especialmente para a galera que foca no autoral e na essência da ilustração.”
Os jogos devem servir como uma ponte crucial entre a pesquisa de IA e suas aplicações e limites, possibilitando universos e jogabilidade personalizáveis, de acordo com a aprendizagem de máquina e mapeamento de banco de dados cada vez mais completo.
Para Ivson, o uso de IA nos games pode acontecer, mas sempre um com refinamento humano. Afinal de contas, a IA generativa é uma ferramenta que pode facilitar o trabalho de automação, mas não deve substituir o trabalho criativo feito por pessoas. Para isso, assim como qualquer ferramenta, é importante que os profissionais possam manejá-la de forma ética e com foco na experiência do usuário.
Imagem de Capa: Freepik
Estagiária sob supervisão de Julia Gabriela.
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